Começo a compartilhar por aqui os textos que tenho escrito para as atividades das matérias da especialização.
Horizonte é o lugar onde as coisas se confundem
O texto “Horizontes do Corpo”, de Denise Bernuzzi de Sant’anna aproxima o corpo do conceito geográfico de horizonte, palavra que significa descortinar o amplo espaço entre céu e terra e os seus limites. Pode significar também a linha circular que limita o campo da nossa observação, e também perspectiva, futuro, destino. Horizonte que indica que o corpo pode funcionar como uma paisagem que, ao mesmo tempo, delimita, distancia, relaciona e compõe. E assim como a linha do horizonte, todo corpo é um imenso paradoxo, pois está sempre aproximando e afastando, separando e juntando, criando outros tipos de relações antagônicas.
O texto pontua algumas paisagens corporais que existiram ao longo da história, ao mesmo tempo em que coloca a clara impossibilidade de definição do que é corpo e de como utilizá-lo. São tantos corpos quanto a multiplicidade da história. E estes corpos-paisagens não param de se mover em diferentes direções, influenciados pela cultura, política, ciência e sociedade. Conhecer o corpo se torna então uma tarefa sem fim e em vão, por ele ser tão familiar quanto surpreendente até hoje.
Corpo: elo relacional entre individual e coletivo. Ele é capaz tanto de fortalecer os vínculos sociais quanto os valores individuais. Cada um tem sua singularidade ao tempo que o corpo é nossa concretude e fronteira com o coletivo e com o mundo, e é por ele que percebemos e conhecemos o mundo a nossa volta. Até que ponto sou eu ou o coletivo que define que corpo eu sou e como eu lido com isso? Quais os valores envolvidos?
Quais os horizontes do corpo hoje? Eles então se ampliam, ficam mais ricos e mais difíceis de definir a medida que o tempo passa e o corpo tem novas atribuições, funções, valores e complexificações característicos desta sociedade e deste tempo – século XXI, cultura ocidental. Horizonte também é o lugar onde as coisas se confundem. Horizonte é infinito? Aos nossos olhos, é sempre uma metáfora do sem fim, do que está muito longe. É o espaço que os olhos abrangem, o horizonte sensível. Não há um horizonte a se conquistar, o corpo torna-se ele mesmo um horizonte e uma paisagem.
Alguns desafios e problemas são colocados como questões a partir disso: como lidar com a grande valorização e visibilidade que algumas paisagens corporais adquiriram na atualidade? É o que acontece no clichê da indústria da beleza, na publicidade, na moda, em detrimento de outros aspectos extremamente importantes onde o corpo é subvalorizado e por vezes até padece, como por exemplo em todo o processo pedagógico, que ainda considera a educação como processo somente mental e não físico, acreditando numa separação corpo e mente que não existe de acordo com os estudos recentes das neurociências e evolução. Na verdade, o corpo são os aspectos físicos, intelectuais e emocionais. Com influências recíprocas e simultâneas. É corpomente, sempre em processo dinâmico e complexo.
O desenvolvimento de várias ciências como a medicina, a genética, a cibernética, robótica e culturas como a da tatuagem e do body modification por exemplo, nos fazem refletir sobre estes limites borrados entre corpo e máquina, corpo e tecnologia, controle sobre o corpo, limites de invasão e modificação. Isto vai resultar em novas paisagens corporais, já que estas estão sempre mudando de acordo a dinâmica que muda o mundo. Até onde se pode modificar externamente(?) o corpo. Se o corpo é complexo e integrado, nenhuma mudança poderá ser somente externa. Sempre haverá uma nova forma e um novo limite para a paisagem do corpo.
Podemos citar como exemplo a série de TV americana Nip Tuck, que usa o pretexto de um consultório de cirurgia plástica para mostrar uma característica da sociedade americana dos anos 2000 que é uma relação de eterno controle do processo natural de envelhecimento do corpo que questiona e vai além dos supostos limites para conseguir um corpo ideal, sempre jovem e socialmente aceito, ou seja, dentro dos padrões considerados importantes para eles. Tenta controlar o que é incontrolável, neste caso o envelhecimento, e a todo custo se encaixar num padrão estético que é imposto. Nota-se que o corpo parece nunca poder ser totalmente controlado, já que para controlar cria-se um mecanismo de descontrole.
O corpo ainda é educado para ser instrumento de dominação e controle dele mesmo, de grupos e sociedades também. Ao mesmo tempo que os corpos são muitos no decorrer da história, muitas são as tentativas de controlar este corpo, mas este controle vai ser “sempre incompleto, provisório e sem garantias”. Toda ação destinada a controlar aquilo que cada cultura concebe como “incontrolável” dos corpos, acaba criando novas zonas pouco submissas à dominação. Ele já foi “controlado”, ou tentado controlar, pelos espartilhos, pela moda, pela ginástica, pelas plásticas, pelo comportamento, pelo governo, pela religião.
Será que sempre vai haver algum grupo tentando dominar e legitimar o poder através do (falso) controle dos corpos? Quanto mais fica entendido como esse mecanismo funciona, ficará mais fácil não fazer parte deste. Mas não se deixar controlar é extremamente sutil e poderoso. Será que a nova revolução será corporal? Ou ela aos poucos já não está acontecendo? Não como uma outra forma valorização do corpo, pois ele hoje já está exageradamente valorizado e sacrificado, mas no sentido de um deslocamento de interesses e percepções acerca do que é esse controle do corpo. Assim, é importante perceber que este controle pode ser a favor ou contra o próprio corpo e os demais corpos. Resistir contra ou a favor. É importante frisar também que é no campo da composição e não da dominação que o corpo funciona como um horizonte de paisagens.
Relacionando toda esta reflexão com a dança, agora penso: Quais os horizontes e as paisagens possíveis para o corpo cênico? As paisagens que ele pode construir são inúmeras para elaborar uma dança, uma forma de ver, elaborar e se relacionar com o mundo. A dança contemporânea hoje é o território com horizontes cada vez mais flexíveis, onde pode tudo, mas ao mesmo tempo não pode nada á toa. Tudo precisa de algum tipo de lógica, relação e elaboração. Os limites para este corpo que dança talvez nem existam de fato, ou pelo menos estão cada vez mais borrados como o céu e o mar azul que eu vejo pela janela. Cada contexto vai ter seu horizonte, seu limite e suas infinitas paisagens. E o corpo vai continuar sendo como o paradoxo da linha do horizonte, delimitando e juntando elementos diferentes.
(Salvador, 27 de janeiro de 2011)
18 de abril de 2011 em 9:43
Massa, Jana, compartilha todos, pode ser bom acompanhar suas reflexões aí na especialização por aqui, me interessei em ler, mas nao rola agora. Thanks.
19 de abril de 2011 em 0:09
Que bom ter vc aqui compartilhando suas reflexões. Gostei muito de ler o texto.
Não estou aqui pra fazer análise, nem conseguiria, mas queria colocar algo que me intrigou:”Conhecer o corpo se torna então uma tarefa sem fim e em vão”…
Ser uma tarefa infinita eu concordo e acho que é essa a nossa motivação, até porque esse conhecimento se transforma, as perspectivas mudam, o mundo muda. Mas ser em vão não acredito.Talvez seja um entendimento de cada momento, tipo ” onde podemos chegar hoje nesse entendimento do corpo?”. Acredito que fazer todos os dias esse exercício .
Só uma colocação.
abraços
19 de abril de 2011 em 14:21
massa, weyla!
mas o “em vão” é nesse sentido mesmo, de que nunca acaba, sempre se transforma e tem algo novo todo dia para descobrir. É cada vez mais informação! Entendo esse em vão como entender que é impossível aprender tudo sobre o corpo. Corpo é processo, então nunca acaba.
20 de abril de 2011 em 9:11
Muito legal o texto Jana. Obrigado!
25 de abril de 2011 em 3:32
http://vimeo.com/18746949
olhaí, jana.