Nadar é diferente de boiar. Quando nadamos queremos ir pra um determinado lugar, por um determinado caminho. Brigamos com a água, perdemos todas as outras direções e às vezes essa luta pode ser tão difícil que podemos nos afogar. Abri um livro budista que dizia:
A vasta inundação
Se precipita para a frente
Mas entregue-se
E ela o fará flutuar
Você já viu um corpo flutuando no rio? E já observou o segredo do morto? Quando ele estava vivo foi afogado pelo rio, é natural. Provavelmente não sabia lutar, não sabia nadar, e foi afogado pelo rio. Ele certamente tentou, arduamente sair do rio, mas foi afogado. Agora ele está morto e flutuando na superfície. O que sucedeu? Parece que, quando estava vivo, ele não conheceu o segredo; agora o rio não o afoga mais. O bom nadador é aquele que sabe lidar com o rio – como se estivesse morto, então o rio carrega você.
Sempre achei boa essa capacidade oriental de compreender as coisas a partir da contradição. E parece que às vezes só ela dá conta mesmo, porque nada faz sentido, pelo menos da forma como buscava dar sentido às coisas até então. Lá, nas bandas orientais, a contradição é possível porque existe o pressuposto de que a verdade não existe. O que existe é a totalidade e a totalidade é ambas as coisas: “verdade é aquilo cuja contradição é também verdadeira”. Então, a idéia de viver como se estivesse morto não é absurda.
A metáfora do boiar (como imagem para buscar uma maneira de estar junto) parece ter sido lançada no núcleo exatamente antes de um vendaval (e estamos ainda no meio dele). Desde então precisei tentar várias formas de testá-la pra não acabar me afogando, o que me colocou de frente para outra contradição: quanto mais me deixo invadir e permear pelo mundo, quanto mais me modifico, mais intensamente existo como individualidade. Me disponho a morrer e então me sinto mais viva e parte de um todo.
Apesar do tom revelador a coisa não é nada simples. Existe, claro, um porém. Um porém não, O porém! O ponto crucial da questão. Nesses tempos de estado de sítio consegui perceber em mim e nos outros uma dificuldade imensa em perder o controle, em cruzar aquela última fronteira mais difícil… Ser desmontado pelo outro e estar de fato nesse terreno instável, tendo com ele uma postura positiva, de invenção, de ação. E o núcleo é o lugar onde eu estive que mais eu vejo a provocação dessa porosidade, mas parece mesmo que não saber o que fazer é algo que tende a paralisar as pessoas do nosso tempo ao invés de precipitar movimento. E eu, me vi completamente mergulhada nisso.
Agora, esse lugar difícil parece ser exatamente o terreno da arte contemporânea… Do nosso trabalho…
E agora José? Ser artista contemporânea passou a significar pra mim fundamentalmente estar disposta a existir criativamente na instabilidade.
Na mesma semana de aparição dessa metáfora li por acaso o “geopolítica da cafetinagem” da Sueli Rolnik que toca exatamente nessa problemática da arte contemporânea, especialmente a brasileira. Ela fala bastante da importância dessa permeabilidade como um caminho de saída da superficialidade e do que ela chamou no Brasil de um modo “zumbi antropofágico”. Aprofundando mais ainda ela aponta a mesma questão:
Esta espécie de alucinação tem sua origem na recusa da vulnerabilidade ao outro e das turbulências desterritorializadoras que provoca; e também no menosprezo pela fragilidade que decorre necessariamente desta experiência. (…) Ao menosprezar a fragilidade, esta deixa de convocar o desejo de criação; ao contrário, ela passa a provocar um sentimento de humilhação e vergonha, cuja consequência é o bloqueio do processo vital.
No meio de fortes correntezas foi bem importante ler esse texto. Recomendo demais… Curto, grosso, e on line: http://eipcp.net/transversal/1106/rolnik/pt
12 de abril de 2011 em 5:16
incorporar a contradição.
isso é lição pruma vida todinha, Juu!
Boto fé.
quando é paralisar, quando é precipitar?
uma boa questão.
zumbi antropofágico… queria entender mais ese conceito!