Palestra de Christine Greiner abre o coLABoratório

Por: às 21/04/2010 10:31:38

O reconhecimento do corpo humano como centro de reflexão filosófica, social, política e artística, ocupa pesquisadores, dançarinos e pensadores das mais diversas áreas do conhecimento, no Brasil e no mundo. Dona de uma das mais respeitadas bibliografias da área no país, e nome frente à vanguarda no mapeamento do corpo, a professora doutora da Pontífice Universidade Católica de São Paulo, Christine Greiner,  vem a Teresina pela primeira vez e oferece palestra no dia 24, sábado, às 19 horas, no galpão do Núcleo do Dirceu. O endereço é rua Jaime Fortes, número 3228, próximo ao Comercial Carvalho Alternativo.

Pouco antes da palestra de Christine Greiner, será apresentado o desenvolvimento de uma das obras dos artistas do Núcleo do Dirceu. Na concepção de Cipó Alvarenga, Elielson Pacheco, Janaína Lobo e Layane Holanda, o espetáculo que é provisoriamente chamado de “Raio X”, possui um caráter de instalação. Ele ocupa o ambiente do galpão em edição fragmentada, onde apresentam-se as células de Janaína Lobo e Layane Holanda.

Após a “Mostra Raio X”, Christine Greiner, que tem presença motivada pela abertura oficial do coLABoratório, programa de intercâmbios e residências entre artistas de Teresina e do Rio de Janeiro,  foca sua palestra em um bate-papo simples e aberto sobre o ambiente da dança contemporânea nacional.  Ela divide com o público a experiência da observação e contato com o universo  que ocupa mais de 19 anos de carreira entre universidades do Brasil e de fora, sob os mais diversos olhares. Da PUC de São Paulo, passando por pós-graduações e pesquisas em Tóquio e Nova Iorque.

Missão política na elaboração da arte, dificuldades financeiras em fazer e manter dança contemporânea, novos rumos no cruzamento de influências e um panorama geral no estudo do corpo e a sua história na cultura ocidental e oriental, todos são pontos a serem tocados em sua palestra. Com fala acessível, a palestra é destinada não só a artistas teresinenses, jornalistas e acadêmicos, mas também a todos os interessados em cultura e no contato com a idéia de que corpo e mente não são ambientes distintos.

Ela fala ainda sobre seu último livro lançado, “O Corpo, pistas para estudos indisciplinares” (Editora Annablume, 2005), e a zona de divisão cada vez mais obscura entre fazer arte, descobrir ciência e exercitar filosofia. Após a palestra, Christine segue para Luis Correia, onde no dia 26, é iniciado sob uma semana de sua orientação,  o coLABoratório,  com artistas de diversas partes do Brasil, da América Latina e da África. Confira uma pequena entrevista sobre algumas linhas centrais do que vai ser apresentado.

Vindo para trabalhar como orientadora de 17 artistas no coLABoratório, um programa que se mostra bem sucedido dentro do Brasil no ambiente da dança contemporânea, como você avalia a segunda metade da década neste nicho de produção dentro do país? Como funciona a balança entre quantidade e qualidade de obras feitas pelos artistas contemporâneos brasileiros onde o corpo é o personagem principal? O coLABoratório é importante nesse cenário?

Não conheço também muito sobre o coLABoratório, apenas as impressões da Vera Sala, que participou o ano passado, se não me engano. Eu li com bastante atenção os questionários que os participantes deste ano preencheram e montei meus seminários a partir das questões deles. Me parece uma iniciativa bem importante, mas ao mesmo tempo difícil, porque são pessoas muito diferentes se reunindo por um período intensivo, mas curto. Espero poder colaborar.

Por que dança contemporânea ainda é um forma de expressão ainda tão afastada de maiores holofotes, ou mesmo da tradição e dos estereótipos sobre a dança, que acabam por impedir que ela seja observada como uma plataforma mais que artística, mas para discussão filosófica, política, e etc?

Há uma diversidade muito grande de experiências colocadas sob o rótulo de dança contemporânea, e de certa forma ela também virou um holofote. Ficou “chique” dizer que se faz dança contemporânea, que se faz pesquisa, que não cria espetáculos, e sim, “processos”. No entanto, nem todo mundo que usa estes vocabulários, sabe do que está falando. Aqui em São Paulo, por exemplo, há vários editais, a produção cresce em quantidade a olhos vistos. Isso tem despolitizado algumas ações. Isso porque, como os tempos de “pesquisa” são curtos, mal acaba um projeto o artista já precisa pensar no próximo, o que dificulta aprofundar uma discussão filosófica. Tudo é rápido demais. Precisamos de algum tempo ainda para ter uma visão das conseqüências disso tudo.

Dança dentro da academia. É dentro na universidade que a dança ganha um ponto de partida com maior possibilidades? Como é fazer arte colocando e refletindo o teórico no auge de um processo produtivo, deixando um pouco de lado o que é intuitivo e o autodidata. O que ganha o artista?

A universidade reúne de maneira intensiva uma gama de conhecimentos teóricos e práticos. Serve, a meu ver, para ajudar os artistas a aprenderem a criar conexões, por isso facilita o processo de aprendizado. Mas não dá para generalizar. Há alunos que passam pela universidade como turistas, e artistas que nunca foram à universidade mas apresentam uma pesquisa bastante consistente.

No seu livro de “O Corpo” 2005, você destila o pertencimento e o valor da interdisciplinaridade na produção e pensamento artístico? Seguindo as trilhas de Edgar Morin, que apontava um caminho entre diagonal das ciências como forma de maiores evoluções, você afirma que é no cruzamento entre a arte e a ciência, o corpo e o meio, e a dança e outras artes, que está um caminho mais frutífero a ser seguido?

Veja bem, eu não falo em interdisciplinariedade, mas em indisciplinaridade. Estudo um fenômeno distinto que não é o da relação ou diálogo entre diferentes disciplinas, mas a extinção dos limites, as zonas de contaminação, o colapso da noção de disciplina. Não há corpo sem ambiente. Não há mente sem corpo. Arte, ciência e filosofia compartilham saberes e questões. Sim, eu acredito neste caminho indisciplinar para ativar processos de criação.



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3 Comentários

  1. jana disse:
    23 de abril de 2010 em 3:25

    O nome do trabalho é Raio X mesmo! Pronto acabou o drama do título.
    curiosa com a palestra!


    Responder
  2. Igor disse:
    23 de abril de 2010 em 13:57

    Ah, bom saber que vocês se decidiram, haha.

    Fica aí, então:

    Raio X.


    Responder
  3. valdemar santos disse:
    30 de abril de 2010 em 21:59

    Cristine é uma das pessoas mais generosa e cheia de informação pra dar, é também amorosa e sabe muito bem como fazer a condução de qualquer discussão referente ao corpo, é cientista e matemática, é pura lógica. Encontrei no colaboratório um espaço propício para desenvolver muitas idéias e cada pessoa que tá ali tem muito pra contribuir nesse processo, tem sido muito boa nossa troca e muito intensa nossa satisfação e felicidade em está inserido num projeto tão audacioso que junta seis países e mais seis estados brasileiros, é certamente um grande aperfeiçoamento de idéias e comprometimento com a arte coletiva, o exercício da troca. Que mergulho fantástico!!!!!!


    Responder

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Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

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Comentários

  • César Costa: Marcelo, concordo contigo quando diz que só o fato de ser artista já não te coloca como medíocre. Se...
  • Danielle: Não dá pra não fazer conexões entre as coisas ditas, ouvidas, feitas, vistas e acontecidas. Acho que não...
  • weyla: Hoje conversando com minha avó ela me disse que não queria mais comprar roupas porque tava perto de...
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  • marcelo evelin: super eli! obrigado por juntar tudo aqui pra que se possa ir mapeando. foi bom vc ter trazido a mesa...

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