Dirceu e a santíssima trindade: mídia, dinheiro e religião

Por: às 18/09/2011 01:44:06

De formas diversas e inusitadas essa santíssima trindade se faz presente em quase todos os lugares onde tenho estado no Dirceu e parecem ocupar um lugar importante na subjetividade.

Nas lojas de 1,99 estão nas prateleiras todo o tipo de coisas de plástico ao lado de imagens religiosas e seus efeitos luminosos de quinta categoria, ambas se confundem: coloridas baratas e vagabundas o quanto podem. Na rua quando vejo quadros à venda por 3 reais, expostos em um barbante, há quase sempre o Justin Bieber, o Restart, uma paisagem que ningém sabe de onde e Jesus cristo crucificado.

As muitas igrejas que se multiplicam estão sempre lotadas de flores de plástico coloridas prontas para abrigar o pastor que com seu microfone parece mais um pop star performando calorosamente, suando em bicas dentro do seu respeitável terno preto. Tem uma na Joaquim Nelson que diz na entrada: Show da fé; olhando mais ao fundo dessa mesma igreja consigo ver uma caixa grande que diz: show do dízimo.

Quando Jana e eu começamos a fazer a ação da Quadra (ver post nesse link: http://nucleododirceu.com.br/quadra-um-diario-do-percurso-das-tres-primeiras-semanas/) não nos interessava ter um discurso pronto e construído pra levar para a rua, queríamos mais encontrar um ponto de partida pra uma conversa,  uma espécie de conversa que pudesse acontecer a partir da subjetividade e de uma prática simbólica que não é a da funcionalidade (eu falo pra ser entendido…).

Nos interessava também a idéia de que o estúdio, ou o lugar de trabalho que cabe ao artista, com todas as suas  fragilidades, pudesse ser transformado em um lugar público e que as distâncias entre treinamento e espetáculo pudessem ser diminuídas ou reconsideradas.

O nosso ponto de partida ou a nossa forma de “puxar assunto” com essas pessoas foi caminhar em volta do Armazém Paraíba (a loja de departamento mais famosa da cidade) que estabelece a relação capitalista de trabalho mais clássica (testar até as últimas consequências o quanto seus funcionários podem parecer uma máquina). Caminhamos ao redor dessa quadra usando uma cabeçada (máscara utilizada pra restringir a visão dos cavalos).

Desde então aconteceram 30 dias de comunicação intensa onde a cada dia buscávamos responder artisticamente o que nos era dito de muitas maneiras.  Ao final dessa “conversa” intensa e inesperada para todos, com polícia, televisão, violências, celulares, ameaças, medo e riso podemos olhar pra trás e perceber sem medo a presença avassaladora da diviníssima tríade tão importante nesse bairro: dinheiro, religião e mídia.

A nossa figura se tornou algo entre bruxaria, macumba, assombração e celebridade instantânea. Duas mulheres (irmãs talvez) que para qualquer pergunta (qualquer tentativa de entendimento lógico pela fala) davam apenas uma resposta: a palavra dinheiro. Essa resposta que pretendia significar tudo acabava não prestando ao serviço da funcionalidade e se fazia no final das contas completamente ilógica, quase surreal.

Hoje, mais de três meses depois, quando chegamos a essa quadra podemos sentir o espaço se transformar e sinto que de alguma forma a nossa presença, assim sem nem fazer nada especialmente, trás a colocação dessa santíssima trindade de uma maneira incorporada.

A importância de ter estabelecido essa “conversa” de uma forma subjetiva e simbólica é muito clara e sobre isso é preciso escrever com mais detalhes em outro momento, foi  uma forma de comunicação potente e especial que nunca tinha experimentado antes.

No entanto agora sentimos uma necessidade enorme de voltar nessas casas, vinculando esse projeto ao 1000 casas, desmistificar o que aconteceu e dizer simplesmente que somos artistas. Olhar para trás agora com essa perspectiva. Pensamos e trabalhamos muito coletivamente no 1000 casas sobre essa possibilidade.

A mesma santíssima trindade já  se fez presente nas casas do Dirceu muitas vezes e de alguma maneira nos faz acessar a subjetividade dessas pessoas. Nunca pude esquecer dos dois quadros imensos que dividiam o espaço nobre da casa da dona Josefa: Jesus Cristo e Carolina Ferraz vendendo uma marca de xampoo, lado a lado sem nenhuma diferença estética colocada ou de importância.

Estamos estudando algumas possibilidades de ação para essas séries de casas ao redor do Armazém Paraíba. Na primeira casa construímos com objetos nossos e da casa uma imagem icônica de um “santo capitalista” Esse Santo Capitalista encarnado por mim e Jana é uma espécie de monstro carregado de objetos baratos e coloridos, tem a cara da senhora da moeda de 50 reais e estabelece seu altar perto da tv.

Seguimos trabalhando.



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1 Comentário

  1. L.H. disse:
    18 de setembro de 2011 em 11:49

    Acho a casa da Dona Josefina um “achado”nesse lugar imenso… os potes de activia, a nossa senhora carolina ferraz.. putz! E consigo perceber que pode rolar sim Jú, uma conexao aí com a ação da quadra. Pra mim fia claro que ela, a ação no Paraíba, foi um ponto de partida, um start. E que depois foi tomando corpo, exigindo de voces uma articulação desse material. Sabe quando a “coisa em si” começa a pedir da gente? É como se tivesse tudo aí, e agora voces precisassem apenas “dar a ver” … Isso é muito bom.


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Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

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