Casa de Cachorro. Mil Casas.

Por: às 28/02/2011 17:30:17

Quanto mais as pessoas são endurecidas pela vida difícil, mais fácil elas se animalizam para sobreviver, se brutalizam numa estratégia de fortalecimento. Essa “dificuldade” da vida, obviamente vai bem além de problemas financeiros – é a dificuldade de se relacionar afetivamente, é a dificuldade de conseguir ser honesto, de conseguir se assumir como pessoa. Penso que a relação direta com um animal consegue quebrar essa dureza, deixando algumas coisas passarem.

A imagem de uma grande casa de cachorro forma um paralelo com as conseqüências da aridez de Vidas Secas. O fato é que as pessoas conseguem coexistir muito bem em seus diferentes graus de embrutecimento. Os membros da minha família imediatamente nuclear não são muito afetivos uns com os outros. As pessoas são meio que isoladas de si mesmas e em si mesmas. Mas os animais de estimação que tivemos ao longo da vida cumpriam o papel de dar vazão ao afeto. Cada um chega ao final do dia cansado, cumprimentando os outros burocraticamente – quando acontece de rolar um boa noite, já que às vezes está cada um em um canto e não há ninguém no espaço entre a porta da rua e o próprio nicho. Mas o bicho da casa, esse faz festa para quem chega. E é festejado e cumprimentado. Interage com todos os membros. É escorraço, ou acarinhado, ou empurrado – mas ali há um espaço de comunicação.

Muitas vezes o bicho ia fazendo quase uma coreografia, ou sendo o anel naquela brincadeira infantil, sendo passado pelas mãos de todos. O bicho vai de mão em mão, afetando e sendo afetivo, demonstrando medo ou alegria, atualizando os sentimentos de quem não está mais tão habituado a expressá-los entre os seus iguais. E o animal que é um ser à espreita como diz Deleuze, fica ali, recebendo e distribuindo os afetos bons e ruins que estão em suspenso, sempre pronto para participar e receber o que quer que esteja sendo oferecido. Às vezes, esse processo ganha nuances extremas, trágicas, cômicas. O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, um dos luminares do século XVIII, abandonou cinco filhos mas nutria adoração genuína por seu cachorro. Um gênio.

Minha proposta é ser um lugar de antena. É tentar experimentar esse lugar de comunicação, recebendo e enviando o que transita em uma casa e passa pelo animal que ocupa o lugar de estimação – seja ele como um “filho”, um “objeto”, uma “válvula de escape” ou um “consolo para a solidão” – algumas da referncias que os especialistas dão aos bichos na contemporaneidade.

O primeiro método: ocupar uma casa em que já exista um animal de estimação minimamente sociável a estranhos.  Se vou ser um elemento exterior em seu território, vou estar a priori sujeita a uma reação de defesa por parte do animal. Se ele for agressivo, isso será inviável, porque a ideia é que eu também possa conviver diretamente com ele, minimizando as chances de precisar tomar 10 injeções contra raiva.

A ideia é ficar na casa por um período de 3 horas, das 17:00h às 20:00h, entre o final da tarde e começo da noite, convivendo com o animal. Penso em registar em vídeo a primeira parte desse tempo, de uma perspectiva de como o animal da casa a vê – pretendo ampliar essa ideia com Jell e Leo, que podem me dizer a viabilidade técnica disso e/ou dar sugestões nesse sentido. A segunda metade seria estar ali, interagindo como um animal a mais na casa, tendo como referência o tratamento e os espaços ocupados pelo animal que lá já existe – Adotar sua postura. Até agora, isso me veio de dois modos: isso pode ser feito literalmente, quase que por imitação, ou apenas tentando personificar (na verdade investigando) em mim, Danielle, as relações estabelecidas entre o animal e os membros da casa.

Paralelamente a isso, o Jell já mencionou na última reunião a ideia dele sobre um vídeo, em que um manequim seria cenograficamente esquartejado, numa imagem de membros descompostos com sangue cenográfico. O manequim seria cercado por cães, que lamberiam o sangue, não numa ideia de agressão, mas de acarinhar esse manequim. Minha ideia sobre isso é que alguns desses membros sejam humanizados na edição. Ainda estamos pensando sobre.

É isso.



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2 Comentários

  1. Elielson disse:
    3 de março de 2011 em 18:31

    dani,
    nós (homens e mulheres) somos animais, babe.
    o problema é que a gente esquece isso. ou se super valoriza por isso, ne?


    Responder
  2. elielson disse:
    3 de março de 2011 em 18:49

    Essa coisa de “processo de animalização do homem” na literatura é papo-furado de psedointlectual ou discurso de critica literaria empoeirado.


    Responder

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