faxina

Por: às 07/02/2011 21:11:00

A faxina parte de uma pergunta bem simples: o que acontece se você limpa o chão da sua rua como se fosse o chão da sua casa?

A rua é também o espaço de todo mundo, mas principalmente o de ninguém. O espaço de falta de apego e de cuidado. O lado de fora. Sempre me espantou, desde a minha infância, o caminhão que recolhe o lixo mas derrama pelas ruas um rastro de chorume, azedo e fedido. O lixo que é atirado pelas janelas dos carros. A tranquilidade com que se desembrulha uma bala e deixa o papel no chão.

Propondo um esforço conjunto, uma força-tarefa, um mutirão de faxina composto pelos próprios moradores da rua, numa espécie de celebração, podemos abrir uma brecha pra uma mudança de relação com o espaço público, com o comum. Através de um envolvimento que só quem suou pra limpar um chão tem com ele. Uma faxina como aquela que você faz no seu quarto, em que você não deixa pra trás nem um cantinho com sujeira; uma espécie de apreço que nunca se teve com a limpeza de uma rua.

A faxina se dá aí nessa junção de esforços para cuidar do que é de todos, portanto seu também, procurando um intercâmbio de relações entre espaço público-privado, através de uma ação no espaço público nos moldes do apego que se tem com o espaço privado.

Para chegar nesse envolvimento teremos que fazer as visitas nas casas da rua escolhida, convencendo os moradores a participar e fazendo-os entender o crucial da proposta: limpar a rua como se fosse a sua casa!

Vamos varrer bem, recolher o lixo, arrancar o mato, jogar água, esfregar com sabão e desinfetante, enxaguar direitinho.

O que acontece depois da faxina? Super importante também é observar como vai ser depois. Será que a rua limpa vai causar uma impressão positiva e mudar a atitude? Será que logo tudo vai estar como antes? Em quanto tempo? Penso na teoria das janelas quebradas. Será que arrumar vai constranger alguém a bagunçar?

Essa idéia surgiu como uma proposta pra o prêmio intervenções urbanas, no Rio, em 2008. Não rolou o prêmio, a idéia foi engavetada, mas na segunda gaveta da mesa de cabeceira, sempre ali, pulsando. Esperando uma hora pra acontecer. Agora em dezembro, na bienal de são paulo, vi o trabalho de uns japas ligados ao grupo fluxus, o Hi-Red Center  (http://www.29bienal.org.br/FBSP/pt/29bienal/participantes/Paginas/participante.aspx?p=154). Nos anos sessenta, por ocasião das olimpíadas de tokyo e dentro de um contexto que deve ter tido suas similaridades com o choque de ordem carioca em função de 2014/16, organizaram o “movimento para promover a limpeza da área metropolitana – be clean!”, em que eles iam às ruas de máscaras, luvas e aventais brancos – lupas até – limpando minuciosamente as calçadas, postes, bueiros… adorei aquilo e fiquei mais animado pra retomar a idéia da faxina. Voltando da bienal, no mesmo dia, encontrei na porta de casa um amigo do teatro oficina, que me contou que eles tinham acabado de fazer um ritual orgiástico daqueles, lavando as calçadas do quarteirão todo em volta do teatro, com direito a caminhão pipa com água de ervas! (http://www.youtube.com/watch?v=I8Vnwz443iM)

Chegou a hora de fazer essa faxina!



Compartilhe:





Você também pode gostar de:


5 Comentários

  1. cleyde silva disse:
    11 de fevereiro de 2011 em 15:12

    Gosto da idéia, já visualizo as pessoas olhando com a cara estranha quando for propor isso, mas acho coerente e completamente negociavél.


    Responder
  2. elielson disse:
    12 de fevereiro de 2011 em 7:02

    leo, como tu vai convencer as pessoas de que a rua que é pública é, portanto, de todos, sendo cuidada por todos?


    Responder
  3. leticia disse:
    19 de fevereiro de 2011 em 23:52

    oi irmão!
    já gostava da ideia antes e realmente, se rolar no 1000casas me parece ter tudo a ver. a faxina é sem dúvida uma boa desculpa pra qualquer limpeza que se queira fazer – quem nunca se sentiu ‘de alma lavada’ após um dia de trabalho numa faxina daquelas me desminta! tantas vezes se configura uma atividade terapêutica, quando o movimento se reverbera, e outras tantas contra-terapêutica, quando o ato em si se torna tão forte e obsessivo que camufla a necessidade de uma boa água sanitária em um monte de outras partes… quando minha necessidade de limpeza e organização começam a ir além do comum desconfio que tem sujeira embaixo do meu tapete…rsrsr
    dividir esse processo com outros, desconhecidos, em um espaço que é de todos mas pelo qual ninguém de fato se sente responsável, pode ser uma puta experiência!


    Responder
  4. cleber moura fe disse:
    20 de fevereiro de 2011 em 10:46

    Sobre Processos leiam o ultimo artigo da Helena Katz sobre Vera Sala no Estadão


    Responder
  5. elielson disse:
    20 de fevereiro de 2011 em 17:50

    oi letícia.
    bem-vinda!!
    muito massa vc trazer o outro lado da moeda da terapia da limpeza.
    não havia pensando nisso.
    limpar uma casa, uma sala é somente uma das limpezas possíveis.
    se vc só se dedica a ela pode não estar podendo ver outros lugares da vida.
    bjos


    Responder

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*


2 + = 11

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Quem Somos:

Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

Categorias

Comentários

  • Elielson Pacheco: Me sinto meio idiota no momento. E fico pensando qual é o ponto do desmoronamento que tem que ir...
  • César Costa: Marcelo, concordo contigo quando diz que só o fato de ser artista já não te coloca como medíocre. Se...
  • Danielle: Não dá pra não fazer conexões entre as coisas ditas, ouvidas, feitas, vistas e acontecidas. Acho que não...
  • weyla: Hoje conversando com minha avó ela me disse que não queria mais comprar roupas porque tava perto de...
  • elielson: de comer e se comer sim. opa!

arquivo