essa semana o nucleo do dirceu decide se encontrar todas as manhas em volta da mesa, de 9 as 13, para fazer uma avaliacao do ano de 2010 e planejar o 2011 seguinte. ja tivemos esses tipos de semanas, longas e exaustivas, com uns que falam muito, outros que nao falam nada, pontos puxados e esgaçados, nos cegos que se cegam ainda mais, rompantes, ataques, defesas, descobertas, duvidas em profusão, e o incomodo genuino de se ter que discutir a si mesmo dentro de uma condição de compartilhamento comum. esses encontros sao menos DRs e mais uma maratona, talvez como a maratona de danca de salao do antigo filme “they shoot horses, don’t they?”, onde os casais passavam dias dancando abracados e aos poucos iam desmaindo uns nos bracos do outro.
me interessa nisso que chamamos de “avaliacao e planejamento” o fato de que se trata de uma auto-avaliacao e um auto-planejamento, claro que tambem interrogado e discutido por todos. a questao de poder admitir suas perdas e seus ganhos, assumir suas fraquezas, considerar seus acertos e botar na balanca o que cada um se propoem a fazer como atividade artistica profissional, ja traz ai uma enorme possibilidade de auto-gestao, de compromisso com voce mesmo perante os outros, que serao beneficiados ou atrapalhados pelo cumprimento ou nao desse posicionamento.
layane aponta na abertura dos trabalhos, o fato de no nucleo existir uma separacao entre o discurso e a acao, ou seja, o que e como voce fala e o que e como realmente voce faz. essa fissura vem incomodando a nos todos ja ha algum tempo, e muitas vezes nos tirando da pista. se admitimos que mente e’ corpo, que nao existe separacao possivel ai, como estariamos subvertendo essa logica em nossas atitudes e comportamentos diarios? o que nos faz cometer essa especie de traicao conosco mesmos, falando uma coisa e esquecendo disso quando nos pomos a agir?
quero arriscar a dizer que o liquido amniotico da criacao e do posicionamento de um artista esta ai nesse vao intermediario, nesse desvio sonambular que tao facilmente pode se automatizar, mas que tambem pode resistir como lugar unico de resolucao de grandes causas, mesmo que por causa entendamos: o nada, o vazio, o banal. o que quero dizer e’ que acho que e’ na tentativa persistente de juntar o discurso com a acao, a cabeca com o corpo, a ideia com o real, que o artista pode criar a sua obra, cumprir o seu oficio, e se permitir ser o artista que quer ser. seria como uma especie de negociacao acirrada, produzir pensamentos que direcionem os feitos, transformar as sinapses da mente em movimentos do corpo, modificando e modulando a frequencia de sua atuacao, o seu modo de existir (como artista) no mundo.
outras duas questoes importantes e pertinentes sao trazidas para a mesa: a ideia de organizacao em coletivo, e a situacao do artista entre ser interprete e criador.
coletivo virou palavra da moda, capaz de nomear qualquer ajuntamento de artistas de qualquer tipo em torno de qualquer coisa. virou uma palavra a priori, bastando ser usada para designar um tipo especifico de grupo atuando no terreno subjetivo e pantanoso da contemporaneidade. virou alternativa artistico-politica, uma caracterizacao validada, um artificio entre o luxo da inteligencia e o refinamento do bom gosto. penso na palavra nucleo e recorro a uma definição de dicionario:

. Parte central de certos frutos, formada de um endocarpo duro que envolve a semente; miolo da noz, da amêndoa, de um caroço.
Parte central de um objeto que tem densidade diferente da densidade da massa.
Anatomia. Conglomerado de substância cinzenta num centro nervoso, como os corpos estriados da base do cérebro.
Astronomia. Parte de um cometa que, com a cabeleira, constitui a cabeça; parte luminosa de uma mancha solar.
Construção. Eixo de uma escada em caracol.
Citologia. Corpo esférico no interior da célula, composto de uma nucleoproteína, a cromatina, e de um ou vários nucléolos.
Geofísica. Parte central do globo terrestre.
Metalurgia. Peça resistente à matéria em fusão, que se introduz num molde, para obter partes vazadas na peça fundida.
Fís. Parte central de um átomo, formada de prótons e nêutrons, na qual está acumulada a massa.
Peça de ferro doce colocada no interior de uma bobina de indução, de um indutor de máquina elétrica.
Fig. Primeiros elementos de um grupo: o núcleo de uma colônia.
Meteorologia. Núcleo de condensação, partícula muito fina, em suspensão na atmosfera, e que tem a propriedade de ativar a condensação de vapor de água e conseqüentemente desempenha papel importante nas precipitações.
a questao se resolve ai: pensar nucleo e nao coletivo, ser radical na absorcao desses significados para produzir sentidos outros. ser literal na construcao de uma organizacao que seja nuclear como principio de existencia, que se seja miolo, eixo, condensação, que seja antes de mais nada potencia de conglomerar, ativar, induzir, acumular, precipitar.
O assunto “interprete-criador” desde que adotou o hifen e tambem virou denominacao comum, vem martelando as cabecas, imagino, de muita gente por ai. de repente nao se era mais so interprete, a ideia de criador vinha implicita de maneira quase indispensavel. virou senha de acesso e garantia de subsistencia, selo de qualidade e legitimidade. o que acontece e’ que para se ser interprete, – pelo menos na antiguidade de 20 anos atras – tinha-se que ralar muito, era uma verdadeira missao se tornar bailarino, exigindo sem piedade anos e anos de treinos e praticas. os criadores nao se faziam, eles eram, se tornavam, tambem a duras penas, porque deviam a principio atuar como construtores de estruturas e condicoes propicias para o desenvolvimento de suas criacoes, saber conduzir, propor, analisar, corrigir e incentivar os seus interpretes, alem de claro, conseguir subvencionar e difundir seus projetos.
nao acho que podemos voltar a ser o que eramos antes e longe de mim parecer querer voltar a essa realidade dura, e tambem deficiente, de uma nocao quase dual de interprete e criador. mas temos que admitir que essas palavras foram coladas com cola-tudo por uma conveniencia quase deseperada, para atender uma modulacao do mercado de producao das artes. quem nao era passou a ser, assim do nada, quem era mais uma coisa teve que se acostumar a outra, muitas vezes passando por cima sobretudo de seus gostos e interesses, rejeitando suas escolhas e perdendo a nocao propria de capacidade. mas a questao nao se resolve apenas admitindo o tropeco, talvez tenhamos ainda muito trabalho no sentido de encontrar uma saida para um tipo de interprete que nao e’ mais um executor ou incorporador de ideias que venham do outro, que seja propositor, atuante e modificador. e para o criador, seguindo essa logica, teriamos que pensar em como tornar-los maleaveis a essas interferencias do outro em seus processos pessoais, em como se deixar perfurar de forma detreminante em suas construcoes subjetivas de carater particular.
o hifen talvez nos tenha trazido a certeza da conexao entre o que “interpreta” e o que “cria”, relativizando essas funcoes e ampliando a constatacao de que essa relacao precisa existir em um transito de informacoes entre emissor e receptor, com ambos assumindo esses dois papeis constantemente intercambiaveis. separar um do outro e coloca-los em laminas separadas para observacao seria pelo menos uma tentativa coerente. repensar o direcionamento de um pro outro e vice-versa, antes de embolar os dois em uma gaveta, quem sabe nos trouxesse alguma luz no final desse tunel longo, escuro e de chao movediço.