“A arte que tem medo de ser política”

Por: às 01/02/2011 11:32:52

Texto: Ricardo Marinelli | + no  Composições Políticas [imagem: apolítico_wilfredo prietro]

Sim, o título desse ensaio é uma provocação. Tenho defendido, desde sempre, o entendimento de que toda arte é política. Essa afirmação, bem como o debate que decorre dela, não é novidade e muito menos consenso no campo da produção artística. E diria mais: politizar (e despolitizar) a arte e estetizar a política são dimensões que farão parte de nossos assuntos mais divergentes e necessários durante muito tempo ainda.

Estimulado pelo que pude vivenciar no seminário com.posições.políticas[2], projeto associado ao Festival Panorama, no Rio de Janeiro, retomo aqui algumas reflexões de outros tempos e me arrisco em algumas novas, tudo na tentativa de esclarecer (inclusive a mim mesmo) a defesa que faço da impossibilidade de existência de uma arte que não seja política.

Muitas vezes percebo que muitos discursos que defendem a dissociação entre estes domínios manifestam certo temor de que a arte perca sua autonomia e suas especificidades ao assumir-se como política, portanto começo reivindicando e defendendo a autonomia da arte. Sim, acredito que as especificidades ontológicas da arte garantem a ela autonomia com relação a todas as outras dimensões do humano, e neste sentido muitas das discussões que aproximam a arte da política o fazem de maneira superficial e simplista, transformando a obra de arte em meio para um determinado fim, escravizando o acontecimento artístico e enquadrando-o numa normatividade pragmática e utilitarista.

Em diversas correntes filosóficas tradicionais, inclusive em muitas tidas como revolucionárias, as cobranças ético-políticas lançadas sobre a arte tem como pressuposto dois princípios que me parecem equivocados do ponto de vista ontológico: a idéia que cada obra de arte tem em si uma valência política que pode ser determinada objetivamente e a homogeneização das possibilidades do receptor. Ora, alegar que a arte a semantização é acontecimento inerente à arte seria contra suas características elementares. Por outro lado tratar os fruidores como iguais, sem considerar a quantidade de contingências contidas nessa relação, é uma atitude arrogante, para não dizer ignorante e sem sentido. [3] Não é a partir dessas perspectivas que defendo meu ponto de vista. A experiência estética, e portanto a arte enquanto fenômeno, não presta contas a nenhuma outra lógica de organização.

A tematização do debate, que enquadra determinados tipos de arte como arte política a partir das temáticas que abordam ou do contexto onde foram gerados, também não me interessa. Nos defensores desse discurso tipificador e classificador, a politicidade da arte é folclore e fetiche, qualificando obras e artistas como melhores ou piores a partir da “nobreza” ou “futilidade” de determinados assuntos. Aqui ocorre, mais uma vez, uma apropriação discursiva, onde se sobrepõe à arte uma condição de existência que dela não faz parte.

O que me faz acreditar que podemos dizer que toda arte é política é entender que ainda que subtraída a racionalidade, a experiência estética tem em si o poder da desterritorialização. Aqui me remeto mais diretamente ao pensamento de Deluze e Guatarri, filósofos que em meu ponto de vista oferecem abordagens que localizam a discussão em outros parâmetros. Para eles a arte é movimento, é ato de desviar, e por si só esse movimento já é político. “O desejo não ‘quer’ a revolução, ele é revolucionário por si mesmo, e como que involuntariamente, só por querer aquilo que quer” [4].

Por outro lado e junto com isso, a arte propicia acontecimentos de ordem política, sempre posteriores aos acontecimentos artísticos em sí. Ainda que possamos garantir que a autonomia é uma de suas características ontológicas, a arte sempre produz alguma construção de sentido – externa a ela, vale afirmar mais uma vez – que tem reverberações éticas, e que portanto pode ser considerada como uma construção política. A arte não precisa ser semantizada para ser arte, mas este processo sempre acontece. Em outras palavras, de toda estética decorre uma ética.

Sob essa égide, o desafio não seria decidir se a arte é ou não política, mas refletir sobre a questão sob um ponto de vista menos normativo e levando em conta um conceito mais ampliado de política. Isso só é possível se tiramos a arte do pedestal repleto de glamour que seduz muitos discursos artísticos.

Me parece que o debate se torna muito mais fértil quando deslocamos o foco da discussão para a natureza dos discursos políticos produzidos a partir de diferentes obras de arte, pois ainda que você – como artista – não queira que sua arte seja entendida como arte política, ela terá desdobramentos que serão dessa ordem em alguma medida.

Pessoal e particularmente estou interessado em produzir obras que partem de produções de sentido racionalmente políticos e também quero com elas tocar em questões específicas do mundo político. Isso não faz da minha arte mais ou menos política do que qualquer outra, nem melhor ou pior que outra. Faz dela um ato político diferente de outro produzido em outra contingência. Entendido assim, debater arte e política entre artistas passaria muito mais por aproximar ou distanciar interesses, procedimentos e recepção, do que por quantificar a politicidade contida em cada uma dessas coisas.

Não tenhamos medo de que nossa arte seja política, ela o é. A arte não existe e não pode existir isolada, tampouco deve ser reduzida ao papel de um meio para um fim – a armadilha na qual a maior parte dos discursos inflamados que defendem uma arte política acaba caindo. O desafio parece ser tratar de maneira mais complexa e abrangente a potencia política de nossa arte, já que “não existe obra ou indivíduo revolucionário, existe apenas o acontecimento revolucionário” [5].

Referências

CHAGAS, Pedro Dolabela. Arte e política: o quadro normativo e a sua reversão. Revista KRITERION. n 112, Dez/2005.

DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. O anti-édipo – capitalismo e esquizofrenia. Lisboa: Assírio &  Alvim, [s.d.]. (edição original em francês: 1972)


[1] Ricardo Marinelli é artista e produtor cultural, transitando nessas funções entre os campos da dança contemporânea e performance. Integra, junto com outros 6 artistas, a Couve-flor minicomunidade artística mundial. Foi professor de Dança e Filosofia na UFPR (2005-2006), Universidade pela qual é Licenciado em Educação Física (2002) e Mestre em Educação (2005). Como diretor, criador e/ou intérprete fez parte de 13 criações nos últimos 10 anos, com as quais ganhou 6 prêmios nacionais e participou de diversos Festivais no Brasil, Uruguai, Alemanha, Perú, Martinica e Cuba. Atualmente desenvolve o projeto TRAVESQUEENS, em parceria com Elielson Pacheco e Erivelto Viana (Prêmio FUNARTE Klauss Vianna de fomento a Dança, edição 2009/2010). Mais sobre Ricardo em www.couve-flor.org

[2] O seminário com.posições.políticas, acontecido entre os dias 12 a 15 de novembro de 2010, no Instituto Cervantes (Rio de Janeiro), é parte da programação de um projeto que pretende trazer a tona discussões e iniciativas que interessadas em Arte e Política no contexto artístico brasileiro. Mais sobre a proposta em www.cpp.panoramafestival.com

[3] Em artigo intitulado “Arte e política: o quadro normativo e a sua reversão”, publicado na Revista de filosofia KRITERION (n 112, Dez/2005), o filosofo Pedro Dolabela Chagas debate longamente essas incoerências do tratamento dado por diversas correntes filosóficas à relação entre arte e política, bem como aponta caminhos para a superação delas.

[4] DELEUZE e GUATARRI, O anti-édipo, p. 398.

[5] Pedro CHAGAS, Arte e política: o quadro normativo e sua reversão, p. 380.



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  • César Costa: Marcelo, concordo contigo quando diz que só o fato de ser artista já não te coloca como medíocre. Se...
  • Danielle: Não dá pra não fazer conexões entre as coisas ditas, ouvidas, feitas, vistas e acontecidas. Acho que não...
  • weyla: Hoje conversando com minha avó ela me disse que não queria mais comprar roupas porque tava perto de...
  • elielson: de comer e se comer sim. opa!
  • marcelo evelin: super eli! obrigado por juntar tudo aqui pra que se possa ir mapeando. foi bom vc ter trazido a mesa...

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