Insustentável leveza da dança
Curador deste ano do festival recifense defende que praticamente tudo cabe no contemporâneo
Depois de 23 anos na Europa e Estados Unidos, dançando em Paris, Nova York, Barcelona e, principalmente, Amsterdam, onde é professor da escola superior de artes, nos departamentos de mímica e dança moderna, o piauiense Marcelo Evelin, 46 anos, decidiu que era a hora de voltar às suas raízes. Trazia na bagagem conquistas como a de ter sido estagiário da companhia de Pina Bausch, na Alemanha, antes de se lançar como coreógrafo, tendo dirigido a companhia Demolition, com a qual montou mais de 25 espetáculos. Em Teresina, num dos bairros mais carentes da periferia da cidade, o bailarino, coreógrafo, pesquisador e professor de improvisação e composição assumiu a gestão do Teatro João Paulo II e fundou – há dois anos – o Centro e Núcleo de Criação do Dirceu, plataforma que reúne jovens artistas para pesquisar as artes cênicas contemporâneas. Essa vasta experiência com o universo cênico, Evelin resolveu canalizar para pensar a dança de outras maneiras. Aceitou o convite e é o responsável pela curadoria do Festival Internacional de Dança do Recife, em sua 13ª edição. “A dança, e o corpo, são o meio mais propício para se falar do humano hoje, por ser algo poroso, mutável. As informações se constróem no corpo”, aponta. (Tatiana Meira)
Entrevista // Marcelo Evelin
“O Nordeste precisa reforçar a ponte entre os estados”
Por quê você aceitou, pela primeira vez, o desafio de encarar o papel de curador?
Na Europa, as pessoas estudam quatro, cinco anos antes de se tornar um curador. Fiquei em dúvida, mas se puder ajudar a dança brasileira, alavancar, desestabilizar, provocar, eu vou tentar. Não de modo anárquico ou irresponsável, mas reconhecendo as coisas num fluxo inerente a todos. A dança brasileira precisa de artistas que estejam discutindo, participando das decisões. Conheci Arnaldo Siqueira (coordenador do festival) no Rumos Dança, do Itaú Cultural, em São Paulo, no ano passado, quando coordenei uma oficina junto com Vera Sala e Adriana Faria. Sinto que o Nordeste precisa reforçar esta ponte entre os estados, tornar mais eficiente o diálogo Recife-Teresina, fazer ações pensando este conceito do Nordeste. Vivi os dois lados da moeda, de intérprete-criador e da gestão pública. Pensei em contribuir com este olhar de quem vem de fora e se distancia. Reconhece mais facilmente as possibilidades e desvantagens da política cultural no Brasil.
Como foi este processo da curadoria para você?
A dificuldade foi enorme. Não sei se faço isso de novo na vida, pois é muito difícil escolher sem excluir. Vi 100 vídeos para escolher as atrações nacionais. Os internacionais são decisões compartilhadas pelo Circuito Brasileiro de Festivais Internacionais de Dança. Pensei em vir antes ao Recife, me apresentar para a classe de dança e a imprensa, mas não deu tempo. A maioria dos espetáculos não pude ver pessoalmente, o que é uma dificuldade a mais, pois nos vídeos não há a presença do público, o contexto, em que teatro, cidade, região do país, e são pontos que contam. Mas pedi aconselhamento e informações a pessoas em que confiava, antes de tomar as decisões. Fiquei algumas noites sem dormir antes de decidir.
Qual a temática específica delineada para o Festival de Dança este ano?
Fizemos a opção por não ter um tema tão delimitado, pois o ponto principal é o criador e o que ele tem a dizer através de suas obras. Como ele fala e interage com o mundo contemporâneo. O encontro destas obras com o público é que vai dizer se foi o melhor caminho. Incluir certos grupos ou artistas no festival é motivá-los a crescer, é colocá-los para se expor na frente de curadores, programadores, diretores, outros bailarinos.
Afinal, este é um festival de dança contemporânea? Ou não?
Existe uma incompreensão sobre o que é dança contemporânea. É um pequeno equívoco, pois as pessoas encaram como um estilo, igual ao jazz ou a dança folclórica. Mas o contemporâneo é a dança de hoje, num mundo conectado, dominado pela tecnologia. É qualquer dança que realmente discute questões atuais, sobre forma e conteúdo, de Recife, Helsinki (Finlândia) e Havana. Poderia ser o palco nu, o corpo nu, sem música, alguém usando uma fita crepe. Mas são apenas pontos de contato, não existe um menu definido. A dança contemporânea se caracteriza pela instabilidade, simultaneidade de ações em diferentes camadas, a quebra de normas e regras, a discussão das próprias referências. É a percepção deum mundo onde tudo acontece muito rápido. Onde dirigimos, tomamos uma Coca-cola e falamos ao celular ao mesmo tempo.
A programação planejada para o Nascedouro de Peixinhos e o Teatro Barreto Júnior ficou de fora este ano. O que aconteceu?
Elas foram cortadas por problemas de verbas. Alguns grupos até já haviam sido contactados. Precisamos encarar que o Brasil é assim, mas não adianta estigmatizar o Nordeste só como o lugar de verba insuficiente, de estouro no orçamento. Precisamos lidar de maneira coerente e honesta com estas dificuldades.
Como foi o critério para ocupação dos quatro teatros que abrigam a programação?
Fizemos a logística de modo que tivéssemos uma programação enxuta, com um grupo internacional e outro do Recife em cada teatro. Mas o mérito desta decisão de desierarquizar os espaços é de Arnaldo (Siqueira, coordenador do festival).
Qual a principal semente que o festival deixa para os artistas da cidade?
Vejo o evento de maneira bastante positiva e o Recife está de parabéns, pois é um ganho para a classe artística sediar um festival nestes moldes. O que fica são as parcerias e intercâmbios travados durante estes dez dias. Em 2009, por exemplo, está sendo organizado por Valéria Vicente e Marcelo Sena um encontro de coletivos, aqui no Recife. No Piauí, percebo que é mais fácil trazer os artistas internacionais, mas estamos nos estruturando para receber os do Nordeste também. No Núcleo do Dirceu, convidamos cerca de 15 artistas internacionais e acabamos de receber o Rafael Alvarez, através do Instituto Camões, de Portugal.
http://www.diariodepernambuco.com.br/2008/10/17/viver1_0.asp