Um caderno de ensaio é assim: rabisco, anotações rápidas de algo que alguém disse, de uma imagem, as vezes da sequencia de coisas que voce tá assistindo, as vezes de algo que você lembrou e quer ver depois… não tem uma lógica. Ele acontece assim sem a pretensão de ser outra coisa, ou uma “coisa” construída, enfim, é um registro, um exercício de apreensão. Ele acontece no meio do café, da máscara que tem que ser costurada, do facão colado no corpo do outro, no meio das notas fiscais separadas e planilhas de controle interno, entre uma foto que você faz e um banho rápido (porque tá muito quente).
É um pouco assim que eu estou no Matadouro, não tem uma lógica, as vezes eu fico no paredão, as vezes eu uso uma máscara, eu anoto uma necessidade, eu resolvo um pequeno problema, eu escuto, eu vejo, eu vejo, eu vejo….. sim, eu assisto, assisto, assisto, muito, pra caralho. E as vezes eu corro e pulo porque ficar sentada, há lagumas semanas, algumas horas por dia, também cansa. E exercitar esse olhar tem sido bom, dizer o que acontece, o que me parece, que sensação me trás… sem cair nos reducionismos de isso é bom, isso é ruim, tentando apenar ler e entrar nos possíveis significados-sentidos que vão se construindo. Dizer “como foi”, “como é”.
Noted nessa última semana:
- Francis Bacon: corpo em camadas; corpo e espaço numa relação de circularidade; nem homem nem bicho; não é sobre um grito, é sobre um grito que está no corpo;
- Será que o Shubert não tem que entrar como o amor?
- Circularidade e o ralo presente na obra de Hitchcock. O ralo é a imagem do buraco por onde escorrem os degetos, aquilo que não queremos nos dar conta.
- O paredão é como um painel branco, um convite pra eu ver aquilo que quero ver.
- Sair do torpor e da exaustão, essa experiência minha, particular de cansaço tem que se conectar com o todo. O que eu quero performar?
- Perversidade e decadência; Bebel segura nos peitos como uma figura mítica, histórica, como a mulher loba que alimentou os pequenos homens de roma.