Há dois dias encerramos a edição 2009 do ColaboRaTÓRIO com Rob List. Pareceu-me coerente encerrar o ano com um criador de 60 anos, porque por algum motivo ou coincidencia, ao longo das residências as idades e gerações dos artistas que nos visitaram estavam numa escala crescente ( Cristian– Tamara – Boyse – Denise - Zeynep e Rob).
Rob, de bermuda de surfista e com o cabelo quase sempre assanhado, me pareceu desde o primeiro momento uma figura divertida, com cara de doido, destoando completamente da imagem que eu tinha construído a seu respeito, ou por ter ouvido falar, ou pela seriedade sofisticada preto/branco do site OZU. E achei isso muito bom! Já no primeiro dia, em que nos conhecemos, começamos a conversar sozinhos, de igual pra igual cada um na sua língua, e como seu português era tão precário e ruim quanto meu inglês, se entender foi sempre um esforço mútuo e divertido. Adorei todas as oportunidades de não-entendimento que experimentamos no discurso, onde o corpo regia muito mais a comunicação, para além da mímica e gestos descritivos, de uma maneira muito mais sutil e sensorial.
List nos trouxe uma proposição clara sobre seu trabalho, uma metodologia, tópicos que funcionam como eixos para a construção de um modelo coreográfico. Esse modelo de inicio é uma pequena estrutura , mas aos poucos, vai se mostrando mais como um objeto que se experimenta, analisa, investiga. A pesquisa era muito mais sobre o que é e como pode ser performar, e cada modelo, funciona como objeto dessa pesquisa, como pretexto para investigar o ato de performar. Todos os tópicos são procedimentos, que eu experimento (não previsibilidade, inalação como motor, não simetria, etc) para chegar nesse lugar onde artista e audiência estão juntos, onde você está presente em cada momento, naquilo que você está trabalhando. Onde corpo e mente estão juntos numa dança que não mostra alguma coisa e nem tem pretensão de ser um conceito ou uma verdade sobre nada.
Eu ainda estou assimilando o que experimentei, porque – por osmose – em apenas dois dias de aula com todo mundo, é difícil digerir tudo. Na verdade me sinto mais como alguém que foi lá e mordeu uma coisa, que pegou um pedaço. A manhã em que estive sozinha com Rob – onde ele me explicava o método em intervalos de five minutes para que eu pudesse daí em diante participar com todo mundo – me confirmou ainda mais a tal sentença “idéia não tem dono, tem usuário”.
Nesses exatos cinco dias de Colaboratório e convivência com Rob muitas coisas se misturaram e me confundiram. Às vezes me assustava com os elogios, o interesse e a curiosidade dele por absolutamente tudo, pelo lugar, pelas pessoas, pelos trabalhos, por uma convivência forte fora do estúdio. Daí, que coisas como estratégia, turismo cultural e relação neo-colonialista, me passaram pela cabeça. E eu me via meio em dúvida , sem saber ao certo se meu comentário tinha chegado como ironia, sem conseguir reconhecer se determinada coisa era ou não era uma brincadeira. Mas acho que isto acabou sendo um grande aprendizado pra mim. Porque fui me dando conta que é assim mesmo…. é sempre oscilante se aproximar do outro, principalmente quando esse “outro” acontece em muitos níveis: outra geração, outra língua, outro país, outro sexo, etc etc, etc. Nos últimos dias, conseguia enxergar em Rob um corpo carregado de experiência, e ainda assim muito permeável, como bem disse Marcelo, no último dia de Colaboratório. E na verdade todo o interesse, o fato de ele estar sempre com alguém fazendo alguma coisa, ou curioso, ou nos convidando a ir a algum lugar eram apenas a manifestação de uma disponibilidade e abertura tamanha, que talvez a gente nem tenha conseguido aproveitar ao máximo. Porque se deixasse Rob trabalhava o dia inteiro, comendo o peixe, vendo capoeira ou andando de ônibus. Era só propor!
Acho mesmo que a palavra COLaboratório é apropriada pra esse projeto, principalmente porque ela se relaciona com uma outra de mesmo prefixo: COLetivo. Colaborar com alguém, vai além de apenas trocar, é sempre um movimento de mudança e generosidade em função do outro. E não se trata dessa generosidade cristã altruísta, que se aproxima de ajudar alguém que precisa. Colaborar é mais próximo de parceria, de ombro a ombro, de tete-a-tete, é como ser o shift do teclado, pode passar por um feedback, por uma troca de referencia, ou mesmo por um confronto onde nos colocamos junto com o outro num lugar de desafio.
Em todos os artistas que nos visitaram, colaborar ia além do conteúdo ou proposição especifica da residência, se ampliava em gestos simples como chegar cedo e entrar com sua própria chave num exercício cotidiano de pertencimento aquele lugar, ou ainda, limpar o chão junto anulando qualquer distinção ou hierarquia na convivência diária. Colaborar foi sugerir ou modificar algo no espaço levando em conta uma necessidade coletiva, foi vestir a camisa e trabalhar não apenas de manhã entre quatro paredes, mas também de noite entre corredores e praças e de tarde entre avenida, supermercado e horta. Foi lidar com alguns atrasos, às vezes ao chegar, mas muitas vezes também ao sair, porque o trabalho tava tão bom que comer ia ficando em segundo plano. Foi literalmente disponibilizar meu solo, meu vídeo, meu livro, meu corpo, meu computador porque passei a tomar como minha a necessidade do outro.
Acredito que todas as experiências que tive, seja correndo na rua, ou ficando sob a mira de um revolver, seja construindo um jogo ou uma casa de papelão, seja jogando com uma bola, me amarrando com tiras, ou recuperando cartas do passado, me fizeram melhor como artista e pessoa neste ano. E mais, diria que em função desse projeto, este ano especialmente difícil pro Núcleo do Dirceu, se tornou um ano especialmente fértil.
Ainda tenho fôlego pra 2010!
Ao Rob, que espero rever breve, e a todos os que passaram por aqui, muito obrigada!
L.H.