A proposta inicial do 1000 casas e’ escolher de 5 a 10 casas para visitar propondo uma acao para seus moradores, e testar uma ideia de documentalidade dessas visitas, que seria mais do que um registro mas nao um documentario, talvez a escolha especifica de uma intimidade abordada, uma marca de existencia de alguem ou alguma coisa, a ficcao de uma realidade ficcionada.
escolho minhas sete casas e as nomeio 0007, numa contagem de tras pra frente, do de fora para o centro. elas estao situadas no grande dirceu nos bairros renascenca 2 e 3, redonda e vila paris. ao fotografar essas casas me dou conta do nivel de violencia que pode ser adentrar uma casa e a particularidade de uma familia. tremo no meio do calor parado em frente as casas me sentindo como que roubando essas fotos e imaginando o que sera adentrar ai, e a responsabilidade enorme de propor ai alguma acao que justifique a invasao dessa privacidade, o adentrar essa teia de lacos carnais que sustentam as paredes, demarcam o territorio e fazem dessa construcao uma casa, lugar unico e ao mesmo tempo comum.
penso em dizer abre-te sesamo para que a porta se abra e eu entre invisivel naquele esconderijo de pessoalidade, naquele lugar que e’ o mais corpo dos lugares, o front de retirada e campo de batalha de uma luta intima e infinita, a luta do “nos mesmos”. ou talvez mover o nariz pro lado e pro outro feito a feiticeira e aparecer ali dentro numa nuvem de fumaca ja abancado no meio da sala feito a endora, a mae da feiticeira, com seu manto azul celeste.
penso mais, muito mais em receber do que em dar, parado em frente a essas casas, e talvez o papel do artista esteja invertido com o do espectador. ou talvez essas regras que regem o artista e o espectador tenham que ser completamente modificadas, arrancadas do eixo dual eu-ele e pensada como um “nos” numa relacao ainda mais complexa e dissipada, simultanea, imbricada e constantemente intercambiada. “dissolver a arte na vida” ja propunha oiticica nos anos 60 e seus brados sao ainda proclamados, mais a questao se mantem pouco resolvida em vidas que se espetacularizaram bombasticamente e numa arte que as vezes parece viver de sobras de desencantos, ou tentativa desesperada de se agarrar a vida.
as paredes me olham com olhos atentos, os portoes calados e o silencio por detras dos muros. o espaco aberto e disponivel da frente das casas e o caminho que me leva ate elas. as paredes tem olhos, ouvidos, bocas, coracao, figado, punho, eixo, as casas comem e dormem, respiram e copulam, amam e sofrem, insistem e desistem com grandeza e simplicidade. e nao sao nada mais do que sao.
27 de maio de 2011 em 16:26
uuuuuuii!!! não sei o que me dá mais medo performar na intimidade dos outros ou na minha propria intimidade. Quando vejo minha casa nessa galeria, diferente das outras, eu posso fazer um raio x de cada detalhe que a compoe, da estrutura física às implicações emocionais que a constitui. Tô bem curioso…
0007 me traz a referência do conhecido agente secreto do cinema que faz o reconhecimento do território, planeja a ação e ainda assim sempre lhe dá com inúmeras situações particulares de cada operação. Me deixa empolgado reconhecer minha casa como uma das visitadas.
29 de maio de 2011 em 11:58
Putssss difícil pensar em performar em um lugar que consegue me fazer ser tudo menos artista,difícil pensar em uma perfomace pra um campo de guerra, difícil pensar em uma perfomace para um lugar que nada contra a cachoeira, difícil tocar em lugares intocáveis e difíceis, aceito o desafio,e minha cara ta pra tapa