
Morre hoje Merce Cunningham, o maior criador de danca contemporanea ainda vivo entre nos, um coreografo de importancia definitiva para a evolucao da danca no mundo, e fundamental para o desenvolvimento do pensamento da pos-modernidade nas artes em geral. Na verdade Cunningham foi com muita precisao, o elo e a ruptura entre esses dois tempos, os tempos modernos e o pos-modernismo. Saindo da Companhia de Martha Graham, onde foi solista por alguns anos, ele trouxe toda uma experiencia como interprete de uma das mais coerentes e celebradas tecnicas de danca existente no mundo, a danca dramatica, expressao da alma humana, criada por Graham. Mas comecou dai a desenvolver suas proprias ideias, quebrando de cara muitos dos paradigmas da danca como maneira de pensar o corpo, usar o espaco e a musica, e se relacionar corporalmente – os movimentos do corpo como linguagem em si – com outros elementos e linguagens cenicas, e mais tarde, tecnologicas. Cunningham inventou a danca que fala de danca, ou a danca que fala por si do que pode falar a danca. Pela primeira vez se falou do corpo como sistema de funcoes arbitrarias, casuais, combinados como partitura, como uma arte livre da musica, dos enredos narrativos e/ou dramaticos, uma arte em si. Com seus experimentos que vinham a destrocar todas as ideias anteriores com respeito aa danca ou ao espetaculo, influenciou o surgimento da Judson Church, a vanguarda contemporanea, da qual somos “consequencia” ate os dias de hoje. Cunningham alterou de forma contundente todas as nocoes do que seja dancar, como expressao e como sistema de funcionamento de uma pratica e uma estetica de danca, formulando o que hoje entendemos comumente, sem nem mesmo nos darmos conta de que antes nao era assim.
Merce se manteve ativo por mais de 60 anos com suas proprias ideias e conviccoes, testando novas possibilidades e recursos – foi o primeiro a testar o life forms, um programa de computador para criar coreografias -, debrucado incansavelmente sobre o corpo humano, sua mobilidade, sua forca e resistencia, sua arbitrariedade, corpo como acaso, em escolhas aleatorias, em acoes simples, como simples corpo em seu processo peculiar de sobrevivencia. No final dos anos 80 ainda o vi dancando com sua companhia, entre jovens bailarinos com muita tecnica, ele ja um pouco rigido com uma artrose que comecava a se intensificar. Mas solido, presente, com uma clareza incrivel daquele “evento” corpo-tempo-espaco e uma precisao de todas as leis casuais que regiam aquele momento. Foi ovacionado por longos minutos por uma plateia de 3000 pessoas na Opera de Amsterdam, e sempre me emocionam os longos aplausos na europa, quando o publico faz questao de certificar com respeito e honestidade o valor de um artista e sua obra, e a importancia dela para o mundo. Ja nos anos 90 quando vivi em Nova Iorque, frequentava esporadicamente o Studio Cunningham no West Side, um espaco que mais parecia um templo da danca, um lugar sagrado de dancar, mas sem pompa ou rigidez. Eu fazia aulas com alguns bailarinos da Companhia, e essas nao pareciam apenas aulas de danca, mas o ensinamento de um metodo, como uma ciencia exata do corpo e do movimento. As vezes ele, Merce, como lhe chamavam carinhosamente os da Companhia, transitava por ali pelas areas do Studio, causando um frisson em todos nos, ocupando aquele espaco com o Mestre. Algumas vezes eu ia aos “dance concerts” no Studio durante a semana a noite, quando se apresentava rascunhos de processos ou pequenas pecas criadas por bailarinos ou jovens coreografos, e ele estava quase sempre la, silencioso mas muito atento em sua poltrona, misturado com a plateia que se amontoava em travesseiros.
Uma particularidade da historia da vida de Cunningham sempre me fascinou: A relacao de 50 anos dele com John Cage, o musico que revolucionou a musica no seculo XX com suas invencoes e ideias. Os dois tinham uma relacao de trabalho e uma relacao pessoal, de amor e companheirismo, que diziam era lindo de se ver. Viveram apaixonados ate a morte de Cage em 92, criando juntos, dialogando e influenciando um ao outro mutuamente. Eu ficava imaginando aqueles dois genios em casa, no supermercado, na cama, acordando de manha, e pensando na qualidade sutil daquela troca, daquele convivio diario. Na combustao daquele amor entre dois grandes homens. Ficava me dizendo que o casal Cage-Cunningham era o primeiro casal gay da pos-modernidade, um tipo de compromisso de vida e trabalho que hoje em dia se ve mais comumente, mas que comecara ali com aqueles dois homens, que quebravam docemente todas as regras do jogo que vinha sendo jogado antes deles, abrindo um novo espaco para outros tipos de relacao, entre musica e danca, entre ritmo e silencio, entre um homem e outro homem, de forma inteligente, integra, masculina, afetiva, respeitosa e sensual.
A morte de Cunningham ja era um pouco esperada pela idade dele – ele mesmo decidiu o que fazer com a Companhia e o legado deixado depois de sua morte -, mas nao deixa de me causar um impacto, e uma certa confusao desnorteada, como algo sendo retirado de um lugar solido e referencial. Algo que sempre esteve ali para o consolo das horas do desentendimento e da descrenca, como uma certidao de possibilidades infinitas, extremamente palpaveis, para os artistas da danca que surgiram na picada aberta por ele.. Mas recebendo a noticia dessa partida, pensei com uma alegria dessas da imaginacao, uma fantasia inconsequente, que hoje era dia de festa no ceu. E que Merce era recebido por John, que ja havia mudado toda a concepcao sonora do infinito, e esperava por ele para comecar a dislocar os anjos de seus lugares de habito. Se pensarmos no ceu como a resonancia do que existiu na vida, Cunningham e Cage estao juntos agora, having a glass of wine, com muitas estorias pra contar um pro outro, nesse lastro de amor infinito, tao frutifero, tao demolidor e tao para sempre eterno.
Marcelo evelin