Após um bom número de anos assistindo performances e freqüentando festivais no Brasil e na Europa, notei tendências e “clichês” que contribuem para a má performance. Estes clichês são convenções antigas que ainda são usadas porque, aparentemente, tornam o trabalho “mais artístico”. Acredito, entretanto, que são esses clichês que fazem com que muito da arte contemporânea tenha má fama. Assim, listo abaixo 20 itens que os artistas deveriam evitar enquanto criando ou apresentando seus trabalhos de dança, performance ou teatro.
Permitam-se nomear estes 20 itens de Escala SEABRA para dança, performances e teatro de má qualidade:
1• Looping. Não faça looping de sons ou imagens. O uso contínuo das teclas Control C e Control V no seu computador reflete preguiça e serve a artistas que não estão interessados em gastar seu tempo criando trihas sonoras ou vídeos adequados. Além disso, é tããããão anos oitenta…
2• Dois atores ou performers jamais deverão dizer diferentes textos ao mesmo tempo. Esta é uma convenção que teve seu início no Dadaismo. Só porque as pessoas não conseguem entender o que você diz não significa que seja arte.
3• Nenhum olhar distante, perdido ou blasé, especialmente enquanto caminhando em linha reta.
4• Este é para dançarinos: Não usar o movimento calcanhar-dedão-calcanhar-dedão lateralmente e não dobrar os braços para baixo na altura dos cotovelos. Em outras palavras, nada de movimentações típicas da dança contemporânea; não imitem os dançarinos anos 70 da Judson Church.
5• Sem artifícios. Não aja de maneira obscura nem tente “artificializar” um conceito. Se você tiver algo a dizer, apenas diga. A clareza também pode ser artística.
6• Nenhum “momento água”. Por favor, não derrame água, nem em você nem em outro artista.
7• Por favor, não alinhe objetos em cena, por qualquer motivo.
8• Esta é para brasileiros: nenhum momento Clarice Lispector. Por favor, não puxe um livro de Clarice Lispector pra fora do bolso e comece a ler (especialmente se alguém estiver derramando água em você).
9• Nenhuma atuação exagerada ou em alto volume. Menos.
10• Não crie uma “peça para ator”. Em outras palavras, não crie uma peça na qual um ator (ou atriz, ou dançarino/a, ou performer) possa exibir suas múltiplas habilidades.
11• Esta é para europeus: chega de tentar chocar suas platéias o tempo todo.
12• Esta TAMBÉM é para europeus: poupe-nos de suas crises de identidade.
13• Esta é para dançarinos brasileiros: não importem a crise de identidade européia.
Brasileiros não estão em crise de identidade.
14• Esta é para asiáticos: sem raios laser no palco, por favor.
15• Esta é para americanos: se você precisa fazer crescer seu personagem ou desenvolver sua história, por favor não os envolva em um acidente de carro ou um diagnóstico de câncer. Existem outras maneiras de desenvolver uma história.
16• Nenhuma porcaria MIDI. Não designe sons digitais a corpos celestiais ou objetos inanimados. MIDI é um brinquedinho desinteressante. (E é também tãããããão anos 80).
17• Nenhuma trilha sonora com ruídos eletrônicos…o mundo já é suficientemente barulhento.
18• Abster-se de usar composições dodecafônicas dos anos 20. Usar esse tipo de coisa na sua peça não transforma você em moderno. Faz com que você fique moderne (com sotaque francês).
19• Não usar referências à Commedia dell´Arte. Hellooo? Será que a gente não poderia dar um descanso à Commedia dell´Arte?
20• Finalmente, se você tiver que mencionar a palavra “teatro” em sua performance, NUNCA o faça ao mesmo tempo em que levanta os braços, posicionando um calcanhar no chão e dedos do pé pra cima (numa postura de Arlequim….isso é tãããão anos 1780).
Um diretor disse, certa vez, para não nos preocuparmos se estivermos fazendo algo que já assistimos antes. “Apenas transforme em uma coisa sua”, disse ele. OK. Mas os elementos acima citados são demasiadamente freqüentes nas performances contemporâneas e deveriam ser banidos por pelo menos duas gerações, a fim de “dar um tempo” para a Arte.
Agora, se um dos elementos acima citados aparece em sua performance, não é grave. Você pontuou -1 na Escala Seabra. Se você conseguir remover este elemento de sua performance você poderá ter uma boa performance.
Mas se você pontuou menos 2 a menos 3 pontos: lamento, mas você provavelmente criou uma má performance.
Menos 4 a 8 pontos: é por causa de artistas como você que a Arte tem má fama.
A partir de menos nove pontos: por favor devolva qualquer subsídio público que você recebeu para produzir este lixo e trate de encontrar uma nova profissão.
Finalmente, se você levantou os braços e pronunciou a palavra “Teatro” em uma peça, isto leva você, automaticamente, à pontuação máxima de menos 20 pontos. Platéias deveriam retirar-se imediatamente.
…………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
O conteúdo é de novembro de 2009. Blog do Ricky Seabra. Eu ainda não sei se assumo minha pontuação na escala, ou se só acho tudo isso muito engraçado mesmo. Fiquei com medo das coisas tãããõ anos 80. (rs).
24 de maio de 2010 em 11:07
Conversando hoje pela manhã com Ricky, ele comentou que a escala seabra tem mais um item, recentemente adicionado. Gente que baba em cena (principalmente no teatro, ao falar um texto muito importante). rs.
25 de maio de 2010 em 5:19
poxa essa escala é demais!
principalmente porque poderia ser mais um outra escala a ser seguida, a ser substituída pela velha. mas não é!
é legitima, por dislocar a lógica de comando e medida aparente.
ao contrario de muita gente por ai que tem um discurso de dominação velado, disfarçado e com promessas de liberdade e desierarquização, cheio de violência simbólica.
particulamente a 13 “Esta é para dançarinos brasileiros: não importem a crise de identidade européia.
Brasileiros não estão em crise de identidade.” me toca, me comove, me revolta etc
obrigado ricky! seja bem-vindo a teresina! e bom trabalho no colaboratório!
25 de maio de 2010 em 18:23
nossa muito bom ler isso, ao mesmo tempo uma provocação e super divertido.
já estou lembrando da minha proxima peça e vendo se fizemos algum ponto. espero que não!!!
Faltou o clichê da nudez,né não? Uma vez num festival em santos a única performance com roupa era a minha(!)
Também o item 13, sobre crise de identidade me toca bem.
valeu ricky!!