Ontem de manhã, na ação Como Emburrecer com a Ju, que dura 20 minutos, surgiram muitas reações – pra mim inesperadas – das pessoas que já estão reconhecendo e não sabendo como lidar com o incômodo da insitência da nossa ação de caminhar mascaradas pelo quarteirão. a idéia é fazer durante um mês, mas agora na segunda semana a enxurrada de reações tem me feito pensar. Hoje fiquei com medo de ir.
Ontem alguém chamou a polícia, e não pudemos deixar passar despercebidos uma viatura nos seguindo na caminhada, o rosto dos polícias passados e depois nos seguindo atrás do carro, até o balão da avenida das hortas. Acho que eles devem ter chegado a conclusão que éramos 2 mulheres “acima de qualquer suspeita”.
Isso tem me feito pensar em como as pessoas lidam com o desconhecido aqui: geralmente com agressividade, medo. E diretamente lembro do Mil Casas e da gente entrando na casa das pessoas. Frio na barriga. A importância da abordagem.
Ou então a coisa mais próxima desse desconhecido que a arte desperta nas pessoas seja a religião, neste caso aqui. O que eu mais ouvi era se nós estávamos pagando promessa, fazendo algum ritual. E cenas dramáticas como ouvir o barulho da vassoura e ver ela no chão se mexendo e a medida que nos aproximávamos o barulho simplesmente cessou. Uma pausa e uma suspensão. Foi mais forte do que se tivesse visto o rosto dessa pessoa.
o que incomoda mais: a ação da caminhada ou a insistência de fazer todo dia? Porque uma vez apenas você pode até ter como reação fingir que não vê ou que não afeta. Mas se isso te atravessa todo dia aí já não dá mais pra achar que não é nada.
Hoje fizemos a caminhada sem máscara e a reação das pessoas ainda foi ameaçadora, de confronto conosco. Não subimos nas calçadas, ficamos na rua. Mas no meio disso alguém pergunta se a gente está “fazendo uma academiazinha”. Não sei como vai ser amanhã.
E tenho pensado nisso tudo que está acontecendo nesta ação. A intenção não era de confrontar as pessoas, e sim de provocar reflexão, relacionando com o Armazém Paraíba. Será que o nosso discurso está sendo recebido assim por uma falta de clareza? Será que simplesmente é a reação legítima de quem olha?
será que isto é o que chamamos de chegar em algum lugar?