documentabilidade :: exercícios.

Por: às 17/05/2011 14:23:33

#1 uma ação simples>   fotografar o banner gigante no chão e  encontrar outras palavras, a partir das que já estão lá.

#2 para este procedimento, o quê me ocupa?  o quê  eu percebo ao meu redor,   o que me atravessa como assunto?  > ok, eu estou num estúdio (galpão) e as pessoas estão perfomando, fazendo coisas.  Isto é o mais imediato. Então com essas fotos vou criar um bilhete-recado, que é um discurso sobre o que estou vendo, sobre o que atravessa meu umwelt.

Esse foi um dos experimentos  da semana passada. Mas o que torna “esse resultado” enigmático, fechado? Quando o mostrei para algumas pessoas, essa foi a sensação predominante. Mais do que julgar “resultados”, estou tentando levantar possibilidades,  estudar, experimentar.

Então listei:  talvez  seja enigmático porque  o assunto-discurso ainda esteja  muito interno, numa categoria “em que uma página de caderno de ensaio pode interessar a alguém?” . Talvez  porque a disposição visual, a organização, o fundo preto,  tornem a coisa dura, dificil de entrar, asséptica, linear, como frames estáticos, nada emocional.  Talvez  porque as imagens na verdade funcionem aqui como escrita,  como se eu tivesse usado o word  para fazer um código, uma mensagem criptografada, o que exige do receptor um esforço em “an, o que isso significa?”,  ou “isso me diz respeito?”. Talvez porque ainda esteja num nível de “hmmm….que interessante, legal, mas e daí, pra onde isso me leva?”. Enfim, além dessas, podem existir  outros aspectos que não me dou conta agora, mas  que tornam esse experimento simples  levemente desinteressante.

Sim,  mas qual é o ponto? Bem,  esse,  e outros exercícios com imagem que tenho feito, tem me trazido como desafio:   “adotar um procedimento que seja ele mesmo a coisa em si? “.  A exemplo de uma ação que em sua natureza já possua uma dramaturgia muito clara, onde o discurso está ali em si  (forma + conteúdo together).  Uma ação que não seja  necessariamente  um comentário SOBRE algo,  ela já é ALGO em sim. E por isso mesmo é aberta, te dá entrada.  

Na maneira como  eu vinha fazendo espetáculo, procedimentos eram ferramentas que me levavam a um lugar. Estratégias que me ajudavam de certa forma  a aprofundar  minha “questão-assunto” e por isso mesmo estariam relacionados  aquilo que eu queria tratar.  Procedimento é como se fosse uma maneira de SE CHEGAR A… ou  SE CHEGAR EM…. Nesse sentido, eles me ajudavam a tornar mais claro um PRÉ, isto é, um interesse que já me ocupava.

Mas e quando não existe esse pré? E quando o imput é apenas uma vontade de experimentar algo, sem um motivo aparente, uma razão plausível, quando é só uma maneira de colocar-se em movimento?  Quando tudo que existe é apenas o impulso para acionar um tipo de sistema? Por exemplo, olho pro chão, penso vou fotografar palavras reconheciveis num tapete-banner. Então, o que acontece quando não existe um antes incrivel, originaaaal…..nem uma (Óó) questão relevante, quando você nem sabe o que vai  fazer com isso depois? Quando você esta vazio.  É  tudo que você tem é só, só mesmo, um procedimento.

Bem, aí é que tá, nesse caso,  minhas experiências tem me demonstrado, que mesmo gerando um discurso (sempre se gera né), ele provavelmente vai ser mais  “interno”.  Quase um resultado aleatório, que essencialmente me diz respeito, porque, nesse caso, o procedimento  adotado é uma espécie de metodologia para um desejo meu. Um desejo que nem é uma coisa tangível, dizível, elaborada. Esse desejo é quase uma ação solitária ( que eu não confundo com autosuficiente*) que  não que  não consigo sequer compartilhar ainda. É apenas uma vontade  de ir lá e fotograr e ninguém tem nada “que ver com isso”.  (ui! risco!)

————————————

[PAUSA:] Eu desconfio da autosuficiencia*. Não porque ela é uma escolha equivocada, politicamente contrária aos meus valores, ou menos potente para um artista e não faz sentido numa organização coletiva. Eu desconfio porque não conheço exemplos de autosuficiência na nossa espécie, a dos humanos (não a dos artistas).  Psicopatas ou harckers  que atuam ( +- ) numa lógica de anonimato solitária, são os seres mais sociais que existem.  E até mesmo as amebas criaturas de uma única célula, são parasitas.  Segundo o google, os  únicos seres autótrofos, capazes de sintetizar seu próprio alimento e por essa razão, de certa forma autosuficientes, são alguns tipos de protozoários, algas e plantas. Mas ainda assim tem o sol.  Então, é simples. Se você não é grama, é sujeito, vai ser impossível  não ser atravessado, pelo outro, pelo mundo, pelo contexto. Agora, como, e o quê você faz a partir daí….bem isso seria um outro post. Logo por razões cientificas eu nao acredito em autosuficiencia, , mas por razões beeem pessoais, eu lido bem com uma postura autonôma, onde você quer fazer algo sozinho, desde que ela seja permeável em algum nível. Apesar de entender e concordar que faz mais sentido nesse planeta, assim como na natureza, a gente SER junto, com e a partir do outro. [FIM DA PAUSA].———————-

Voltando ao procedimentos que estão na categoria do “é apenas uma vontade  de ir lá  fotograr e ninguém tem nada que ver com isso”.

O que tenho experimentado, nesse lugar,  é que sozinho é sempre mais dificil. E que, nesse caso, onde eu parto de um desejo não muito claro e só aplico um procedimento, pro resultado disso me levar (e levar alguém) para um “outro lugar”  inevitalmente precisarei de um PÓS. Esse PÓS  é a maneira como eu vou compartilhar isso, e ele ganha uma dimensão maior já que eu nao tinha um PRÉ muito claro.  Então, eu  vou precisar editar, construir, compor, etc. a partir desse resultado aleatório.  Esse pós vai ser mais do que uma colocação só minha – como foi quando eu fui lá fazer a ação –   esse pós é um conjunto de escolhas que incluem também o outro ( ou os outros), e é nele onde eu vou construindo  outras conexões possíveis.  Por exemplo, é assim no Big Brother, onde a edição é o sentido que se quer dar ao programa,  a edição das imagens é que na verdade é a obra reality show. Tipo no cinema, onde você faz um documentário a partir de imagens que as vezes nem são suas, ou de frames que você foi colecionando nos ultimos  cinco anos em viagens pelo mundo, sem uma razão ainda aparente.

Tem me dado uma agonia ultimamente, essa espécie de obsessão por procedimentos como principal modus operandi. E eu estou aí nesse lugar. É uma constatação-desabafo. As vezes me parece que “ser artista nos tempos atuais” é  colecionar estratégias e ferramentas ultra in, mesmo que não se tenha a  vontade, o desejo do que se quer construir. Eu tô doida, ou parece que a falta de clareza não é só uma complicação, mas antes uma lacuna? Eu tô doida, ou as vezes simplesmente falta uma necessidade, um PRÉ que nos ocupe,  nos preencha, nos consuma?.  Eu acho que eu tô mesmo mesmo destreinada é de sonhar. As vezes eu me pergunto, quão aniquilador  é…. saber que nem a arte, nem a vida tem mesmo sentido e que “tudo pode”. Parece que ao invés de ser libertador “tudo pode” é tão amplo que te  imobiliza. Então, eu as vezes acho que eu (e um monte de gente) acabo imersa numa lógica de produção que é: Layane encontre um método, um sistema, uma técnica, um negócio, que lhe coloque FAZENDO algo. E esse é o modus operandi  procedimento. E essa vai ser uma maneira de convencer a si mesmo que  você ainda nao morreu.  Exagero? Tá, ok. Talvez.

Paradoxalmente, vez ou outra me deparo com ações que  parecem vir  aí desse lugar. Onde, me parece, que  a pessoa encontra uma estratégia de convencer a si mesmo que ainda não morreu. Onde ela só precisa resignificar, mesmo que só pra ela, a realidade, o que a circunda.   Onde ela precisa encontrar outras possibilidades de real e faz aquilo sem muitos julgamentos, razões aparentes, implicações politícas….argumentos convicentes. Elas simplesmente descomplicadamente fazem, mesmo que isso pareça ingênuo, banal.  Talvez por isso,  esses procedimentos são tão claros e precisos,  são em si um discurso aberto  e potente. E o melhor, as vezes nem são geniais, são ultra simples.

É isso que tem me ocupado estes dias.  É nesta direção que está o meu interesse no Mil Casas numa natureza de documentabilidade e ação.   Todas as vezes que tento explicar isso falando,  isso não parece muito coerente.  O fato é que para além das  maneiras de se registrar algo (como categorias tipo foto, video, entrevista, etc. ) eu já entendi que existem ações e prodecimentos que são dessa  outra natureza. Eles não são sobre algo. Eles são em si uma necessidade do artista (sempre é)….. e de inicio são só isso. Ui!  Me explico?  Vamos a um exemplo que  fica mais fácil.  O Brock Davis é um fotográfo que fez  um projeto chamado Make Something Cool Every Day 2009, onde ele durante 365 dias se propôs a lançar um olhar diferente sobre coisas que ele sempre via, que estavam lá no cotidiano dele.

Outro procedimento que também é próximo dessa natureza é o da Natsumi Hayashi faz auto-retratos onde ela levita por diversos lugares de Tóquio. E faz com isso uma espécie de diário. São dois exemplos próximos em termos de formato, fotos numa lógica de diário, passagem do tempo, etc. Nos dois os artistas se colocam em ação, dentro da coisa.  Mas de alguma maneira o primeiro, o tal cara que fotografa seu cotidiano e os objetos que o cercam, não é um trabalho de/em performance. Essencialmente é um procedimento  para uma mídia específica, a fotografia. É a apartir da imagem que ele   se comunica.

No  caso da Natsumi, a japa, mesmo tendo a fotografia como suporte ela se coloca em ação, e algo acontece entre ela e o espaço, e as pessoas . Então existe nesse procedimento um cárater perfomático diferente do primeiro projeto.  Mas o que existe em comum entre eles é essa natureza, onde o procedimento é a coisa em si. Ele não é necessariamente SOBRE algo. Quando penso na documentabilidade do MIl Casas imagino assim, com essa natureza, com esse cárater. Mas isso talvez seja uma projeção minha.

Eu tenho pensando em como instaurar meus desejos no Mil Casas. Porque eles estão cada vez mais  alocados nas extensões do meu corpo (minha camera, meu celular, meu computador).  No último espetáculo que fiz, eu ainda não consegui instaurar esses desejos,  porque de alguma maneira  o contexto, a obra, a coisa toda não tornou possível, não gerou fricção. Tenho me ocupado em como instaurar meus desejos  agora nesse projeto Mil Casas, e como isso pode se cruzar  com um  plano piloto, com um diretor/coordenador, com um formato, com três eixos.  E estou tranquila com a troca da palavra deSISTIR por inSISTIR.

Mas e afinal, depois de colocado o que tem me ocupado, a   pergunta do dia não seria:  ok tá Layane, tá claro com o quê você está busy, mas e o que você está fazendo a apartir disso? an?



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1 Comentário

  1. elielson disse:
    22 de maio de 2011 em 19:05

    caaaaat question na área!

    mulher, uma casca de banana quebrada como se fosse um objeto de vidro, um urso de plástico com feição de gente num filme de terror, facas amarradas com um fio vermelho-sangue, linhas de um caderno que tomam vida própria… os objetos ganhando vida e o que é vida se transformando em objeto…

    uma gata levitando nas ruas do Japão enquanto as pessoas caminham nas calçadas, levitando num lugar onde as motos estão estacionadas com um mosaico de flores ao fundo, num beco escrito love e não 愛, num mapa mostrando os caminhos da cidade enquanto uma criança acena imediatamente no instante da foto, num, num, num, in, where, lugar, quais os lugares que tu levitaria hein lay??? eles seriam em Teresina?? eles “transformariam” teresina em outro lugar?? eles seriam numa praia?? em berlim? são paulo? tókyo? florianópolis? numa fazenda? no teu quarto? nas hortas em frente da tua casa onde crescem todos, todos os dias móis de cheiro verde??… que coisas são gente pra ti? palavras, caracters numa tela, cartas que tu recebe de alguém que tu ao menos conhece? que pessoas são coisas pra ti??? se tu puder, me transforma num bombom de limão, com a cabeça saindo pra fora…

    Bjus


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Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

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  • Elielson Pacheco: Me sinto meio idiota no momento. E fico pensando qual é o ponto do desmoronamento que tem que ir...
  • César Costa: Marcelo, concordo contigo quando diz que só o fato de ser artista já não te coloca como medíocre. Se...
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