O Núcleo do Dirceu declara estado de sítio. Usamos a metafora de estado de sítio para nomear esse momento emergencial e temporário de espera pela assinatura do contrato de manutenção com a Petrobrás, contrato esse que viabiliza a implantação do projeto 1000 casas pelo Núcleo do Dirceu. O estado de sítio é uma suspensão nas regras, normas e leis que regem um estado ou nação e que protegem o indivíduo. Uma turbulência auto-organizativa que quase sempre culmina com uma mudança drástica ou benéfica, mas quase sempre se dando a ver como necessária. O Núcleo do Dirceu decide não paralisar as atividades como sugerido pela Petrobrás, mas tambem decide suspender temporariamente o inicio da implantação do projeto 1000 casas, se posicionando nesse entremeio de um campo de batalha político que vem se dando como um arranjo de acontecimentos interconectados - locais, nacionais, globais – e que mais do que nunca cabe ao pensamento da arte e suas ações revigoradoras, entender, esmiuçar e encontrar um lugar para isso na vida desses cidadãos dignos e decentes.
Regina Rossi nos visita em fase de investigação para sua tese de pós-graduação em Hamburgo, na Alemanha. Uma presença que tem se feito simples, elegante e inteligente no meio de nós. Uma boa surpresa, ela e seu interesse aguçado pelos processos de colonização que permeiam essas novas balanças onde se pesam os mundos. Nos trouxe gentilmente um pouco do histórico dos estudos da performance numa aula riscada no novo quadro negro verde do Núcleo: Debord, Kaprow, Derrida, Austen, Butler… fico olhando os meninos e meninas do Núcleo e pensando como são sortudos e privilegiados, quizera eu ter tido isso tudo com essa idade em pleno calor de Teresina.
E é justamente essa Teresina que vem tomando ultimamente o centro das discussões do Núcleo. A relação com a cidade Teresina, com os artistas, com a imprensa, com a comunidade do Dirceu. Como gostaríamos de travar essa relação que não se faz só por estar-se aqui, um tipo de pertencimento que não se dá a priori, que precisa de pulso forte para acontecer de maneira dinâmica dentro de um processo maior de local-ização dentro do global, processo esse inevitável e que demanda um posicionamento claro e honesto para que não nos deixemos levar pelos tsunamis do achismo, do auto-ostracismo, do deixa pra lá. O momento é de encruzilhada e o movimento um ziguezague sinuoso de corpos em círculos concêntricos. A cidade nos visita, dois lados de uma mesma moeda em torno da mesma mesa e da mesma questão: como superar o abismo da “outridade”, o espaco irreconciliável que nos separa do outro.
“O inferno é o outro” nos dizia Sartre naqueles tempos que antecederam a situação do “é proibido proibir”. Talvez hoje seja mais condizente dizer “é permitido permitir” não mais querer fazer parte do ponto vermelho no google maps onde a cegonha depositou casualmente o ovo que deu nesse projeto inacabado de alguma coisa viva a devir humana. E assim seguimos entre medos dispersos e dissimulados, tropecos homéricos, silêncios performáticos, parcerias equivocadas e jargoes distribuídos com a etiqueta foda-se, no detalhamento de estratégias e contradições e em reconhecimentos tardios-mais-ainda-em-tempo. Então Soraya interrompe o silêncio que intorpece para nos contar da sua intervenção nas academias de treino e estética da nossa cidade, lugar onde não existem pessoas gordas, totalmente inadmissível de existirem ali no reino das mulheres lindas e dos machos alfa de teresina. Luana passa e nos traz além de Volpi e Cy Twombly, suas ideias xilográficas, chifrudas e avoantes, traços que procuram formas para existir, como index imaginário dessas 1000 casas sem teto e sem chão. “O real insiste” , já dizia Charles Sanders Pierce.
21 de março de 2011 em 14:03
teríamos mesmo é que sitiar a casa deste senhores irresponsáveis que só sabem dar canetaço onde não é tão importante e o importante deixam a ver navios…
eita dificuldade…
mas força na peruca e na ocupação! se eu ficasse aqui mais um tempo ia lá pro galpão treinar, discutir, almoçar, artesanar…