Abecedário de Deleuze – A de Animal

Por: às 25/02/2011 10:13:56

Em 88 e 89, o filósofo francês Gilles Deleuze deu uma série de entrevistas à jornalista Claire Parnet, que foi compilada em mais de sete horas. Inicialmente, o acordo para esse trabalho era de que ele fosse apresentado somente após a morte do filósofo. Mas meses antes de falecer Deleuze acabou por assentir na divulgação das entrevistas, o que foi feito de novembro de 1994 a maio de 1995, no canal franco-alemão chamado TV Arte.

Para conduzir a entrevista, a jornalista elaborou um abecedário para que o filósofo desenvolvesse cada um dos 26 temas. Na letra ‘A’, Deleuze reflete sobre os animais e dentro desse tema trata do conceito de território, que ele e Félix Guattari desenvolveram no livro ‘O que é a Filosofia?’, de 1992.

Trecho da Entrevista, legenda em português:

A de Animal

As pessoas que gostam verdadeiramente de gatos e cachorros têm uma relação com eles que não é humana. Por exemplo, as crianças, têm uma relação com eles que não é humana, que é uma espécie de relação infantil ou… o importante é ter uma relação animal com o animal.

O que me toca em um animal, a primeira coisa é que todo animal tem um mundo. É curioso, pois muita gente, muitos humanos não têm mundo. Vivem a vida de todo mundo, ou seja, de qualquer um, de qualquer coisa, os animais têm mundos. Um mundo animal, às vezes, é extraordinariamente restrito e é isso que emociona. Os animais reagem a muito pouca coisa.

Os animais de território são prodigiosos, porque constituir um território, para mim, é quase o nascimento da arte. Quando vemos como um animal marca seu território, todo mundo sabe, todo mundo invoca sempre… as histórias de glândulas anais, de urina, com as quais eles marcam as fronteiras de seu território. O que intervém na marcação é, também, uma série de posturas, por exemplo, se abaixar, se levantar. Uma série de cores, os macacos, por exemplo, as cores das nádegas dos macacos, que eles manifestam na fronteira do território… Cor, canto, postura, são as três determinações da arte, quero dizer, a cor, as linhas, as posturas animais são, às vezes, verdadeiras linhas. Cor, linha, canto. É a arte em estado puro. E, então, eu me digo, quando eles saem de seu território ou quando voltam para ele, seu comportamento… O território é o domínio do ter. É curioso que seja no ter, isto é, minhas propriedades, minhas propriedades à maneira de Beckett ou de Michaux. O território são as propriedades do animal, e sair do território é se aventurar. Há bichos que reconhecem seu cônjuge, o reconhecem no território, mas não fora dele.

Se me perguntassem o que é um animal, eu responderia: é o ser à espreita, um ser, fundamentalmente, à espreita.

Observe as orelhas de um animal, ele não faz nada sem estar à espreita, nunca está tranqüilo.  Ele come, deve vigiar se não há alguém atrás dele, se acontece algo atrás dele, a seu lado. É terrível essa existência à espreita.

Não são os homens que sabem morrer, são os bichos, e os homens, quando morrem, morrem como bichos.

Não há literatura que não leve a linguagem a esse limite que separa o homem do animal. Deve-se estar nesse limite. Mesmo quando se faz filosofia. Fica-se no limite que separa o pensamento do não pensamento. Deve-se estar sempre no limite que o separa da animalidade, mas de modo que não se fique separado dela. Há uma inumanidade própria ao corpo humano, e ao espírito humano, há relações animais com o animal.

Texto Completo:

O ABECEDÁRIO DE GILLES DELEUZE



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  • César Costa: Marcelo, concordo contigo quando diz que só o fato de ser artista já não te coloca como medíocre. Se...
  • Danielle: Não dá pra não fazer conexões entre as coisas ditas, ouvidas, feitas, vistas e acontecidas. Acho que não...
  • weyla: Hoje conversando com minha avó ela me disse que não queria mais comprar roupas porque tava perto de...
  • elielson: de comer e se comer sim. opa!
  • marcelo evelin: super eli! obrigado por juntar tudo aqui pra que se possa ir mapeando. foi bom vc ter trazido a mesa...

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