não é só 1, mas 1000 casas…e não tão somente 1000, é 1+1+1…até chegar a 1000. Começo a pensar sobre esse 1 que vamos encontrar no 1000casas.
224258_1962683942884_1116392793_32239842_7824591_n.jpg
“Eu sou mil possíveis em mim; mas não posso me resignar a querer apenas um deles” (R. Bastide)
Alteridade (ou outridade) é a concepção que parte do pressuposto básico de que todo o homem social interage e interdepende de outros indivíduos. Assim, como muitos antropólogos e cientistas sociais afirmam, a existência do “eu-individual” só é permitida mediante um contato com o outro (que em uma visão expandida se torna o Outro – a própria sociedade diferente do indivíduo).
Dessa forma eu apenas existo a partir do outro, da visão do outro, o que me permite também compreender o mundo a partir de um olhar diferenciado, partindo tanto do diferente quanto de mim mesmo, sensibilizado que estou pela experiência do contato.
A palavra alteridade possui o significado de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal, com consideração, valorização, identificação e dialogar com o outro.
A pratica da alteridade se conecta aos relacionamentos tanto entre indivíduos como entre grupos culturais religiosos, científicos, étnicos, etc.
Na relação alteritária, está sempre presente os fenômenos holísticos da complementaridade e da interdependência, no modo de pensar, de sentir e de agir, onde o nicho ecológico, as experiências particulares são preservadas e consideradas, sem que haja a preocupação com a sobreposição, assimilação ou destruição destas.
http://nucleododirceu.com.br/wp-content/uploads/2011/03/DSC07365-640×480.jpg
Estou em um momento que cada vez mais concentro-me sobre esse 1/individuo/casa.
O que pode ser gerado do momento, de compartilhar(ou não) deste ambiente que chamamos muitas vezes de lar?… construções, relações afetivas e sociais de vários níveis,eu-individual, formas particulares de organização. Entrando pra fora, saindo pra dentro. Esse transito estimula a visão de(o) um sobre o outro.
A “noção de outro ressalta que a diferença constitui a vida social, à medida que esta efetiva-se através das dinâmicas das relações sociais. Assim sendo, a diferença é, simultaneamente, a base da vida social e fonte permanente de tensão e conflito” (G. Velho, 1996:10)
“A experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) leva-nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar, dada a nossa dificuldade em fixar nossa atenção no que nos é habitual, familiar, cotidiano, e que consideramos ‘evidente’. Aos poucos, notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos, mímicas, posturas, reações afetivas) não tem realmente nada de ‘natural’. Começamos, então, a nos surpreender com aquilo que diz respeito a nós mesmos, a nos espiar. O conhecimento (antropólogico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única.” (F. Laplantine, 2000:21)
O homem nunca parou de interrogar-se sobre si mesmo. Em todas as sociedades existiram homens que observavam homens. Houve até alguns que eram teóricos e forjaram, como diz Lévi-Strauss, modelos elaborados “em casa”. (F. Laplantine,)
Como encontrar o lugar dessa câmera? o instrumento de captação de imagens que estará ali na casa, deslocando-os do comum, criando estados por si só…
Durante os processos de investigação encontrei na câmera escondida uma referencia, mas somente referencia. Estou trabalhando uma câmera insistente, disposta em um lugar comum ou particular; disposta a trazer/provocar uma banalidade da atenção/interpretação do olhar que passa. Ela não se esconde, ela é insistente, e de tanto ser perde o foco, foge do olhar, da percepção do outro. Como os pastores que sopram aos berros o tal caminho da salvação em paradas de onibus ou os malabaristas do sinal vermelho.
A proposta é entrar em 5 casas, 1 depois outra até chegar em 5. A câmera vai atuar nesse espaço captando os movimentos/roteiros caseiros. É necessária uma visão ampla do espaço, a possibilidade da criação de camadas nos planos. Penso que a ação na outra casa(2) deve manter relação/comunicação com a primeira, e assim todas. Na montagem essa continuidade espacial será a “liga” de ajuntamento para montar os pedaços de 5 casas em 1. Para critério de escolha das casas/indivíduos, penso em utilizar a “diferença”.
http://nucleododirceu.com.br/wp-content/uploads/2011/03/DSC07508-640×480.jpg
“Tolerar a existência do outro,
E permitir que ele seja diferente,
Ainda é muito pouco.
Quando se tolera,
Apenas se concede
E essa não é uma relação de igualdade,
Mas de superioridade de um sobre o outro.
Deveríamos criar uma relação entre as pessoas,
Da qual estivessem excluídas
A tolerância e a intolerância.”
(José Saramago)
Fotos: Lay Holanda