a dança se reconstói

Por: às 22/07/2009 03:38:00


Corpos eloqüentes, colocando suas questões sobre a construção da dança contemporânea e suas possibilidades marcaram a primeira noite da Mostra Contemporânea de Dança do Festival de Joinville.
O “Autorretrato” de Erika Rosendo é fractal, multifacetado e colorido, buscando ressignificação em seu repertório coreográfico. E como dança também é memória, percebe-se no trabalho da intérprete-criadora as nuances de sua formações anteriores, que incluem passagem pela escola do Bolshoi, derivados para novos recursos de criação. Ela abre o trabalho carregada de sacolas, movimentando-se para segurar ou livrar-se delas. Na sequência, também troca de figurino em cena, talvez sinalizando o esforço pela evolução de sua identidade com dançarina. A imagem, aliás, é reforçada no vídeo exibido, que mostra várias trocas de roupa, closes de olhares e de partes do corpo dela que, ao final, abandona os chinelos e segue caminhando descalça. Mas não é de simplicidade ou despojamento que o retrato coreográfico de Erika se faz. Pelo contrário. Há riqueza na performance e bons momentos cênicos quando, por exemplo, explora diferentes níveis de movimento dançando sobre os carretéis de madeiras usados em cena. No esforço de comunicar sua dança, a bailarina sai do palco, fotografa com o público e distribui cartões com textos de Clarice Lispector e Guimarães Rosa, nomes próprios e perguntas como “Quem faz você ser o que você é?”. Com delicadeza e segurança coreográfica, Erika Rosendo esboça pensamento próprio, fazendo de seu corpo o retrato de sua dança.
Se o robô dança e a boneca está destroçada, cabe ao corpo de Elielson Pacheco, do Núcleo de Criação do Dirceu, ressignificar “Sobre Ossos e Robôs” (foto). É uma dança provocativa, irreverente, sedutora e ao mesmo de estranhamento. O bailarino faz contorções tentando a articulação dessas referências. A passagem de um estado para outro do movimento reorganiza a cena, carregada de humor, com os longos cílios azuis postiços piscando para o público. A incomunicabilidade da coreografia pode desarmar os não-iniciados, mas o impacto e a contundência do trabalho está justamente nisso. O corpo que sugere o grotesco, o disforme e o retorcido, também é capaz de organizar, delicadamente, os destroços do humano robotizado, coisificado, aos pedaços, típicos de uma contemporaneidade inquietante. A nuvem passageira da trilha sonora sopra renovação no linóleo. E quando isso é corporificado em cena, é hora de desligar as máquinas. A maestria ainda repousa sobre corpo que dança.

carlinhos santos



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Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

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Comentários

  • César Costa: Marcelo, concordo contigo quando diz que só o fato de ser artista já não te coloca como medíocre. Se...
  • Danielle: Não dá pra não fazer conexões entre as coisas ditas, ouvidas, feitas, vistas e acontecidas. Acho que não...
  • weyla: Hoje conversando com minha avó ela me disse que não queria mais comprar roupas porque tava perto de...
  • elielson: de comer e se comer sim. opa!
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