Festivais rebolam até acertar os passos

Por: às 07/11/2009 11:48:00




Sexta-Feira, 06 de Novembro de 2009

O de São Paulo busca experimentações; o do Rio quer atender mais localidades

Helena Katz, ESPECIAL PARA O ESTADO

Começaram ontem e terminam dia 15 dois festivais, um em São Paulo, e outro no Rio, com formatos, propostas e papéis distintos na dança brasileira. O de São Paulo, o Festival Contemporâneo de Dança, no seu segundo ano, ocorre na Galeria Olido, e o do Rio, o Festival Panorama de Dança, na sua 18ª edição, espalha-se por 14 espaços na cidade e chega também a Nova Iguaçu, São Gonçalo e São João de Meriti.

O Contemporâneo tem direção artística dos coreógrafos Adriana Grechi e Marcelo Evelin, e direção executiva de Amaury Cacciacaro Filho. Em entrevista por telefone ao Estado, Adriana Grechi contou que o projeto esperou três anos para ser realizado e foi criado para suprir a falta, em São Paulo, de um espaço de encontro entre artistas que desenvolvem trabalhos de pesquisa: “Os artistas que participam são também ativistas da dança contemporânea, que priorizam conviver uns com os outros, com os artistas locais e o público. Por uma semana, conversam sobre seus trabalhos e os contextos de seus países, nos quais também atuam fora do palco, com a clareza de que é necessário lutar contra a ameaça de extinção que paira sobre os que se dedicam ao trabalho de investigação.”

Por isso, o Festival Contemporâneo escolhe artistas que também não contam com apoio em seus países de origem. “Não queremos uma relação rápida e consumista em torno da dança. Nosso foco são aqueles que experimentam novas possibilidades.” Funcionando como um espaço para o encontro, reúne artistas de São Paulo (Marta Soares), Votorantim (Coletivo O 12), Montevidéu (Tamara Cubas), Marrakesh (Taoufiq Izeddiou), Lisboa (Rafael Alvarez), Montreal (Sheila Ribeiro/Dona Orpheline) e Barcelona (Sònia Gómez). “Cada um escolhe como quer se apresentar, e nem todos ocuparão o teatro. Alguns se apresentarão nas duas salas onde ocorrerão as oficinas e os encontros.”

Serão três oficinas: Processos e contextos, com Fabiana Dultra Britto; Metodologias e ferramentas para criação, com Tamara Cubas; e Composição coreográfica, com Taofiq Izeddiou. Nos encontros, cada um escolhe como vai conduzi-lo e a Associação Desaba, uma iniciativa dos coreógrafos Cristian Duarte e Thelma Bonavita (www.desaba.org), mostrará uma ferramenta para artistas compartilharem seu trabalho com o público. Além disso, será feita uma edição demonstrativa do Teorema, com Tatiana Melitelo, Thiago Costa e o grupo Cinetose. O Teorema é uma iniciativa do Estúdio Move, realizado no segundo semestre do ano, que acolhe jovens criadores, e a curadoria é de Fabiana Dultra Britto.

Talvez o mais importante a ser sublinhado sobre o Festival Contemporâneo de Dança é o fato de ter feito do encontro entre obras-pessoas a sua prioridade. Não por acaso, em 2008, recebeu o Prêmio APCA 2008 para produção, difusão e formação em dança.

O Festival Panorama tem outro porte e objetivos. Programou 15 obras estrangeiras e 20 nacionais, um Panoraminha (com três espetáculos para crianças no Sesc Copacabana), uma Mostra Universitária, o projeto coLABoratório (resultado de residências artísticas que reúne 30 artistas do Rio e de Teresina em uma ocupação inédita do Teatro Cacilda Becker chamada Se me dessem o teatro), o 2º Seminário Internacional Economia da Dança, um projeto de formação de público (com mais de 40 ONGs e instituições de ensino), o Sentido Centro (com apresentações ao ar livre na Praça Tiradentes e em estações do metrô) e mais oficinas de dança gratuitas.

No ano passado, mais de 18 mil pessoas assistiram ao Panorama. Dirigido por Eduardo Bonito e Nayse Lopez, também curadores da mostra, distribui uma programação do circuito internacional de dança contemporânea a preços populares. Em entrevista ao Estado, Nayse Lopez declara a satisfação deles por terem conseguido fazer com que os ingressos populares de R$ 2 ou R$ 1 finalmente atingissem quem não pode mesmo pagar. “Fizemos um trabalho ao longo do ano, como o FID, o Fórum Internacional de Dança, de Belo Horizonte já vem fazendo há alguns anos, atuando diretamente em escolas e nas comunidades, firmando conexões com áreas da cidade com as quais não nos comunicávamos, de modo que o ingresso popular não fosse consumido por quem pode pagar R$ 15, para não ser uma ação somente de fachada.”

A abertura do festival será com o Ballet de Lorraine dançando Isadora Duncan, Martha Graham, William Forsythe e Maguy Marin. “Pensamos na importância de discutir a história da dança e da performance, daí a presença desse programa do Ballet de Lorraine e de termos incluído remontagens de obras de dez anos de Esther Weitzman e Andrea Jabor, além de Sara Manente e Janez Jansa, que se apropriam de performances históricas”, explica Nayse. A instalação de Jansa, da Eslovênia, Life, está, desde 12 de setembro, no Centro de Arte Hélio Oiticica, onde permanecerá até 30 de novembro, com performances programadas para os dias 13 e 14, às 18 h. A de Sara Manente/Ondine Cloez/Michel Reynaert, da Bélgica (Some Performances), ocorre no mesmo lugar, nas mesmas datas e horários.

Na sequência da programação internacional estão Alain Buffard ((Not) a Love Song), Gilles Jobin (Black Swan), Vera Mantero (uma misteriosa Coisa, disse o e.e.cummings* e também A Dança do Existir), Tamara Cubas (ATP), um coletivo de 10 artistas do Japão (true), Norma Claire (Va, Vis) e Boyzie Cekwana (Influx controls: I wanna be wanna be). “Boyzie, que nunca dançou no Brasil, olha para a sua história para discutir a situação pós-apartheid de um artista sul-africano no mercado europeu de dança”, comenta ela.

O Festival Panorama traz ao Rio, no entorno da Praça Tiradentes, a instalação Antipodes I/II, Solo, Suspense, de William Forsythe, que fica em exibição de hoje até o dia 15, no espaço Oi Futuro, das 11 h às 20 h. Lá mesmo, exibirá vídeos de Rachid Ouramdane, da França/Wagner Schwartz, do Brasil (Eu Precisava Ganhar Tempo; Je Essayais de Gagner du Temps), Manuel Vason, da Itália (Panorama), uma ação da Couve Flor Minicomunidade Artística Mundial, de Curitiba (Infiltrações), e os espetáculos de Rodrigo Cruz e Rodrigo Cunha (Súplice) e Vanilton Lakka (Interferência Inacabada: Preste Atenção ao Ruído ao Fundo).

No Panoraminha, mostra De Esconder para Lembrar, com a Meia Ponta Cia. de Dança; Borbulho, de Chamecki/Lerner; e Quando Crescer, Eu Quero Ser?, com o Teatro Xirê. Das companhias nacionais, selecionou Marcos Fauller/Cia. Dita, do Ceará (De-vir), Cena 11, de Santa Catarina (Embodied Voodoo Game), Roberto Ramos, de São Paulo (Continuum), Cia. Arquiteturas do Movimento (De Areia e Mar), Esther Weitzman (Terras), Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira (O Animal Mais Forte do Mundo.2), Quasar (Céu na Boca), Denise Stuta (Justo uma Imagem), Andrea Maciel (Gravidade Zero: Movimento #3), Andrea Jabor (Ao Samba: a Cruz, o Xis e o Esplendor), Gustavo Ciríaco (Nada. Vamos ver), Pulsar Cia. de Dança (Estudo nº 2 – Indefinidamente Indivisível) e um projeto de intercâmbio Brasil-Benin, criação do coreógrafo Paulo Azevedo, da Cia. Membros (Corpo Aberto).

Vale refletir sobre os dois modelos de festival, compreendendo criticamente a função de cada um no desenvolvimento da dança brasileira. Festivais têm uma importância hipertrofiada, dada a sua visibilidade, pois operam como sinalizadores do que é ou não programável, com consequências de todas as naturezas, da continuidade da produção à sua difusão e recepção. Sejam gigantes como o Panorama ou focados em um recorte bem específico como o Contemporâneo, o que conta é a sua capacidade de repensar permanentemente a sua atuação, de olho na possibilidade de irrigar as suas realidades na direção da autonomia.

fotos > ATP de Tamara Cubas > Gonzalo Vicci



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3 Comentários

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  • Elielson Pacheco: Me sinto meio idiota no momento. E fico pensando qual é o ponto do desmoronamento que tem que ir...
  • César Costa: Marcelo, concordo contigo quando diz que só o fato de ser artista já não te coloca como medíocre. Se...
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