
Alguns pontos que atravessaram o projeto Primeiro Passo:
> Começar um percurso.
> Todo gesto que indica comprometimento com inaugurações.
> As várias possíveis formas de início que a trajetória de um profissional pode abrigar.
Tomando como ponto de partida essa perspectiva, as dos artistas que se lançam num campo outro e passam a escolher direções distintas das quais se identificavam antes, o bate-papo após as apresentações começavam sempre com perguntas simples e pequenas. No primeiro dia foi só assim: gente, mas por quê? E daí seguia.
O que te moveu pra fazer esse trabalho, que questões te levam a investigar um outro campo, a dar um passo em outra direção? Que espaço é esse da escolha por uma coisa autoral? Qual o perfil desse jovem criador? Ou ainda, como é começar sem estar propriamente “começando”?
Pra mim e Jacob, os atores da noite de quarta, a conversa se relacionou muito com a formação em Teatro. Helena perguntou por exemplo se tinha diferença nessa dramaturgia, nessa maneira de organizar e criar para dança ou para teatro. Isso claro sem cair nos reducionismos, porque já sabemos que não havia necessidade de delimitações claras, de nomear os territórios investigados. Mas existe aí nessa fricção, alguma diferença? E como é?
Falava-se muito sobre a possibilidade de um outro ponto de vista, exercício que o artista tem que se permitir como maneira de se reenvintar, buscar uma nova maneira de olhar, seja pela escolha de uma outra mídia ou outra linguagem. Tentar se colocar numa outra posição, que as vezes te traz novos desafios e um outro frescor.
Falamos também sobre a grande crise da dança. Micheline trouxe a questão. Que dança é essa, que parece o tempo todo se propor como “muito inteligente” ? E que corpo é esse que não pode ser mais bonito, não pode mais dançar? Parece que se eu sou um bailarino bom e danço, já tem um risco de esteriótipo.
Discutimos o perigo iminente de uma ingênua/equivocada separação entre obras que são “inteligentes” e obras que “não são tão inteligentes assim”. Como se a lógica do criador que se apóia em códigos legitimados, como estrutura coreográfica ou cenário impedisse o artista de discutir ali algo. E na contramão disso, como se o uso de todas as senhas da contemporaineidade (o tal vocabulário de um trabalho conceitual) fossem bilhete pra consistência, pra maturidade. Helena fala que há exemplos bons e ruins nessas duas abordagens ou maneiras de se criar pra dança.
Em determinado momento alguém disse: – Gente em São paulo, se você quiser encontrar lugar pra fazer aula, dançar mesmo, não tem. Tem sempre uma turma de iniciantes, e tal, mas aí depois tá todo mundo criando. Não tem mais espaço!
Helena com a voz calma, e aquele jeito de “café com bolo” que você tem vontade de ficar lá escutando por horas, ia puxando fios e fios e desenrrolando a conversa. Falou sobre esse BUM da dança!! No Brasil com as graduações que pipocam e em São Paulo com a oxigenação do mercado via lei de incentivo. Muita gente com diploma, muita gente querendo criar, produzir, distribuir, viver de dança. Pra mim a impressão que dá é que todo mundo agora pode e QUER ser pesquisador. E nesse sentido, traçando um panorama, o que acontece é que temos um cenário inchado de inúmeros “primeiros passos”.
Essa demanda e volume de trabalho/artista gera dois fenômenos:
1> na visão da Helena cria uma obsoletividade programada. Quem tá na vez, dá lugar pra quem tá atrás, e a fila vai andando. Nesse sentido a lógica de mercado acaba impondo ao artista criar mais, pra não cair nas brechas dessa obsoletividade, pra garantir mais rápido lugar nessa fila de distribuição nos circuitos, espaços e festivais.
2> na visão de Vera Sala temos talvez um novo perfil de criador. Que agora é um técnico em dança, graduado, munido de diploma, fazendo uso de vocabulário, mas essencialmente começando do zero e se formando como criador em 4 anos. Fenômeno impensável pra geração da qual ela faz parte.
Alguém pergunta :Como é essa “padarização”? Será que essa lógica não gera obras com menos rigor, onde o cárater de experimentação se apoia no diploma, nas referencias, e o percurso desse artista acaba sendo encurtado? E o que fazemos para garantir uma sustentabilidade pra tanta gente? Criar duas obras por ano?
Claro que esse BUM da dança tem seus índices positivos. Muito mais gente atuando nesse segmento, tornando mais fácil mapear e analisar as variáveis desse setor e suas implicações no campo da economia da cultura por exemplo. Mas esse BUM da Dança nos impoem paradoxos estranhos.
Porque esse volume de novos criadores não consengue oxigenar a platéia? Não consegue gerar mais público? Se tem mais gente, estudando, produzindo, teoricamente tinha que ter mais gente pra ver, ou não??? Em São Paulo esse desafio parece maior, em meio a saraivada de coisa ofertada, mas porque as graduações não lotam as platéias?. Ou mesmo, por que não se fazem tão presente em projetos como o 1ºPasso, espaço pensando pra discutir e dá visibilidade a percursos profisisonais em seus estágios iniciais?
E por aqui como funciona a tal obsoletividade programada que Helena nos traz?
L.H.
pictures.
15 de junho de 2009 em 0:24
muito bom ler tudo isso, Lay.
Fiquei foi com vontade de estar aí, ouvindo tudo quietinha…
muita coisa pra pensar, e melhor, me dá vontade de agir, de fazer.
20 de junho de 2009 em 11:47
Maravilha esse post! Informativo e reflexivo ao mesmo tempo. Abraços do Rio!!!