Carne Fria

Por: às 14/12/2010 11:44:33

por Maneco Nascimento no Vooz.

“(…) Fez em torno um círculo de vigilância: postaram-se sentinelas à saída dos quatro caminhos e nomeou-se o pessoal das rondas (…)” (A Luta II – Era a tropa/Os Sertões, de Euclides da Cunha)

O Núcleo do Dirceu apresentou nos dias 19 e 20 de novembro de 2010, em estréia local o espetáculoMatadouro”, às 20 horas, no Galpão do Núcleo, com entrada franca. Desembarcou na cidade após temporada no Rio de Janeiro, onde esteve participando do Festival Panorama 2010, ao lado do Demolition Inc.., da Holanda.

O espetáculo “Matadouro” fecha uma trilogia iniciada por Marcelo Evelin e pelo Grupo Demolition Inc…, em 2003, com “Sertão” e que teve continuidade com “Bull Dancing”, de 2006. De temática cíclica do universo sertanejo, a tríade apreende-se de diversas referências particulares para preenchimento de dados ao mapa cênico.

O último elo da trilogia baseia-se nos trechos de “A Luta”, da obra Os Sertões, de Euclides da Cunha. Em entrevista dada ao Jornal O Dia, Cultura, pag. 3, de 19 de novembro de 2010, o performer Cipó, do elenco do espetáculo, disse que para “Matadouro” são trazidas várias realidades para demonstrar a condição de luta, desde a Batalha de Canudos até os campos de concentração de Auschwitz.

“(…) Reunidos sempre em volta da bandeira do Divino, estraçoada de balas e vermelha como um pendão de guerra, os jagunços enfiavam pelas ruas. Contorneavam o arraial. Volviam ao largo, vozeando imprecações e vivas, em ronda desnorteada e célere. E foram, lentamente, nesses giros revoltos, abandonando a ação e dispersando-se pelas cercanias (…) (A Luta II – Primeiro combate/Os Sertões, de Euclides da Cunha)

O espetáculo que pude acompanhar àquela noite(20.11.10), começava com um ator mascarado de gato, trajava uma alfaia na parte frontal do corpo nu. O som do instrumento marcava o tempo e, talvez, o anúncio dos preparativos para a guerra, à feita das estratégias primitivas e clássicas. Circulava em torno de um microfone.

Depois de uma repetida espera, outros atores incorporam a mis-en-scène. Mais seis atores e uma atriz postam-se ao fundo, de costas ao público, tiram a roupa e as máscaras com que romperam a cena e, aguardam, enquanto o “gato” continua marcando a guerra, outro ator toca uma cuica e um terceiro amola facões.

“(…) Por outro lado, por mais original que seja o método combatente dos matutos – guerrilheiros impalpáveis dentro da tática estonteadora da fuga! – rola todo neste círculo único (…)” (A Luta III – Preparativos da reação/Os Sertões, de Euclides da Cunha)

Os atores recolocam as máscaras e seguem à formação de um círculo em torno do microfone. Rodeando aquele microfone, a testar o cansaço e a paciência do público, ficam por um longo exercício militar. Com o tempo e o calor natural da Casa, do elenco e do público, a carne aquecida começa a exalar odores naturais.

Exposta a carne, como em uma gôndola giratória, os corpos em pelo, das personagens mascaradas, começam a ganhar efeito de carne, em matadouro, sujeita ao ácido láctico. Um ator retira da máscara um desodorante, se autodesodoriza e ao ambiente, dá uma aliviada no palco da guerra.

Por mais de 50 minutos, num círculo constante, o sexo à expiação pública, os rostos cobertos com olhos entre agressivos e pacientes, um dedo dado aos céus, um primata, uma bailarina, um acrobata, um coro de carnaval, uma carnavalização de sentimentos e um público súplice em penetrar no círculo das ilustrações dos mascarados e nus.

Matadouro” parece ter pouca justificativa cênica, mesmo que desprovida de amarras da cultura ocidental aristotélica. Levar o público, quem sabe, à condição de luta, em um ponto indefinido entre vários sentidos, parece discurso de que o princípio seria o total vazio, para que em seguida pudesse surgir a luz.

Para público mais ortodoxo, talvez merecesse o espetáculo uma prospecção a repertórios acumulados, mas não seria o caso de em o “Matadouro”. Análise de discurso seria para lingüistas e a peça não parece um tratado cênico, mas proposta livre.

Da trilogia de grande efeito, iniciada por “Sertão” e secundada por “Bull Dancing”, “Matadouro” parece ser carne mais fraca, esfriou no discurso do contemporâneo. Quem puder entender, estará no círculo do dentro.



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  • César Costa: Marcelo, concordo contigo quando diz que só o fato de ser artista já não te coloca como medíocre. Se...
  • Danielle: Não dá pra não fazer conexões entre as coisas ditas, ouvidas, feitas, vistas e acontecidas. Acho que não...
  • weyla: Hoje conversando com minha avó ela me disse que não queria mais comprar roupas porque tava perto de...
  • elielson: de comer e se comer sim. opa!
  • marcelo evelin: super eli! obrigado por juntar tudo aqui pra que se possa ir mapeando. foi bom vc ter trazido a mesa...

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