…segundo texto da série.
Linhas abissais e movimentos emancipatórios
O mundo ocidental moderno e o nosso pensamento a respeito dele ainda é um pensamento abissal (SANTOS,2010, p.31). As linhas abissais são linhas invisíveis que dividem visivelmente um mapa, de forma que só existe um lado, o que eu estou. Um exemplo clássico é o Tratado de Tordesilhas. Essas linhas existem tanto no mapa mundial como num espaço menor, como a relação que estabeleço com a cidade onde vivo. Existe a minha cidade dentro da cidade, cercada por linhas abissais que delimitam o que me interessa em meio as diversas ofertas de lugares, pessoas e pensamentos existentes em uma cidade.
A característica principal destas linhas abissais é a impossibilidade de copresença e diálogo dos 2 lados. Isso gera e sustenta preconceitos originados deste tipo de atitude. O que fica do outro lado eu voluntariamente desconheço, não possui relevância e compreensão enquanto realidade existente. Não existe um diálogo entre saberes distintos neste tipo de pensamento. Só que todo tipo de saber tem limites internos e externos.
Para começar a pensar no mundo de uma forma pós abissal, propõe-se um pensamento ecológico, baseado na existência de conhecimentos heterogêneos (além do conhecimento científico), as suas interações e dinâmicas e sem perda de autonomia. A ecologia de saberes baseia-se na idéia de que o conhecimento é interconhecimento (SANTOS,2010, p.53). Uma proposta de conhecer melhor e por outros ângulos cada objeto e fenômeno do mundo, e não só analisar a partir de um único ponto de vista. São várias formas de conhecer e portanto várias verdades. As epistemologias (que são os modos de conhecer) são específicas e necessitam ser construídas para se conhecer cada objeto, cada contexto.
Neste contexto de linhas abissais, uma das mais significativas para se refletir neste momento é a linha abissal que a dança contemporânea criou com as outras formas de dança. Desta mesma forma, só existe o lado de cá. É a dança contemporânea que é aprovada nos editais, que vai para os festivais, e as outras danças são/estão invisíveis. Outro dado importante é que as salas de espetáculo estão cada dia mais vazias. Existe uma linha abissal entre a dança contemporânea e o público cada vez mais clara e difícil de ser apagada.
Toda vez que se cria um valor, cria-se também um desvalor de uma outra coisa. Então um tipo de dança não pode ser valorizado a custa da desvalorização de outras. O mais importante é entender que todas essas danças precisam conviver, cada uma buscando fazer com qualidade e aprofundamento aquilo a que se propõe. Cada uma no seu contexto, que é sempre específico e determinante: qual o país e a cidade, o cenário político, quem a produziu, em que condições aquele trabalho foi feito, o que ele discute… Quanto mais as danças convivem e compartilham de um pensamento que não é abissal, mais ganham força política e autonomia como arte e área de conhecimento específico.
Para falar de dança contemporânea e sua relação com quem a assiste, temos que trazer aqui o conceito de espectador emancipado proposto por Rancière e discutido em sala de aula: o espectador tem um papel ativo na compreensão da obra artística, não é somente um receptor de informação, atitude feita e repetida por muito tempo como forma usual de se relacionar com o espetáculo. O espectador precisa aprender a se relacionar com a arte hoje de outra forma – e isto é também um processo de educação – ter uma atitude de espectador emancipado. Aprender a traduzir sem necessariamente ter que compreender, ou compreendendo de outra forma.
Mas do que o espectador se emancipa? Ele se emancipa de dependência e cumplicidade com o artista, da idéia de que o artista tem que dar uma informação, uma legenda sobre a obra produzida. A obra vai se revelando pelo que ela é, o conteúdo está na forma, na materialidade do que ele faz. Uma obra não vai passar mensagens pois ela não é um meio eficiente para fazer isso. A comunicação que ela faz passa por outras vias, a via do sensível.
O artista contemporâneo quebra esse contrato implícito com o público, pois ele não usa o palco como sala de aula. O espectador precisa então de uma postura ativa, para construir e criar significação junto com o artista, no momento do contato com a obra. Isso dá trabalho e não é conseguido de imediato. Pressupõe tempo, vontade, treino e desarmamento dos nossos hábitos perceptivos, que em geral são hábitos bem conservadores, para lidar com informações, estéticas e tempos outros.
O espectador precisa se emancipar também da relação consumista com a obra artística, a mesma relação de consumo que está presente e rege todos os outros aspectos da vida hoje, neste mundo do regime do novo capitalismo. É uma relação que visa o prazer imediato, a garantia de momentos agradáveis, que vai de encontro com o que a arte contemporânea se propõe, que é fazer perguntas. E cada obra vai trazer diferentes perguntas.
Fazendo perguntas, o contato com a arte contemporânea muitas vezes é desconfortável num primeiro momento, já que não há uma produção de certeza, como ainda estamos acostumados, imersos ainda numa visão de mundo dualista, abissal e educados como alunos sem autonomia, meros receptores de informação “pronta”. Mas se o espectador é sempre “agradado” com este tipo de informação ele não se modifica, não é colocado para pensar, refletir, rever conceitos e ter alguma autonomia e consciência crítica do mundo.
Outro aspecto importante é que por estar bem mais próxima do nosso cotidiano, a comunicação e a identificação com uma obra de arte contemporânea é imediata e de fácil. O público reconhece os elementos próximos e isso basta, tendo uma falsa sensação que a obra é somente esta comunicação inicial e perde o interesse. Existe uma identificação com o cotidiano e não uma apreciação estética. Só que a comunicação não é a obra, a obra é o vem depois, o que está por trás. O curioso e fascinante disto é entender que muitas vezes uma obra vai servir para entender outras coisas que estão ao nosso redor na vida e não a obra em si. Ela é quase que um “pretexto” para se discutir uma outra coisa que está acontecendo no mundo.
É preciso que se compreenda e se inicie esse processo de emancipação do espectador o mais rápido, para que haja uma diminuição ou uma anulação desta distância invisível e ao mesmo tempo enorme que está separando a arte contemporânea, e especificamente a dança, das pessoas. E também uma proposta eficiente de formação de público, já que os vários programas que se propõem para este fim não param de acontecer em todos os contextos e cidades brasileiras mas não estão dando resultados concretos e satisfatórios, pois as salas continuam vazias e o público cada vez mais longe.