As Árveres Somos Nozes

Por: às 16/02/2011 02:54:01

(ok gente, o título do post é só uma piada, não é o nome do projeto… quem não entendeu a piada vem aqui – http://www.youtube.com/watch?v=uSaf28eS7d4 )

Desenhando com árvores.

Plantar árvores dispostas de maneira que se perceba que elas formam um círculo, quando olhamos de avião ou do google maps.

Isso formará, aos poucos e constantemente, ao longo de 10, 20, 30 anos… um desenho que contará com um envolvimento conjunto pra se concretizar. Da seguinte maneira: cada árvore será plantada junto com um morador em frente a sua casa. Será indispensável para o crescimento e desenvolvimento da planta o cuidado dessa pessoa. O desenho só será formado por fim, se todos se engajarem na idéia, um pouco abstrata no início, eu sei, mas na promessa de que se essa planta for cuidada ela vingará e crescerá como as outras, se destacando das (poucas) árvores do bairro, por estarem assim dispostas.

Me interessa aqui, como na faxina, essa união de esforços para se chegar a um determinado fim. A concretização de uma idéia que depende do outro pra formar esse sentido de todo, enquanto grupo de pessoas que plantaram essas árvores, e também enquanto desenho, como uma ação de repercussão estética, visual. O círculo, além de ser um traço simples, fácil de ser reconhecido, vem também como metáfora desse todo. Daqui a alguns anos, quando as árvores estiverem grandes e você se colocar diante de alguma delas, na rua, só poderá ver uma ou duas ou três ao mesmo tempo, não mais – o desenho não será visto habitualmente. Alguns terão consciência sobre este desenho, outros só verão uma árvore. Gosto disso de saber que está lá, mesmo que não possamos ver. A noção de que algo existe, esse grupo de indivíduos, que juntos formam um coletivo. De perto só vemos uma individualidade (seus detalhes, galhos e folhas), mas pra termos uma visão do todo precisamos de uma mudança de perspectiva, ou uma certa dose de abstração. A Ju falou que é como a idéia de sociedade.

Há algum tempo venho pensando em desenhos ou pinturas feitos sem minha intervenção direta, como em uns estudos pra pintura em processo que fiz em 2008, com tinta pingando sobre papel durante o tempo que ficava em exposição, e limalha de ferro enferrujando sobre uma tela (http://www.flickr.com/photos/leonabuco/sets/72157621024662423/ ). Penso nisso como um alargamento radical dessa idéia, estendendo esse tempo para um tempo que não é nosso, do homem, mas o tempo de desenvolvimento de uma planta. As árvores tem esse sentido de solidez, de tradição, de algo que fica. Se tudo der certo, morreremos e elas ainda vão estar de pé, enormes.

Sobre cada pessoa que plantará cada árvore conosco, penso que precisamos conquistá-la de maneira a sentir e entender que o desenho é dela, depende dela. Essa ação do plantio da árvore tem que ser feita junto com o morador, e deve ser pensada com cuidado, pra que signifique algo, pra que traga esse entendimento de que a planta se desenvolvendo é a idéia se desenvolvendo, o desenho sendo formado.

Tenho lido muito sobre arborização urbana, pra conhecer as diretrizes que guiam esse planejamento. As variáveis são muitas. Que espécie é mais adequada pra que tipo de espaço, o comportamento da raízes, a altura do ramos, se a espécie interfere na fiação elétrica, se tem frutos pesados que ao cair podem amassar carros ou machucar pessoas, se a espécie é nativa ou exótica, a biodiversidade, o trânsito no local, podas, valor das mudas, disponibilidade, como devem ser as covas para o plantio, adubação… Achei um estudo sobre a arborização urbana em teresina, que foi feito por alguns professores da UESPI e UFPI. Tenho que falar com essas pessoas e ver se alguém ajuda nessas decisões. Avaliar também se vai ser necessária uma aprovação por parte da prefeitura de THE. Tem um trabalho grande aí a ser feito.



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5 Comentários

  1. fabio crazy disse:
    16 de fevereiro de 2011 em 9:57

    Bonito isso! Interessante pensar nessa relacao com o ambiente. Tu ta propondo uma coisa “quase” perene, baseada numa utopia de que cada morador vai colaborar com a manutencao da “obra”, como pensar tbm na “perpetuacao da utopia, uma ligacao de cada Morador/arvore fazendo parte de um todo. Um sinal visto do ceu que vai se desobscurecendo ao longo dos anos…muito massa Léo!


    Responder
  2. Leo Nabuco disse:
    16 de fevereiro de 2011 em 21:54

    valeu fábio. “a perpetuação da utopia” pode crer faz muito sentido ouvir isso. acho massa também o sinal que vai desobscurecendo – parece que ele já existe antes, vai só entrar num processo de revelação. Acho interessante também da coisa ser apropriada muito mais pela imaginação do que objetivamente.


    Responder
  3. Alisson Matheus disse:
    18 de fevereiro de 2011 em 0:09

    Legal, uma ideia bem criativa de coletivo, além do todo artístico e filosófico você inclui um lado concreto ( não desmerecendo a parte ‘artística e filosófica’), transfere a responsabilidade para todos os envolvidos nesta obra colossal e faz (mesmo que ainda em ideias) os envolvidos refletirem sobre o sentido da arte, se há sentido, quando há sentido…


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  4. Leo disse:
    19 de fevereiro de 2011 em 12:41

    Obrigado pelas palavras alisson! Penso que o que há de mais concreto aqui é exatamente o artístico/filosófico, não consigo ver isso separado. Nossas idéias são tudo que nós temos para refletir e produzir sobre os sentidos da arte.


    Responder
  5. leticia disse:
    20 de fevereiro de 2011 em 0:37

    tudo a ver com a faxina mesmo, uma onda um por todos e todos por um que me agrada sempre. mas me parece diferente em um ponto bem determinante à faxina. nela, como é impossível que a rua, ou todo o espaço público chegue a ficar inteiro desinfetado, não resta dúvida de que a questão é o processo e pronto, não há lugar a se chegar, me parece mais uma proposta que só na prática vai se ver onde vai dar e a obra está nisso, nessa descoberta por todos os participantes de até que ponto cada um comprou a ideia, até onde ela permanece, etc.
    e no árveres, vc quer saber se e até qdo as pessoas vão comprar a ideia ou vc deseja mesmo que no fim o círculo seja formado?
    pq dependendo disso sua abordagem com os moradores vai ser totalmente diferente – de uma ótima estratégia de convencimento (e aí a obra de alguma forma é mais sua…) ou de passar a bola de maneira mais aberta (nesse caso correria o risco de não se chegar ao círculo, mas o desenho que se formar, seja ele qual for, seria mais daquelas pessoas…)


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