
Corpos eloqüentes, colocando suas questões sobre a construção da dança contemporânea e suas possibilidades marcaram a primeira noite da Mostra Contemporânea de Dança do Festival de Joinville.
O “Autorretrato” de Erika Rosendo é fractal, multifacetado e colorido, buscando ressignificação em seu repertório coreográfico. E como dança também é memória, percebe-se no trabalho da intérprete-criadora as nuances de sua formações anteriores, que incluem passagem pela escola do Bolshoi, derivados para novos recursos de criação. Ela abre o trabalho carregada de sacolas, movimentando-se para segurar ou livrar-se delas. Na sequência, também troca de figurino em cena, talvez sinalizando o esforço pela evolução de sua identidade com dançarina. A imagem, aliás, é reforçada no vídeo exibido, que mostra várias trocas de roupa, closes de olhares e de partes do corpo dela que, ao final, abandona os chinelos e segue caminhando descalça. Mas não é de simplicidade ou despojamento que o retrato coreográfico de Erika se faz. Pelo contrário. Há riqueza na performance e bons momentos cênicos quando, por exemplo, explora diferentes níveis de movimento dançando sobre os carretéis de madeiras usados em cena. No esforço de comunicar sua dança, a bailarina sai do palco, fotografa com o público e distribui cartões com textos de Clarice Lispector e Guimarães Rosa, nomes próprios e perguntas como “Quem faz você ser o que você é?”. Com delicadeza e segurança coreográfica, Erika Rosendo esboça pensamento próprio, fazendo de seu corpo o retrato de sua dança.
Se o robô dança e a boneca está destroçada, cabe ao corpo de Elielson Pacheco, do Núcleo de Criação do Dirceu, ressignificar “Sobre Ossos e Robôs” (foto). É uma dança provocativa, irreverente, sedutora e ao mesmo de estranhamento. O bailarino faz contorções tentando a articulação dessas referências. A passagem de um estado para outro do movimento reorganiza a cena, carregada de humor, com os longos cílios azuis postiços piscando para o público. A incomunicabilidade da coreografia pode desarmar os não-iniciados, mas o impacto e a contundência do trabalho está justamente nisso. O corpo que sugere o grotesco, o disforme e o retorcido, também é capaz de organizar, delicadamente, os destroços do humano robotizado, coisificado, aos pedaços, típicos de uma contemporaneidade inquietante. A nuvem passageira da trilha sonora sopra renovação no linóleo. E quando isso é corporificado em cena, é hora de desligar as máquinas. A maestria ainda repousa sobre corpo que dança.
carlinhos santos