

O Instantâneo que abre a programação de Agosto e inicia o quarto semestre desse projeto de Espetáculos Improvisados, arrisca numa proposta nova, sem tentar instalar um modelo, mas abrindo uma discussão maior sobre o que é mesmo improvisação? O que é estar no momento? O que nos faz gerar informações que pensamos poderão vir a comunicar, provocar, mostrar alguma coisa para alguém?
O Instantâneo abre com um Solo, e eu me coloquei de cobaia nessa experiência que mesmo pra mim – macaco vei de improvisação – é completamente nova.
Escolhi as Variações de Goldberg, música de Bach que faz anos me acompanha. Sao 30 variações em torno de um mesmo tema musical, que se desdobram, se fragmentam, se repetem de outras maneiras, quase como de trás pra frente ou de cabeça pra baixo, ou como se as vezes fosse só um jogo de se deixar reconhecer e desaparecer, ou tropeçar em si mesmo.
Bach criou essas variações em 1741, por encomenda de um Conde que sofria de insônia e pediu ao compositor algo que o fizesse dormir. O Conde gostou tanto da primeira que ouviu, que passou a pedir mais e mais variações da música, que eram tocadas para ele em seu quarto por um discípulo de Bach, J.G. Goldberg, que acabou dando nome a essa “música para dormir”.
Eu gostaria de combinar corpo, tempo e espaço para desdobrar essa música fisicamente, encontrar mais variações em cima da idéia de fazer dormir, partindo do “mote” trazido por Bach e interpretado por Glenn Gould ao piano, numa gravacao que se tornou celebre. Gould que morreu faz alguns anos, foi o mais importante intérprete de Bach. Em sua gravação de 1955 o pianista tocava quase como se tivesse agregado outras variações aa partitura original, transpondo do Cravo para o Piano essa insistência brincalhona e genial do Compositor. Sem pretensões de me igualar a esses artistas e tomar lugar numa fila hierarquica, gostaria sim de encontrar tambem minhas variações, de debulhar esse terço de sonoridades e sensações até fazer o público pegar no sono.
Uma dança que faça dormir pode parecer o oposto do que se quer, pode parecer significar fracasso total, desastre, a última coisa que se quer dessa vida de “luzes, cores, brilho, arraso, escândalo” que se vê por ai. Mas pelo menos dormir é um estado absolutamente fisico, comum e necessário a todos sem distinção, um lugar de honestidade e entrega radical, sem artificialidades ou racionalização.
E não seria a dança uma ignição para o reconhecimento de um estado-situação gerado e processado no corpo?
Nao estaria a danca propondo exatamente uma transformação que ocorra pessoalmente mas que possa ser identificável em outros seres humanos, quase como um jogo de espelhos, nao da forma, mas da experiência em si?
Penso na dificuldade de fazer gerar impulsos improvisando sozinho para uma platéia. Penso no perigo da representação – a própria representação da figura solo, dos conceitos formulados em volta dessa idéia de espetáculo solo – e me c… de medo de cair no Ego, porque abomino a idéia de um mundo que gire em torno de uma coisa só, como um centro, um eixo, seja ele Deus, um País, o Sucesso, um parceiro de relação ou Si mesmo, que é de todas as alternativas acima a mais frequente e estúpida idéia de onde se imagina estar o centro do universo.
Dançar pra dormir, pra fazer rir, pra esquecer, deletar, pra pensar com outros cerebros, ver com outros olhos, se deixar penetrar por outros orificios. Ou apenas pra dancar, so dancar, mover o corpo, fazer arabescos com as pernas, o tronco e os braços, soltar a franga, estribuchar, desenhar no espaço tracos que jamais serão visíveis, que se desfazem no momento mesmo que são criados, pra desaparecer no que não existe, nunca existiu ou existirá.
::Marcelo Evelin::
(Palco do TMJP2 em Construcao::Fotos::Marcelo Evelin)
28 de julho de 2007 em 15:19
para mim ainda é bem dificil passear por essa rota escura da improvisação,mas ao mesmo tempo uma descoberta,onde mesmo sem uma planta baixa pode-se construir,apesar das incertezas onde tudo pode vir abaixo uma coisa é certa,terei que assumir,e quem sabe aí não esteja essa verdade que se busca,nessa fragilidade que tanto tememos aparentar…
28 de julho de 2007 em 20:31
honestidade.A palavra que trabalhamos com a Louis e que percebo claramente em suas colocações.Assim parece mais fácil desenvolver movimentos e se colocar num palco(na vida);livre de certa forma dos pesos do cotidiano infame (mesmo ele estando presente).È uma entrega de se fazer o que gosta como: comer,dormir,correr na areia,transar…com honestidade e sem culpa.
bjsdabid!
28 de julho de 2007 em 21:07
dançar para dormir me fez pensar em outras coisas de certa forma relacionadas…ir no teatro para sorrir e dançar para pura apreciação e deleite…porque são funções que são cumpridas. Mas este post me deixou foi com mais uma coisa pra pensar, na minha lista que não é pequena.