CLOSEd #1

Por: às 13/02/2012 11:53:39

ESPAÇO SIMBÓLICO : Quintal

O quintal  de uma casa é o lugar do fundo, do que muitas vezes está escondido, do entulho, do que eu não uso com freqüência, do que está quebrado, danificado, ou mesmo, onde estão as coisas que podem ir ao lixo, onde geralmente colocamos o que “não serve tanto”. É  um lugar de acúmulo e por isso, pra mim, é um espaço simbólico de memória.

O quintal, assim como o quarto ou a cozinha é também um lugar de intimidade, mas de uma intimidade devassada, de calcinha no varal, de roupa suja, de móvel quebrado, de garrafas… é o lugar onde eu só levo “quem é de casa”. Onde se passar água oxigenada nas pernas, se faz churrasco, lugar do faxinão, da lavação de roupa suja, de banhar o cachorro, de fazer sexo escondido, de fumar com os amigos….É também um espaço relacionado a infância, a uma certa nostalgia, espaço onde se brinca, joga, onde acontecem as festas.

Quando penso nessa “intimidade devassada”, imagino aquele parte de nós que as vezes não queremos dar a ver. Aliás, pra mim quintal é paradoxalmente um lugar de solidão, porque é espaço que existe pra mais de um. Um quarto é de uma pessoa. Mas um quintal… ainda que você more sozinho,  lá via de regra, é um lugar mais “social”, que inclui o outro.

A noção de tempo atribuída a esse espaço é diferente da do resto da casa…lás as coisas ficam, estão, podem  simplesmente aguardar.

Quintal é a parte externa da casa, por onde se pode espiar com mais facilidade quam habita aquele endereço, por isso, metaforicamente é, pra mim, um lugar de maior vulnerabilidade.  Na maioria das vezes é pode onde se pode invadir uma casa.

Penso que esse lugar é o que mais se aproxima da idéia de vínculo (como assunto), mais até do que uma cozinha, onde geralmente nos reunimos. Porque quintal é um lugar cheio de AUSÊNCIA. Onde não se vai nem com tanta frequência, onde não estamos a maior parte do tempo e acho que estar vinculado a alguém passa perto daí, de uma relação de presença e ausência, de uma falta, de uma não-permanência.

Quintal é a parte da casa que tem uma outra topografia, geralmente um outro chão, ele não é tão limpo e organizado como a parte de dentro da casa,  lá se acumulam as folhas da árvore do vizinho, a água da chuva, os brinquedos, o material de construção. E porque ele possui outra topografia e é aberto é um espaço de MENOR CONTROLE…. ele não é tão organizado “para” receber, a ocupação ali é mais caótica.  E por não estar o tempo todo sob os nosso olhos, ou sendo cruzado no dia a dia (como a sala ou a cozinha da nossa casa) ele é a parte que nos damos a ver sem tantos julgamentos.

Numa casa, quanto maior o seu quintal, maior é a possibilidade do que pode ser feito, do que pode ser ampliado, do que pode acontecer a partir daquele espaço. Por isso mesmo quanto maior o quintal, em geral, mais caro o imóvel. Quintal é também um espaço de segredos, onde se enterra corpos e dinheiro, por onde se foge, onde a gente se esconde.

A AÇÃO: 1000 Casas

As vezes eu acho que no ano passado (2011) eu estive no quintal de mim mesma. Orbitando. Esperando novas razões. Out. Desconectada de do que acontecia dentro, em um outro ritmo.   Apresentei esta ação ainda no inicio do projeto 1000 Casas. Casas agendadas que possuíssem moradores do sexo masculino  - senhores, homens, rapazes, garotos . A idéia era ficcionar a partir dessas pessoas o que nunca me aconteceu, o que de alguma forma não existiu como experiência em minha família formada essencialmente de mulheres. Por isso eu inventaria para mim mesma, um pai, um avô, um marido, um irmão, um amigo. 

A principio isso me pareceu ultra-pessoal e um pouco terapêutico, e me lembrava a trend anos 2000 da Sophie Calle.Uii, Medinho dessas coisas autobiográficas que não interessam a ninguém. Então eu mesma julguei a proposição  e acabei não a concretizando, indo na direção de outras coisas.  Mas é engraçado como o trabalho por aqui oscila numa não-lógica. Daí pensei: se até a Mallu Magalhães consegue se reinventar e cantar “pode falar que eu não ligo, eu tô ficando velha, eu tô ficando louca” , por que não?  Vínculo, bauman, solidão, amor, continuaram a ser as coisas sobre as quais eu me interessava em falar ou experimentar. A necessidade de ir na direção do que realmente se passa no meu corpo me trouxe de volta a ação.

E eu estou apresentando ela ao projeto. Ainda não sei como dissecar tudo, porque estou no frenesi da coisa todao (fiz só uma vez) … só sei dizer que foi muitooooo bom. E acho que o depoimento do Cesinha, meu documentalizador, que estava na primeira casa-piloto,  pode me ajudar  a ampliar esse entendimento. Ele disse que minha performatividade era “cara de pau”  e eu fiquei bem curiosa com isso. Claro, que de cara já identifiquei alguns riscos, coisas que preciso ajustar…. ou levar na direção que me interesssa. A primeira é que a proposição de ir a um quintal com um homem, em si, tem algo de ambiguo e sexual que eu preciso limar (ainda que seja impossível limar por completo). E preciso limar porque isso nao é o que me interessa.  Quero ficar um pouco londe dessa camada primeira e mais obvia de heteronormatividade dual de casal. Sei que essa é a layer mais fácil, mas não é a única que me interessa. E cair nela é bem fácil.  Ainda preciso também, incorporar as coisas que me deparo lá ao que eu faço…os objetos, o lugar meio bagunçado. A ação não tem um roteiro, eu convido a pessoa para assistir um video-clipe sobre amor e solidao, e aos poucos vou incorporando o morador naquela situação comigo. Que situação? Aí é que tá, eu tmabém não sei ao certo…. eu descubro na hora “quem” vai ser aquele cara…porque o espaço vai gerando a conversa, ou vai me dando pistas de onde eu devo ir, de como eu coloco meu corpo ali. A única coisa que sei é que de alguma maneira eu vou compartilhar com aquela pessoa uma fragilidade em mim, que não consigo mensurar.  É sobre essa relação, é só sobre me aproximar dessa pessoa que nunca vi e performar entre eu e ela algo que não existe  - um tipo de vínculo – que é construído ali na hora.

A DOC

CLOSEd é o nome da revista. Um trocadilho com perto e fechado, condição Bauman dessa super exposição-conexao-interatividade a que estamos submetidos. E que nos torna cada vez mais perto das pessoas, e ao mesmo tempo, blindado ao  outro.  Fotonovelas é o formato que pensei para essas “histórias de quintais”. Eu adorava Fotonovelas, era um passatempo na minha infância sem internet . Coisa de quem foi criada por tias solteiras. Além de uma pegada “vintage” essas publicações sempre foram histórias de casais, histórias entre duas pessoas,  um homem e uma mulher, seja um drama de amor , ou um conflito entre irmãos, pai e filha, etc.  Também pensei que uma revista seria também uma maneira de materializar esse vínculo que proponho, um tipo de recordação dessa manhã ou fim de tarde que passo junto com esses moradores, por isso, as histórias sao impressas e cada morador recebe a sua história de quintal.

Sei que estamos numa segunda fase do projeto e por isso mesmo as conversas e impressões sobre essa ação tem acontecido mais  informalmente, no fluxo, a medida que vou encontrando com alguém pelo galpão, pelo escritório, no carro caindo em campo. Por isso quis escrever  aqui de onde vem a coisa toda, ou como a tenho pensado. Dessa forma  quem quiser pode meter  ”a colher no doce”.

E sim, eu continuo nas docs. Nesse exato momento em que finalizo o texto, tenho tres em mãos. Eita!



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Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

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Comentários

  • César Costa: Marcelo, concordo contigo quando diz que só o fato de ser artista já não te coloca como medíocre. Se...
  • Danielle: Não dá pra não fazer conexões entre as coisas ditas, ouvidas, feitas, vistas e acontecidas. Acho que não...
  • weyla: Hoje conversando com minha avó ela me disse que não queria mais comprar roupas porque tava perto de...
  • elielson: de comer e se comer sim. opa!
  • marcelo evelin: super eli! obrigado por juntar tudo aqui pra que se possa ir mapeando. foi bom vc ter trazido a mesa...

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