
por Maneco Nascimento no Vooz.
“(…) Fez em torno um círculo de vigilância: postaram-se sentinelas à saída dos quatro caminhos e nomeou-se o pessoal das rondas (…)” (A Luta II – Era a tropa/Os Sertões, de Euclides da Cunha)
O Núcleo do Dirceu apresentou nos dias 19 e 20 de novembro de 2010, em estréia local o espetáculo “Matadouro”, às 20 horas, no Galpão do Núcleo, com entrada franca. Desembarcou na cidade após temporada no Rio de Janeiro, onde esteve participando do Festival Panorama 2010, ao lado do Demolition Inc.., da Holanda.
O espetáculo “Matadouro” fecha uma trilogia iniciada por Marcelo Evelin e pelo Grupo Demolition Inc…, em 2003, com “Sertão” e que teve continuidade com “Bull Dancing”, de 2006. De temática cíclica do universo sertanejo, a tríade apreende-se de diversas referências particulares para preenchimento de dados ao mapa cênico.
O último elo da trilogia baseia-se nos trechos de “A Luta”, da obra Os Sertões, de Euclides da Cunha. Em entrevista dada ao Jornal O Dia, Cultura, pag. 3, de 19 de novembro de 2010, o performer Cipó, do elenco do espetáculo, disse que para “Matadouro” são trazidas várias realidades para demonstrar a condição de luta, desde a Batalha de Canudos até os campos de concentração de Auschwitz.
“(…) Reunidos sempre em volta da bandeira do Divino, estraçoada de balas e vermelha como um pendão de guerra, os jagunços enfiavam pelas ruas. Contorneavam o arraial. Volviam ao largo, vozeando imprecações e vivas, em ronda desnorteada e célere. E foram, lentamente, nesses giros revoltos, abandonando a ação e dispersando-se pelas cercanias (…) (A Luta II – Primeiro combate/Os Sertões, de Euclides da Cunha)
O espetáculo que pude acompanhar àquela noite(20.11.10), começava com um ator mascarado de gato, trajava uma alfaia na parte frontal do corpo nu. O som do instrumento marcava o tempo e, talvez, o anúncio dos preparativos para a guerra, à feita das estratégias primitivas e clássicas. Circulava em torno de um microfone.
Depois de uma repetida espera, outros atores incorporam a mis-en-scène. Mais seis atores e uma atriz postam-se ao fundo, de costas ao público, tiram a roupa e as máscaras com que romperam a cena e, aguardam, enquanto o “gato” continua marcando a guerra, outro ator toca uma cuica e um terceiro amola facões.
“(…) Por outro lado, por mais original que seja o método combatente dos matutos – guerrilheiros impalpáveis dentro da tática estonteadora da fuga! – rola todo neste círculo único (…)” (A Luta III – Preparativos da reação/Os Sertões, de Euclides da Cunha)
Os atores recolocam as máscaras e seguem à formação de um círculo em torno do microfone. Rodeando aquele microfone, a testar o cansaço e a paciência do público, ficam por um longo exercício militar. Com o tempo e o calor natural da Casa, do elenco e do público, a carne aquecida começa a exalar odores naturais.
Exposta a carne, como em uma gôndola giratória, os corpos em pelo, das personagens mascaradas, começam a ganhar efeito de carne, em matadouro, sujeita ao ácido láctico. Um ator retira da máscara um desodorante, se autodesodoriza e ao ambiente, dá uma aliviada no palco da guerra.
Por mais de 50 minutos, num círculo constante, o sexo à expiação pública, os rostos cobertos com olhos entre agressivos e pacientes, um dedo dado aos céus, um primata, uma bailarina, um acrobata, um coro de carnaval, uma carnavalização de sentimentos e um público súplice em penetrar no círculo das ilustrações dos mascarados e nus.
“Matadouro” parece ter pouca justificativa cênica, mesmo que desprovida de amarras da cultura ocidental aristotélica. Levar o público, quem sabe, à condição de luta, em um ponto indefinido entre vários sentidos, parece discurso de que o princípio seria o total vazio, para que em seguida pudesse surgir a luz.
Para público mais ortodoxo, talvez merecesse o espetáculo uma prospecção a repertórios acumulados, mas não seria o caso de em o “Matadouro”. Análise de discurso seria para lingüistas e a peça não parece um tratado cênico, mas proposta livre.
Da trilogia de grande efeito, iniciada por “Sertão” e secundada por “Bull Dancing”, “Matadouro” parece ser carne mais fraca, esfriou no discurso do contemporâneo. Quem puder entender, estará no círculo do dentro.

