Ele dança, ela escreve, ele lê, ele dança.

Por: às 13/06/2008 21:28:00


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A idéia começou como um projeto em que eu tentaria mapear os diálogos corporais de um corpo que dança. Isso seria feito em duas etapas, a primeira com o César dançando e eu escrevendo e a segunda ele lendo o texto produzido pela dança dele e dançando novamente. 10 dias pra cada etapa. Chamei essa leitura/escrita de transcrição metalinguística, porque me vem uma idéia de infinito das duas coisas entrelaçadas. Ele escreve, eu danço, eu leio, eu escrevo, ele dança, ele lê…
Eu não sabia como ia ser, fiz algumas experiências pra ver que tipo de linguagem sairia disso. Testei com o Fábio, com o Elielson e com o César. Com o Fábio enquanto ele tava se aquecendo antes de trabalhar com o Fausto. Foi diferente porque foram as três primeiras tentativas, foi bom pra perceber logo de cara o que não funcionava em relação à linguagem.
Com o Elielson também foi interessante. Em vários sentidos. O Elielson dançou improvisando pra mim durante 40 minutos no estúdio. A sala tem janela, entra sol, tinha cadeiras espalhadas pelo espaço e ele ainda pegou o mp3 dele pra ouvir música, saiu da sala pela janela, enfim, muita coisa dialogando junto com o corpo. O texto ficou um pouco confuso, ele disse que não conseguia se concentrar muito bem, mas muita coisa funcionou dentro do texto. Depois disso achei melhor trabalhar só mesmo com o corpo no espaço, sem outras coisas.

O César dançou pra mim durante 15 minutos e a gente produziu esse texto:

Meu pé me diz que quer sair, voar, cair. Minhas veias eufóricas levantam meu braço e gritam que ele caia também. Meu corpo gosta de refletir nos meios tempos. Meu peito calado e indeciso se isola em pensamentos baixos. A cabeça sustenta todo o corpo e pede que as mãos a ajudem na tarefa de deixar que os pés conversem voando.

- Não! – diz o peito.

Meu braço direito contraria toas as palavras, mas depois fala com o braço esquerdo e decidem seguir a idéia da cabeça, mas sem chamá-la.Agora pés e mãos querem que a cabeça volte pro chão, mas ela não quer e dá uma pirueta no ar e os pés tentam voar novamente para alcançá-la, impedi-la, mas não podem.Os pés pensam enquanto escutam o resto do corpo. Pensam, pensam, segurando o corpo inteiro e então dão a volta ao mundo e jogam tudo no chão, pedindo silêncio. E na inércia do resto do corpo, boca e garganta anunciam: the show is over.
Depois desse eu e o César começamos a trabalhar e até agora fizemos 7 vezes a primeira etapa. O Fábio tá orientando a gente, lendo os textos, conversando, criticando, instigando… A gente pensou nessa coisa de exaustão por dar mais liberdade pro corpo conversar sem julgamentos. Também me vieram questões sobre a minha leitura, me perguntei se realmente o pé sempre falava tanto ou se era eu que tava focando minha observação no pé e esquecendo de olhar pro resto do corpo. Também tive que tomar cuidado com metáforas fora do conceito, fantasias, pessoalidade, desejos e boicote à realidade, poesia demais, essas coisas.
O Fábio assistiu a gente hoje e ajudou muito. A tática agora tá sendo uma corrida, eu cuspindo palavras, correndo atrás do César pra botar pra fora o que ele tá dizendo e ele correndo pra me desafiar a escrever. Gostei muito. A idéia de fazer sem julgamentos, sem desejos, escrevendo sem parar e não me deixando parar é bem mais produtiva, provocadora, não me dá espaço pra inventar e torna tudo bem gostosinho!!! Gostosinho de verdade…

É isso! Sábado, dia 21.

Arianne Pirajá.



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Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

Comentários

  • ju: Muito bonito! Tem muito caldo nessa idéia de baiar e exceder a individualidade a partir de um ambiente gerado por...
  • Kayoo': Muito Bom Muito Lindo e Muito “Estigador “
  • Layane Holanda: pois é tem um tom meio “bacaninha” mas sabia que eu gosto da cara de pau, é meio...
  • L.H.: que lindasssssss……so peguei os vestigios, comentários e impressoes da tarde. Que lindo o...
  • Jell: o massa é que tem imagens que acho que por si só já me abrem outras imagens dentro delas(mesmo sem manipular no...

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