Sobre Matadouro
De Marcelo Evelin / Demolition Inc. + Núcleo do Dirceu
Teatro Anchieta, SESC Consolação, 26/11/2010
Por Arthur Moreau
Marcelo Evelin e companhia irrompem projetos de matança no palco e incitam a inutilidade da luta bestial, seja a bélica, a rotineira ou a da exclusão social. “A Luta”, do livro ”Os Sertões” (1902), de Euclides da Cunha, foi o principal material de inspiração para Matadouro. Ela fecha a trilogia composta por Sertão (2003), a partir da primeira parte do livro, “A Terra”, e por Bull Dancing (2006), que se debruçou sobre a segunda, “O Homem”.
Se em “A Luta” há o enfrentamento e matança entre compatriotas em Canudos (BA), no Brasil, Demolition Inc. e Núcleo do Dirceu nos mostram essas questões e os assassinatos do nosso tempo. Pessoas que projetam suas origens localizadas em muitos lugares e em nenhum. Todas utilizavam máscaras oriundas de diferentes manifestações culturais, como um carnaval só de quarta-feira de cinzas. Afinal, estavam seminus, amarrados em pedaços de pau e ouviam ruídos e latidos. Rostos escondidos e pedaços de pau. A sugestão de indiscriminação generalizada é muito forte. O mundo, o de cem anos atrás e o de agora, é organizado pelos neo colonizadores. Eles ainda existem e são muito mais fáceis de identificar do que os colonos e colonizados, que muitas vezes estão mesclados em um, em cada um. Esse, assim como afirma Giorgio Agamben, teórico italiano da cultura, é submetido a um sistema de exclusão. Por vezes,o modo de exclusão é incluir alguns para excluir muitos. Assim como o campo de extermíniomontado pelas Leis de Incentivo à Cultura (leis através das quais o governo abre mão de impostos e os oferece para os departamentos de marketing das empresas) consegue continuar implantado sem sofrer críticas nem reflexões sobre a sua atuação.
Esse modo de operar de, vez por outra, retirar dos órgãos do capitalismo alguns elementos, mas apenas temporariamente, atrasa emancipações e normatiza dependências. Uns tantos são contemplados e outros não. Depois, mudam-se os favorecidos. A gangorra dos sortidos e manutenção da platéia (quem não construiu o jogo e nem participa dele) é o status quo. Operação de seres sem passado e sem história, recriados como que vindos do nada a cadageração. É a roda viva que nos é impressa a sobrevivermos. Como afirma o filósofo Peter PálPelbart, “É a produção da sobrevida. O biopoder contemporâneo teria essa incumbência, de produzir um espaço de sobrevida biológica, reduzir o homem a essa dimensão residual, não humana, (…).” (PELBART, 2007) A sobrevida é a morte de parcial de uma vida. Aquela seria apessoa circular indefinitivamente, a se identificar ou se confundir com pedaço de pau, ter o rosto, metonímia da identificação pessoal, trocado por máscaras quaisquer, sem ligação profunda.
Seria, assim com na peça, correr do seu próprio modo, mas sempre na velocidade padrão. O suor produzido empesta a platéia com seu fedor. Um índice sutil da peste projetada pelo artista francês Antonin Artaud (1896 – 1948), a qual o teatro deveria castigar. E afronta. É o cheiro da síntese do nosso percurso, das nossas ligações com um centro de poder e ao descolamento cultural. Seria, também, poder expressar detalhes da sua personalidade em inofensivos gestos perante a coreografia. As grandes variações ainda estariam no circuito da roda. Elas definitivamente durariam pouco. E então, afirmar, a cada volta, que o mundo sofre suas revoluções. Mas não sofre, pois são apenas espaciais, repaginações. Porque, apesar do o jogo se fazer fazendo, não há força o suficiente para uma guinada de caminho.
Marcelo Evelin alerta tudo isso. Esse fazer deve ser de apoio mútuo, de compromisso com o coletivo. A morte está na inação, operação inteiramente rejeitada por Matadouro. A crítica ao pasto que gira só para ganhar músculo e cansar os mesmos, cansar de correr por correr. Uma dramaturgia que poderia ser irmã da música de denúncia social chamada Admirável Gado Novo, composta no final dos anos 70 pelo cantor Zé Ramalho (1949 -), em um período de ditadura no Brasil. Ela exalta os mecanismos de alienação tão presentes na época e que vemos crescer nos dias de hoje. Foi uma referência ao livro Admirável mundo novo (1932), do escritor inglês Aldous Huxley (1894 – 1963), que descreve uma sociedade em que pessoas vivem uma harmonia seguindo uma série de regras para qual foram condicionadas biológica e psicologicamente.
Essa questão foi refletida pelo filósofo espanhol José Ortega y Gasset, principalmente no seu livro La rebelión de las massas (1937). Ele foi contra a ameaça da supressão da singularidade do homem ocidental, oprimido continuamente por um ideário valorativo sectário da redenção da mediocridade diante da demonização da singularidade. Em parte, isso também fazia parte do projeto de Canudos. Mas foram mortas e seu idealismo quase destruído.
Poeticamente, as pessoas-pau-qualquer-roupa, as pessoas-qualquer-rosto estão na iminência da morte. Estão dadas aos latidos, aos ruídos. Tanto é que se por acaso tiverem a possiblidade de falar, de articular ideias lógicas e contundentes, nada dirão. Se a luz for jogada nelas a escuridão plena ecoará.
PELBART, Peter Pál. Biopolítica, São Paulo, Revista Sala Preta, 2007.
Arthur Moreau é bacharel em Comunicação das Artes do Corpo (PUC-SP).