3a Performatividade modernista brazuca

Por: às 27/03/2011 12:58:01

Flavio de Carvalho foi um artista bastante destacado, especialmente no nosso contexto modernista pós semana de 1922. Tinha formação de engenheiro, e trabalhava também como arquiteto, profundamente conectado com o debate internacional posto na mesa na sua época, produzindo também intelectualmente sobre o assunto. Escreveu livros sobre a condição urbana, pensou filosoficamente a arquitetura, elaborando sobre a condição do homem moderno no espaço, na sociedade, na vida em conjunto. Desenhava móveis, como a linda cadeira Flavio de Cravalho, projetos arquitetônicos ousados, como a casa da fazenda Capuava. Desenhava e pintava, algumas coisas incríveis como a Série Trágica, de desenhos da agonia de morte da sua mãe. Tramou envolvimentos com a cena, escrevendo peças de teatro, desenhando cenários. Mas onde o bicho pegava mesmo, e pega até hoje, é com suas experiências…

as experiências por alguma razão (que a meu ver fazem elas melhores ainda, sem marcar um começo, sem revelar qual teria sido a primeira) começam com a experiência No 2, de 1931, bombástica…

Flavio de Carvalho fez do escandalo uma etica experimental, saindo à rua em trajes que as convenções sociais dizem ser improprios, para auscultar a reação das massas. Enfrentou uma procissão catolica de chapéu na cabeça e, uma vez mais, quase é destruido fisicamente pela ira estabelecida. Flavio nunca recua, não se amedronta.

O que mobilizava suas investigações poéticas já nos anos 30 era o interesse pelo que ele chamava de experiências, onde a arte passava a ter valor muito mais como um processo de criação que se disseminava no mundo, do que como produção de objetos belos. A experiência teria o intuito de perverter os mecanismos habituais de sociabilidade, criando um território de pura experimentação. Na verdade, noções tradicionais separando o artista, a arte e o público perdem sentido: a experiência quer justamente pensar novos horizontes de individuação, assumir uma subjetividade em constante mutação.

É com este espírito experimental, com esta vontade de reinventar a vida e o mundo por meio da arte, que ele realizou em 1931 sua inusitada Experiência nº2, em que desafiou uma procissão de Corpus Christi e foi quase linchado sendo salvo pela polícia. Em seguida, escreve um livro onde constrói uma teoria um tanto delirante sobre a psicologia das massas para analisar o acontecido. Neste texto, sua escrita é feita por quadros descritivos muito marcados por uma tensão psicológica que nos faz vislumbrar um roteiro cinematográfico.

a No 3 – o new look

Já nos anos 50, ele inventa o traje tropical – uma roupa masculina para o verão – desfilando pelo centro de São Paulo em uma performance carregada de expectativa pela mídia.

(…) Mais uma vez, um misto de escândalo e deboche veio à cena. O que seria aquele homem de quase 2 metros de altura desfilando pelas ruas com um saiote, meia-calça e chapéu de aba? Quem compreendeu corretamente o espírito destas experiências de Flávio de Carvalho, foi o modernista Menotti del Picchia. Alguns dias após o “desfile” do traje tropical, ele ia para sua coluna no jornal A Gazeta e disparava: “E lá saiu mais uma vez o herói-pesquisador (…) Há uma gota de sangue de Tiradentes nesse pensador libertário. É claro que o que se possa pensar ser cabotiniano é nele violência polêmica. Quanto mais grotesca fosse sua indumentária mais eloqüente seria o impacto na massa. A passeata caricata de Flávio de Carvalho era uma festa consciente de revolta contra convenções que devem ser superadas. Não creio que vingem seus modelos: Flávio é um Galileu, não um Dior ou um Fath. Não é um costureiro; é um filósofo. É duro e heróico bater-se contra encruadas convenções”.

a No 4

Já na Experiência N. 4, guiado por coragem e ironia equivalentes, Flávio de Carvalho organizou uma expedição para a selva amazônica. Com uma equipe de registro e acompanhado por duas “deusas” caucasianas, foi ao encontro de tribos locais com a proposta de fundar uma linhagem de índios brancos. Ambas as Experiências tiveram ampla cobertura da imprensa, por meio da qual o artista conseguiu provocar e mobilizar a opinião pública para o tema de seu debate.

mais sobre as experiências do Flávio na escrita de Luiz Camillo Osorio…

Sua dispersão poética aponta para a criação de uma potência de desconstrução de “convenções encruadas” que sistematicamente inibem o desenvolvimento de uma nova energia criativa. Há algo de uma barbárie positiva, para usar os termos de Walter Benjamin, na dispersão carvalhiana. “Barbárie? Pois é. Nós a mencionamos para introduzir um conceito novo, um conceito positivo de barbárie. Pois o que traz ao bárbaro a pobreza de experiência? Ela o leva a começar do começo; a começar do novo” (extraído do texto “Experiência e Pobreza”). E assim é com Flávio de Carvalho, sua inquietação criativa e experimental é atitude enquanto forma, é a disponibilização de uma energia nova, que por mais caótica que seja, marca sempre a possibilidade de um outro começo.

A “atitude” performática surge no momento em que alguns artistas radicais procuravam novos meios de expressão que fossem, por um lado, desatrelados das amarras institucionais e, por outro, contrários às normas convencionais, agredindo o senso comum e testando os limites da experimentação artística. As Performances têm sido um meio de apelar diretamente a um publico mais amplo, obrigando a audiência a rever suas noções do que seja arte e da sua relação com a cultura.

Neste aspecto, mesmo não tendo uma intenção artística, a Experiência nº 2 pode ser tratada artisticamente. A interdisciplinaridade, a opção anti-institucional e a procura por brechas no cotidiano para desafiar seus parâmentros de orientação, subjazem a muitas destas práticas performáticas. Além disso, ela aponta na mesma direção assinalada anteriormente de “uma pesquisa da alma”, própria à poética carvalhiana, pondo ênfase no choque entre a alma individual e a coletiva, na tensão entre o eu e o mundo. Como ele mesmo assinalara, sua atitude arrogante nada mais era que uma experimentação que buscava testar a agressividade de uma multidão religiosa e os seus limites de civilidade e tolerância.

Vemos nesta experiência um eco nietzscheano, que afirmava no Nascimento da Tragédia, que o homem “é salvo pela arte, e através da arte salva-se nele – a vida”, e que “só como fenômeno estético podem a existência e o mundo justificar-se eternamente”. Justificação estética da existência e a confluência entre arte e vida, são temas caros ao pensador alemão e ao artista paulista.

por fim, na wikipedia tinha esse causo, extremamente performativo terceiro…

Costumava andar seminu pelos corredores do escritório, isto é, só de short, o que, “para a época”, era tido como um despudor inaceitável. Os demais proprietários e usuários de salas do edifício ficavam indignados e as senhoras finíssimas que ali circulavam tinham verdadeiros ataques histéricos, ao que Flavio não dava a menor importância. Revoltados, reuniram-se os inquilinos, redigindo um severo abaixo-assinado: o artista deveria urgentemente deixar o prédio. Flávio não apenas se recusou como terminantemente ainda afirmou: “Não vou sair daqui de jeito nenhum. Vocês só me tiram daqui a bala… mas vai ser difícil, porque vou instalar uma metralhadora em meu ateliê…” Inteirados de sua audácia e destemor, os reclamantes não tocaram mais no assunto mas algo lhes dizia que o artista blefara fragorosamente. Contudo, no dia seguinte, um destacado anúncio no Diário Popular fez com que houvesse um frêmito de pânico no velho edifício: “COMPRA-SE UMA METRALHADORA. TRATAR COM FLÁVIO DE CARVALHO NO INSTITUTO DE ENGENHARIA”.




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Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

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Comentários

  • César Costa: Marcelo, concordo contigo quando diz que só o fato de ser artista já não te coloca como medíocre. Se...
  • Danielle: Não dá pra não fazer conexões entre as coisas ditas, ouvidas, feitas, vistas e acontecidas. Acho que não...
  • weyla: Hoje conversando com minha avó ela me disse que não queria mais comprar roupas porque tava perto de...
  • elielson: de comer e se comer sim. opa!
  • marcelo evelin: super eli! obrigado por juntar tudo aqui pra que se possa ir mapeando. foi bom vc ter trazido a mesa...

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