[projeto instantâneo - julho / fotos: klayton amorim]
Durante o mês de julho o Projeto Instantâneo foi o espaço que Eu e Soraya encontramos
para hospedar um processo de criação que ainda não nomeamos. Uma pesquisa que surgiu de um confronto com nosso trabalho, do reconhecimento de uma série de dificuldades e de uma necessidade de CRIAR, de investigar o que há nesse espaço “entre” intérprete e criador. Tomamos como ponto de partida “incômodos” e “inquietações” que fossem comuns a nós duas. Essencialmente duas: a de assumir a responsabilidade de criar sozinha, e a de assumir nossas “dificuldades artísticas” como questão.
Adotamos para julho um procedimento comum: a cada quarta-feira trabalhamos com uma palavra. Essas quatro palavras – ridiculo – sabotagem – medo- impotência – são imagens que eu e Soraya encontramos quando nos perguntamos: o que é muito difícil pra mim? o que eu faço quando eu não sei o que fazer? como eu me organizo num lugar de risco e instabilidade? que porra de merda é essa que me faz travar? o que me “trava”? quais são os meus julgamentos recorrentes?
Essas quatro palavras funcionavam como disparador da conversa e nos traziam um recorte quanto ao assunto. Elas nortearam as estratégias que utilizamos para pensar no espaço, no que íamos vestir, na luz, na relação com público.O que RIDICULO trazia pra gente? Em que situações me sinto ridicula? Em que circunstância tenho MEDO de me experimentar como artista? nua? sozinha? dançando?
Na verdade iniciar uma conversa em cima de uma palavra foi ganhando formas diferentes a cada quarta-feira e aos poucos foi se revelando como “nosso processo”. Tínhamos o tempo todo que lidar com julgamentos do tipo “ah mais isso é muito raso, irrelevante”. E nos propomos simplesmente compartilhar com as pessoas nossas fragilidades, ir lá e descobrir no jogo, no instante como lidávamos com isso.
Nas primeiras duas semanas esse plano de trabalho foi apresentado ao grupo que participa dos treinamentos de quarta e sexta. Mas tudo foi dicando “mais claro”, inclusive pra nós duas, no próprio percursso. Na verdade a própria empreitada de compartilhar nosso processo, com as outras pessoas do grupo se mostrou muito muito difícil. (o detalhamento dessa experiencia pode ser lido no blog do instantâneo).
POis bem….
E onde estamos agora?
Agosto, intervalo em que foi importante se “ocupar” com a ocupação, aniversário do teatro, instantâneo, mediatriz, fotografia…
Retomamos num momento de organização e de reconhecimento dessa experiência de julho, ou seja, do que fazer com o material que foi produzido. Entendemos que não é sobre simplesmente encontrar uma organização para as “melhores partes” ou sobre colar numa estrutura as “coisas que funcionam”. Então estamos listando pontos importantes como:
- público:
No mês de julho a relação com o público foi um ponto forte. Isto é, que há momentos em que construímos sentidos junto com as pessoas, quase como uma mão dupla, lendo e fazendo o que o público queria, nos dava, dizia. Era quase como a gente revelar uma coisa, uma fragilidade nossa e perceber como as pessoas transformam isso (interpretavam) e transformavam o que estávamos fazendo num outro assunto.Esse outro assunto sempre era retomado na próxima quarta. Foi assim com a idéia de nudez, sexo, genêro, universo feminino, estética, etc, etc, etc. E isso ia nos levando pra outros lugares…
Nesse sentido a participação das pessoas pode ser uma escolha pra o trabalho, ora, se processamos uma obra no palco e não no estúdio, então a improvisação é determinante no próprio cárater desse duo.
-estado/ improvisação:
Ficamos nos perguntando como é esse dominio, esse equilibrio, como é estabelecer essa conexão e levar um assunto para as pessoas de forma direta. Como é entrar e permanecer nesse estado de disponibilidade e de abertura que o interprete tem que ter pra chegar no outro. Ainda mais em palco italiano que traz uma série de implicações.
Pra nós esse estado tem relação com um nível de energia mesmo, com o uso consciente do texto, com a leitura imediata do que nós estamos vendo e do que as outras pessoas estão vendo…enfim com o diabo da percepção do que DE FATO está acontecendo.
- texto / teatro.
Usar o texto não como meio para explicar , mas como um canal direto com o que está sendo gerado, sem julgamentos. Ler e falar o que está acontecendo e isso ser honesto e claro porque é uma necessidade. Ou ainda, ir no sentido oposto, usar o texto como trampolim pra manipular um assunto, pra exatamente subverter esse sentido “chapado, linear” que as pessoas tem num primeiro momento.
Hoje nos damos conta que isso aí em cima passa por assumir uma informação que está no nosso corpo e que tem relação com texto: nossa formação em teatro.
Quê mais?
O trabalho não se desmembra do Instantâneo, mas cada vez mais ele precisa acontecer em horários distintos. Entre eu e Soraya, no quintal, por email, na hora do almoço, nas segundas, terças e quintas. Pensamos em todos os encontros, como se chama? e que lugar queremos habitar com ele? (pergunta trazida pelo Marber).
- Soraya diz: “é pra botar na parêa do
mediatriz”. (rs).
Lay e Sol.
26 de agosto de 2008 em 15:31
dentro desse jogo de difuculdades e inquietações que estimulam o artista pra mim o mais difícil é separar o suco do caldo, como esse apuramento deve ser feito, por que de fato nesse momento minha consciencia está em jogo e como coloco o foco em algo relevante para o trabalho? esse jogo interessante de poder desfacelar as carnes e retirar a gordura pra que eu possua a nitida clareza de que o que cabe nessa receita é a gordura e não a carne. identificar o sentido, clarear e saber que em arte lido com códigos, mas códigos que são extremamente mutáveis e me colocam numa “instabilidade criadora”. mas eis o grande ponto, a leitura clara das reações que faço diferentemente de um modo de organização pós-moderno que me permite jogar com fragmentos. agora sim depois desse turbilhão do entendimento com as próprias ferramentas fica mais claro pra mim que o que devo fazer enquanto artista é condensar, me informar e buscar recursos pra que eu possa ler as coisas que faço exatamente como faço…muito boa a pesquisa, acredito que o duro seja um pouco disso que falei, a separação ou não dessa ligação estabelecida com o instantâneo nesse mês…