Estadão, 19 de dezembro de 2009.
SÃO PAULO – Muitas vezes, amigos brasileiros me perguntam o que está acontecendo na Itália e “por que Berlusconi”. Quase sempre procuro responder sorrindo (meio sem jeito), alegando que não é fácil explicar o fenômeno Berlusconi. Começarei, então, por Videodrome, um filme do diretor canadense Cronenberg, de 1984, que antevia alguns conflitos entre a TV e o incipiente computador. Na minha opinião, Berlusconi assiste semanalmente a Videodrome para aplicá-lo ao contexto italiano. “O poder passa pelos olhos” – o filme cita Lorenzo de Medici, o Magnífico, senhor de Florença e poeta. Os olhos tornaram-se uma membrana sutil que conecta o visus do “Cavaliere” (como o premiê é chamado na Itália) a um público transformado em “audiência”. Visus é a maneira científica com a qual Berlusconi trata seu corpo concentrado no rosto e o torna imutável: um rosto-corpo que se alarga tomando toda a tela da TV. E se expande além dela, difundindo-se em cada interstício visual. Em seu visus-visual, tudo deve ser organizado nos mínimos detalhes. Inútil dizer que os cabelos são falsos, assim como os dentes, que o lifting facial ou a maquiagem são sabiamente excessivos.
por massimo canevacci
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