Ai ai ai

Por: às 13/08/2010 19:49:40

Neste sábado (14) continua o bate-papo com os artistas dentro da programação do Panorama SESI 2010, A conversa rola a partir de 12h e será transmitida ao vivo neste link. Os internautas podem participar enviando perguntas pelo twitter (@panoramasesi). Marcelo participa de lá e ainda dá tempo, uma semana depois, de falar um pouco sobre como foi Ai ai ai por aqui.

Foi a primeira vez que assisti Ai ai ai.

O solo aconteceu em Teresina no fim dos anos 90 e eu bem me lembro de uma matéria no jornal, mas não fui a apresentação por algum motivo. Demorou uma década pra eu conhecer o espetáculo num ensaio aberto. Na verdade já possuía um quase esboço do que acontecia, de tanto ouvir falar, sabia que ele balançava as mãos, que tinha uma parte em que ele falava como “cumade”, que ele ficava de cócoras, que usava um colan e umas luvas. Já tinham me contado sobre Nova York, sobre como o trabalho era gay (descrição THE para qualquer coisa que envolva uma peruca e um cílio) e falavam do Marcelo dançando como Carmem Miranda.

Foi bom assistir com esse delay. Me perguntei durante o Ai ai ai o que fazia dele uma coisa “anos 90”? Fiquei pensando: ok uma obra tem sempre um contexto, pertence a um tempo-período e na maioria das vezes ou ela dialoga com esse momento em que está inserida ou é um anúncio, um antecipação, porque lança um olhar pra frente. Talvez o shape 90 esteja na figura Emilio Santiago “homem careca vestido elegantemente de preto com um sapato branco”, talvez na profusão de músicas em deixas ultra-precisas, talvez o caráter de composição e a disposição dos objetos, talvez as projeções. E fiquei pensando como é isso hoje? Esse revival de quinze anos depois? Será que é como na moda que a gente revisita re-inventando?

Eu ouvi o Marcelo comentando quando ainda estava ensaiando, que era impressionante como o corpo dele sabia. E claro, mesmo não sendo mais o mesmo corpo, porque talvez a perna já não fosse mais na mesma altura, ele nao corria com o mesmo pique e vai lá tem uma ação do tempo nessa musculatura, ele me dizia como era impressionante, como estava depositado na conta corrente do corpo. Fiquei imaginando que entrar nesse material, a partir de um outro corpo, deve ser como ir num lugar que se conhece depois de muito tempo. As vezes você nem se reconhece mais ali, o olhar não é mais o mesmo, as razões que te levavam a fazer aquilo a querer mostrar determinada coisa também já são outras, a ficção criada entre você e o que você faz deve ter outro sentido. A necessidade é outra, porque você é outro quinze anos depois.

Nessa mesma conversa o Marcelo também comentou sobre a relação desse solo com um momento específico da trajetória artística dele lá atrás, ele usou inclusive a palavra exílio. Essa imagem de exílio  me levou  direto pra relação dele com esse lugar de origem. Porque me parece, que de alguma forma, essa relação atravessa sempre o trabalho dele, seja nas figuras e imagens (como o vaqueiro, o cachorro, a mullher com trouxa) nos títulos (sertão-matadouro), na areia, na cor quente, no violino (sacre). E Ai ai ai pra mim também passa por aí.

Marcelo grita, chora, esperneia como um porco, ou como uma mulher árabe ao som de aplausos que crescem, como quem me diz: é isso que quero compartilhar com vocês, minha indignação minha revolta, meu desespero, minha não aceitação de corpo anestesiado, meu permanente estado de não letargia. O que quero compartilhar é minha dor. E talvez minha condição de artista, individuo, homem que pode ser reconhecido como mais um, como qualquer outro. Os aplausos me lembraram a superficialidade vazia do “arrasou, parabéns”. E talvez – um pouco porque nos conhecemos e eu tambem conheço esta cidade – eu ficava pensando se a relação dele com este lugar, não foi sempre mediada por aí, por esse aplauso que significa “você chegou lá querido, fama, Europa, isso é o que importa”. E só!

Aplauso é simbolicamente o que o artista recebe, a grande honra, é o momento glorioso, mas ali no Ai ai ai diante de um homem suado , com a camisa pregada no corpo como um operário, gritando desesperadamente , o aplauso me fez pensar mais um vez nas escolhas que fazemos. Opostas a fama, glória ou virtuosismo. Eu olhava por Marcelo e me imaginava com quase cinquenta anos (eita!). E depois quando as mãos de le começavam a sacudir,  ele parecia me dizer o tempo todo: urgência querida, urgência querida! Olhe em volta e não pare não, respire fundo, RESISTA, porque ser o que se escolhe – Carmem Miranda, Rainha de Sabá ou bicha feliz- é difícil de sustentar mesmo!. Quem disse que seria fácil?

Eu penso que todo solo é um pouco autobiográfico. Vem de uma necessidade solitária e íntima de transformar em obra uma inquietação que é só sua mesmo, que te deixa doida, triste inquieta e que passa a fazer mais sentido quando sai de você e chega nos outros. E por isso o Ai ai ai fi pra mim també foi um lugar que falava de amor e ausência. Não sei porquê. Talvez pelo sapato sozinho ao fundo, talvez pela pele branca de bicho que era glamour e fetiche e me lembrava sexo, parecia o outro, o que cobre, o que protege, aquilo que a gente agarra se envolve com…

Não sei. São só impressões.

No Ai ai ai quando o Marcelo dança as vezes parece mais de um corpo, um que é resistente, desesperador, tenso e outro que é sinuoso, cheio de voltas, giros e sorrisos com um deboche e um prazer desengonçado. E só sei que agora ou quinze anos depois foi bom ver aquele homem dançando.



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2 Comentários

  1. marcelo disse:
    15 de agosto de 2010 em 4:15

    thanx lay!


    Responder
  2. Leonardo Gonçalves disse:
    15 de agosto de 2010 em 21:31

    Nossa ! ai…ai….ai… lindo de verdade ! adoro queria ter visto! bis
    bis
    bis


    Responder

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Comentários

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