De fios e teias…

Por: às 03/03/2011 17:22:04

por Regina Rossi

O galpão deve ter uns 300 m2, paredes brancas e porta laranja. Fica a uma quadra da Avenida das Hortas, na rua da esquina com o Carvalho Alternativo.  Bairro do Dirceu Arcoverde. E agora que conheço as hortas me pergunto se este Arcoverde do nome é pela maior horta comunitária da América Latina, começada no Dirceu há mais de 30 anos. Um arco verde que permeia parte do bairro… Mas bueno, estas são outras histórias, pra outras escrituras…

O dia era quente e abafado. Meu primeiro dia de reunião junto com o Núcleo.  Sexta-feira passada, dia 25 de fevereiro de 2011.  Nove da manhã.

Café, biscoitos, e muita gente reunida ao redor da mesa colorida. Não éramos seis, mas 14. Duas vezes seis mais dois: Alexandre, Bebel, Cleyde, Cézar, Elielson, Izaká, Jacó, Jana, Juliana, Jéll, Layane, Léo, Regina Veloso e eu. E não estavam todos lá… Marcelo e Cipó viajando por exemplo, Soraya e Weyla não podiam… Um povo bonito, querido, de fala mansa e cuidadosa.

A pauta do dia era o projeto 1000 Casas, a ser desenvolvido pelos próximos dois anos pelo Núcleo no bairro do Dirceu. Uma mescla de formação de público, ações e performances. Muitas ideias, das boas: uma evacuação, um plantio de verde, uma possível faxina, um desejo de fotografar a vida dentro das 1000 Casas, dançar break nas casas, pesquisar e questionar hábitos destas 1000 e muitas gentes.

De lá pra cá já nos reunimos mais duas vezes, outra reunião do 1000 Casas e uma reunião-grupo-de-estudos sobre o texto O Mestre Ignorante, do filósofo Rancière.  O papo rola solto, trocando ideias sobre arte, trabalho coletivo, o mercado absolutista e centralizador da produção artística contemporânea, como receber informações sem ser colonizado, como mediar conhecimento sem ser opressor, embrutecedor. Bom. Boa a troca.

O Núcleo mais me parece como uma família que se dá bem e na qual todos os membros têm um objetivo comum, querem algo parecido. O que numa família é utópico e praticamente impossível, se revela aqui como tentativa incansável de produzir arte contemporânea de maneira digna, num estado brasileiro em que o indíce de desenvolvimento humano é um dos mais baixos do país. As idades são distintas, as aproximações também, mas a vontade e a necessidade de reconhecimento do trabalho árduo é uma constante.

Mas, ao final de tanta linha…quem sou eu e o que eu quero aqui em Teresina, no Dirceu, no Núcleo? (Elielson, faço aqui minhas as tuas perguntas!)

Eu trabalho com dança, e em coletivo. Eu e o Bauchladen Monopol, o monopólio dos tabuleiros.  No momento estou finalizando meu mestrado em Estudos da Performance na Universidade de Hamburgo.

Por caminhos certos e incertos – coincidências ou acasos, como queiram! -  ouvi muito falar sobre o tal Núcleo do Dirceu. Pesquisei, perguntei a outros, tentei me aproximar do que não sabia mas desejava saber.  Fui me interessando mais e mais pelo trabalho, pela maneira de organização e produção, pela criação e pelo convívio deste grupo de artistas.

Então me auto-convidei para passar um tempo com os núcleo-dirceuenses, com o intuito de conviver, fazer mais e mais perguntas, observar e participar, compreender este mecanismo que faz com que eles fiquem juntos e, mais importante, criem e tentem compreender seus fazeres juntos.

E desejo encontrar uma maneira de rabiscar uma ecologia de saberes, como diz Boaventura de Souza Santos: dos saberes do Núcleo com saberes científicos que vêm me ocupando (estudos culturais, performáticos, pós-coloniais), dos saberes de coletividade e criação em arte no Dirceu e das minhas experiências, da maneira como Marcelo Evelin é mestre com os desejos expressos n’O Mestre Ignorante, de Rancière.

Tudo ainda meio enevoado, tudo a se desenvolver na performatividade do nosso encontro e da minha escrita. Mas com muita vontade de compreender.

E vida longa ao Núcleo!!!



Compartilhe:





Você também pode gostar de:


3 Comentários

  1. cleber moura fe disse:
    3 de março de 2011 em 22:37

    Repito: Vida Longa ao Núcleo!


    Responder
  2. cleyde silva disse:
    18 de março de 2011 em 12:35

    Que texto lindo Rossi, quando vi esse texto achei super grande depois me deixei levar e quando vi já tinha acabado já sinto vontade de ler mais e mais, e tudo que você escreveu me fez me conhecer e nos conhecer…obrigada por estar aqui com a gente e por treinar breaking haha vida longa ao Bomber Crew também.


    Responder
  3. Regina, a Rossi disse:
    21 de março de 2011 em 13:25

    Eita Cleydinha!
    O prazer foi meu!!!
    E temos que seguir com este contato, com esta contaminação, estes afetos!!!!


    Responder

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*


7 − 6 =

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Quem Somos:

Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

Categorias

Comentários

  • Elielson Pacheco: Me sinto meio idiota no momento. E fico pensando qual é o ponto do desmoronamento que tem que ir...
  • César Costa: Marcelo, concordo contigo quando diz que só o fato de ser artista já não te coloca como medíocre. Se...
  • Danielle: Não dá pra não fazer conexões entre as coisas ditas, ouvidas, feitas, vistas e acontecidas. Acho que não...
  • weyla: Hoje conversando com minha avó ela me disse que não queria mais comprar roupas porque tava perto de...
  • elielson: de comer e se comer sim. opa!

arquivo