COMEÇOU NO DIA 22 DE FEVEREIRO.
Recebi uma mensagem no facebook enviada por Vanessa Mello, integrante do Grupo Dimenti (que como nós também recebeu subvenção de manutenção Petrobrás). Na mensagem ela me convidou para colaborar na criação de um solo.
Um dos ramos da subvenção Petro deles é a criação de solos pelos artistas do grupo. São eles Paula Lice, Lia Lordelo, Márcio Nonato, Jorge Alencar, Fábio Osório e Vanessa Mello. Como cada artista está trabalhando com pelo menos um colaborador, eles decidiram chamar esse ramo de Projetos Autorais.
Na mensagem Vanessa disse querer alguém para “Trocar, discutir, editar, amadurecer, pensar/repensar ideias. Alguém pra estar do meu lado, surtando comigo. Estou muito interessada em ter você como meu colaborador. Os trabalhos que conheço contigo, principalmente os TTA’s, tem muito a ver com a temática que me interessa. Tô pensando em pesquisar términos de relacionamentos à distância, que não foram presenciais: cartas, emails, torpedos, telefonemas, mensagens de fumaça…Rs! Tudo relacionado à não presencialidade ao terminar um relacionamento. Tenho alguns emails pessoais e de amigos, de términos. Algumas pessoas vão me emprestar cartas… etc.”
Depois dessa mensagem começamos a conversar mais via email e chat sobre esse tal assunto de presencialidade/ não-presencialidade. Van começou a me enviar emails, recados de seus términos virtuais, assim como os términos dos amigos dela. Fizemos os dois respostas para alguns desses emails. Fomos percebendo também o quanto de elaboração artística poderia ter tanto nos emais reais, quanto em nossas respostas. Por exemplo, um dos amigos de Van recebeu como forma de término uma carta em branco, apenas com as páginas numeradas 1, 2, 3, 4, 5. Numa dessas respostas eu me direcionei a meu namorado “Mário”, um nome que peguei randomicamente em minha cabeça para fazer a carta direcionada a alguém, já que Van havia chamado seu namorado de X. Depois desse momento apelidamos o solo de: CONVERSA SOBRE MÁRIO.
….
Depois de um tempo comecei a querer saber o QUÊ desse assunto interessava MESMO a Van.
O que é estar presente? Existe não-presença? Não-presença não seria igual a morte? Qual a diferença entre comunicação real e virtual? O que muda? Na virtual posso mentir ser o que sou, posso criar uma representação de mim, posso me recriar. Quais implicações disso nos relacionamentos contemporâneos? Menos acordo, menos compromisso, menos percepção do mundo, menos tatibilidade, menos posicionamento, menos verdade? O que é verdade? Ou existe mais fluidez, mais dinâmica, mais criação, mais troca interstadual, transnacional, multicultural? Quem vai controlar isso? Quem vai arrumar essa bagunça de milhões de fios? Quem vai dizer o que é certo e o que é errado? E numa conversa real a comunicação verbal não seria um tipo de representação de si mesmo para o outro? Onde está a verdade essencialmente? Onde está a ética? Está nos meios (internet, telefone, língua…) ou está em QUEM usa dos meios? A mentira está na web? A mentira é ruim? A mentira poder ser mecanismo de sobrevivência? Qual é o teu ponto aqui Vaaaan?
Não chegamos em respostas concretas lógico! E também não parecia ser o interesse de Van naquele momento. Ufa! Que bom!
Até porque trata-se aqui da criação de uma obra artística.
“E qual a linguagem? Você quer dançar, quer falar, quer dançar falando, quer cantar, fazer um vídeo-clipe, uma instalação, uma palestra a partir do seus términos?”.
Foi ai que propus a Van fazermos uma “Arqueologia do Futuro”. Procedimento criado por Cristian Duarte/ Desaba que consiste em inventar DETALHADAMENTE um espetáculo que você ainda nem fez. Inventar o nome, por onde começa, por onde termina, o que você faz, como faz, com que roupa, onde…
Foi nesse exercício que fisguei o Problema Xuxa.
Como assim?
Não so para Vanessa mas para a maioria das crianças brasileiras, principalmente meninas e gays, que brincaram de esconde-esconde na década de 80 e 90, a Xuxa foi uma figura que representou a realização dos sonhos e desejos de seus baixinhos. Xuxa cantava em sua música “Lua de Cristal”
“…Tudo pode ser só basta acreditar, sonhos sempre vem pra quem sonhaaaar…”
Isso acabou gerando uma projeção coletiva infantil em acreditar nas palavras da Xuxa, em a acreditar que os sonhos poderiam ser reais e que um dia o príncipe, que na época era o Sérgio Malandro, ia chegar num cavalo branco para te levar e viver feliz para sempre…
Depois de alguns anos os baixinhos começaram a perceber que não era bem assim que as coisas se sucederiam. E que na verdade nem a Xuxa mesmo queria um príncipe, talvez ela preferisse por exemplo a Marlene Matos, foram encontrados e divulgados filmes eróticos estrelando a Maria Das Graças Xuxa Meneguel, e o Sérgio Malandro era mesmo só um malandro, uma furada.
Vanessa e Eu percebemos, totalmente ENVERGONHADOS, que fomos uma dessas crianças enganadas por Xuxa. Com danos psicológicos provavelmente irreverssíveis.
Então, percebemos que além de um acerto de contas com o Mário deveríamos planejar para esse solo uma vingança à Xuxa, criando um
VANESSONSTRO DA VAGINA DENTADA
Uma contrapartida a essa idéia de princesinha loira, pálida, passiva, virgem e fala baixa.
_______________________________________________________________________________________________________
DIA 31 DE MARÇO
Surfando pela net um dia lembrei de um blog que Layane me mostrou que se chama: “Matando Carpinejar”:
http://matandocarpinejar.blogspot.com/
Nesse blog a autora Cinthya Verri ficciona várias mortes do seu namorado: Fabrício Carpinejar, sempre com muita ironia, humor as vezes ácido as vezes debochado. Ela o assassina de várias maneiras e faz desenhos e textos para cada assassinato. Matá-lo para ela é um exercício de amor.
Logo depois Van e Eu Fomos procurar sobre o poeta Carpinejar e vimos que a opinião dele sobre o amor é:
http://www.youtube.com/watch?v=NDV1AQJ8Uj8&feature=player_embedded
“…preservar um pouco doença.” É reclamar. Quando se reclama com alguém que amamos, valorizamos mais os momentos alegres. Reclamar é gastar o tempo do outro. Reclamar é uma ação de amor. Ele diz também que “Liberdade na vida é ter um amor para se prender.”
Um dos principais livros do autor –que recebeu prêmio Jabuti em 2009 – se chama MULHER PERDIGUERIA, onde Fabrício procura criar sentido para o que não se vê. Aquilo que não tem cor, mas colore, que não tem peso, mas bate, que não tem forma, mas gosto.
O QUE NÃO SE VÊ ESTÁ SÓ NA INTERNET OU TAMBÉM É MATÉRIA DO AMOR?
_______________________________________________________________________________________________________
DIA 14 DE ABRIL
Foi quando propus, como estratégia de colaboração, ser um espelho para Vanessa.
Ou seja, tudo que ela fizer nesse processo eu também farei.
(Na verdade era algo que já estava praticando sem notar, pois todos os exercícios aos quais nos propúnhamos via chat ou email e que Van fazia eu também fazia)
Mas de que jeito seria esse espelho?
Imitando-a? Ou fazendo do MEU jeito? Fazendo de um jeito diferente? Fazendo do jeito que eu acho melhor para ela? Fazendo sem juízo de valor? etc….
Bom, a imagem no espelho nunca é o objeto em si, são apenas organizações de luz que mostram o que está diante da lâmina, é virtual, é uma representação, as vezes pode ser uma projeção, como no conto da Branca de Neve, a madrasta elegante é na verdade uma bruxa feia.
Então, disse a ela que meu espelho poderá ser as vezes côncavo, as vezes convexo, as vezes torto ou quebrado. Ela não pode confiar nele 100%, mas não vai deixar de ser uma referência para seus atos criativos.
Não queria ser um colaborador que apenas olha, analisa, prescreve, opina. Meu desejo é que, por exemplo, minha opinião se dê através do fazer, o que não exclui comunicações em outros sentidos.
Nessa “Conversa sobre Mário” posso ser o Mário,posso ser ela ou ser “a conversa”.
_______________________________________________________________________________________________________
DIA 15 DE ABRIL
Falei pra Vanessa que, na minha experiência de artista, criar um solo é uma maneira de pentrar em si mesmo. É uma maneira de descobrir coisas que você nem sabia que eram suas. É memória e atualização ao mesmo tempo. É um ótimo momento para autocrítica. Dá medo. Dá vontade de brecar. Dá vontade de fugir de si mesmo. É o lugar onde as perguntas sem resposta podem se tornar um potente. É onde “se enganar” se torna extremamente visível.
E não precisa criar um discurso que faça sentido. A principal política de um solo, e penso que não só de um solo mas de uma criação artística seja ela qual for, não é a de construir um sentido reconhecível, é se propor a ser o que se é. É também construir um lugar para SER. Um lugar que nem sempre a sociedade te oferece. É um lugar para se conquistar. É um nada, aparentemente sem valor.
Estava com Jell Carone no galpão do Núcleo do Dirceu trabalhando no novo TTA Elogie, quando ele me mostrou um vídeo da Mulher do King Size que logo compartilhei com Vanessa , e que se trata de uma mulher discursando com uma lógica não clara. As vezes parece uma crise existencial, as vezes um discurso político, as vezes um protesto, uma manifestação sensível do mundo e das relações contemporâneas, ou parece que ela tá falando sobre a morte etc De um jeito “entre”, pois não se tem dados suficientes pra saber se é uma atuação ou se a mulher está variada das idéias mesmo. Só sei que no final ela diz: Te amo Alexandre! Veja aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=ew0GSU702Oo
_______________________________________________________________________________________________________
DIA 2 DE MAIO
Agora estou em Salvador morando bem no centrão da cidade, num prédio antigo chamado Kontiki, onde fica o Ap. de Márcio Nonato, um dos artistas do Grupo Dimenti. No Ap. moram também Lucas Valetim e Jorge Oliveira, todos artistas! Estou esperando Van para o nosso primeiro encontro “real”, nosso primeiro ensaio “real”, com um frio na barriga e um clima nublado na janela.
Márcio é um artista muito querido e que fala de seus trabalhos com muita simplicidade, clareza e humor. Conversamos sobre Núcleo, Dimenti e Vagapara (núcleo que ele participa e que reside num espaço chamado Casa Preta). Conversamos também sobre formatos, fofocas, idéias, instruções do AP. e homens nagô. Num dos momentos ele me contou sobre um de seus trabalhos que se chama: “Isto é apenas uma mulher com um pano na cabeça”.
Uma das ações desse projeto foi uma intervenção em praças de SSA. No entanto, o que mais me encantou foi a maneira dele de dizer. “-Elizete, eu propus a elas porem um pano na cabeça e apenas serem”.Essa frase pareceu ser tão completa em si, ao mesmo tempo tão vaga, e ao mesmo tempo tão potente como visão artística, tão aberta. Fui curiar fotos dessa ação na internet e achei isso:
http://www.flickr.com/photos/tiagolima/sets/72157626538819400/
Fico aqui até próximo domingo 08 de maio. Num intensivão com Van. Amanhã vamos ensaiar no ICBA…
Ah, Vanessa chegou, depois volto com mais notícias sobre Mário.
4 de maio de 2011 em 20:08
Nossa que eu to aqui me deliciando com esse texto e lembrando que eu também fui uma criança dessas, enganadas pela Xuxa. A minha mãe me levou pra ver o programa dela no Rio, ao vivo, com a esperança que a partir daquele dia eu fosse detestar a Xuxa… e ainda assim foi difícil acreditar que ela não era quem eu idolatrava.
Sem contar as botas e os cabelos amarrados no topo da cabeça!
Muito bom poder acompanhar o que vocês andam falando, pensando para esse processo. E já quero saber do intensivão. Acho que tem aquela pegada de questões tão nossas que são comuns a toda pessoa, e eu acho isso lindo.
sorte!
5 de maio de 2011 em 18:48
Curiosa com esses procedimentos-espelho aí. E ainda curiosa com “qual é o ponto Vaaaannn?”. Ah, fui cuiriar as fotos e links. Pô muito bom o vídeo que o Jell te mostrou da loira falando. Vou acompanhando de longe. Bjão.