é promessa, só pode ser. queima, diabo. aí é que é vontade de ter chifre, menino. passa pro curral, bode véi. moço, isso aí é promessa é? não, não. e você anda assim porque gosta? também não, meus joelhos estão doendo e minhas mãos estão queimando dentro das luvas, não teria como gostar. então por que é que você está fazendo isto? o que você pensa vendo uma coisa dessas? sei lá, só em promessa mesmo. outro grita – pois eu penso é em chifre, o cabra que pegou tanto crifre que ficou assim. //// a gosma de frutas podres molhando o chão. pernas de rostos desconhecidos passando, joelhos me olhando cara-a-cara. uma roda de capoeira e um velhinho maltrapilho tocando vilolino. olhares abismados fluindo de dentro das lojas e pessoas que largam a comida na mesa para ver mais de perto. //// oh, meu deus – dizem velhinhas com cara de beatas piedosas convictas de que estão diante de um fiel católico em deliberado suplício pela remissão de algum pecado ou pela gratidão por um milagre recebido. //// até que um vendedor anuncia num microfone reprodutor mais de ruído do que de sua voz – o rapaz aqui está pagando uma promessa – e eu volto lá e peço a ele para falar de novo, explicando que não é uma promessa, e ele faz isso, e todos ficam sabendo de uma vez por todas que não se trata de uma promessa, para o pasmo das beatas. //// o joelho doendo pra cacete, as joelheiras que o jacó prometera não saíram, nem o chocalho, me deixando de saia justa na última hora, me obrigando a fabricar um extra pra comprar o chocalho e umas ataduras que não protegeram além dos primeiros dez minutos. depois de uma hora de ação os joelhos não suportavam mais o asfalto e a calçada, parei perto de uma banca onde havia uns jornais jogados no chão, sentei, suspendi as pernas das calças, removi as ataduras, dobrei várias folhas de jornais e fiz com elas um tipo rudimementar de forro e prendi com as ataduras sobre os joelhos, mas mal comecei a engatinhar de novo elas escorregaram e eu decidi não parar novamente. //// surge jussandra, com aqueles olhos, está preocupada comigo, se aproxima, pergunta se pode falar comigo, digo mais ou menos, ela se afasta mas não vai embora, fica me observando por entre as bancas. até que às 12h00 em ponto o alarme do celular toca dentro do meu bolso. tinha acabado o primeiro dia da ação. no banheiro do camarim do teatro, o ardor ao molhar os calos abertos das mãos, feitos pelas luvas de couro de búfalo, e dos joelhos, e um sorriso pela estranha sensação de que acabara de realizar uma das coisas mais incríveis da minha vida.
:: eduardo prazeres ::
30 de março de 2008 em 19:28
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Pagaria pra ver a cena.
Eduardo, seria interessante vc tentar nos dizer pq essa foi “uma das coisas mais incriveis” da tua vida.
Foi pelo fato de ser arte qdo ninguem sabe que e’ arte?
Ou pela total desprotecao da situacao?
Tenta nos falar disso, mas precisamos tbem de um resumo da tua ideia inicial, para melhor visualizar a situacao e os contratempos dela. Abraco.
31 de março de 2008 em 9:36
faco ideia que tenha sido mais forte pra tu do que pra quem tava vendo..agora uma pergunta…como e colocar o corpo nessa acao extrema? teve algum momento que tu esqueceu completamente o exercicio de “arte” ou “performer”.Curioso!
1 de abril de 2008 em 13:48
Marcelo,
a idéia inicial era meio fragmentada, mas há alguns pontos de interesse que eram claros pra mim desde o início, como: 1 – colher elementos próprios de um ambiente para a criação de uma imagem que não apenas gerasse reflexão sobre o ambiente, mas fosse capaz de levantar questões mais universais a partir daí; 2 – o desejo de interferência em um “não-lugar” (expressão trazida pela Laiane)no sentido de conectar pessoas antes indiferentes umas às outras através do lúdico, do esdrúxulo; 3 – e tem uma coisa de sertão que é o elemento mais subjetivo dessa história toda, um tipo de eco das palavras de João Guimarães Rosa – “o sertão está em toda parte” – mas isso eu ainda não processei com clareza no pensamento. E com relação a ser uma das coisas mais incríveis, como eu disse, foi uma “estranha sensação”, porque pela lógica eu deveria me sentir humilhado, foram duas horas de chacotas, de pessoas dizendo coisas engraçadas mas horríveis de se ouvir quando levadas a sério. Não sei direito, talvez entre aí um pouco de vaidade, pela certeza de que a história daquele ambiente foi altereda pra sempre pelo que eu fiz e ainda vou fazer, e que isto pode vir a ser mais uma lenda urbana a passar de geração para geração oralmente, despretenciosamente, em rodas de pessoas que sentam para relembrar velhas “prezepadas” de “doidos com suas manias”, sei lá, esse tipo de coisa misturado com muitas outras que não sei explicar e também com aquilo que vc falou sobre “total desproteção” da situação, que gera um instinto de aventura meio juvenil e gostoso de sentir. Acho que é por aí.
E Fábio,
sobre esquecer a figura do artista ou performer, foi uma coisa que aconteceu com o desenrolar da ação, porque no começo me apoiei totalmente nisso. Quando olhei pros lados e não vi nenhum dos 18 “remelas” me senti meio desamparado, e fiquei repetindo para mim mesmo: “sou um artista, estou aqui para fazer uma coisa importante”. Mas com o passar do tempo, o corpo me mostrou a situação real em que eu estava envolvido, perdi o medo, parei de invocar a figura do artista para me manter ali, e fui em frente em estado de alerta produzido pelo desconforto e sentindo uma estranha demência conciliadora de dor e prazer.