Foi necessário “Ricky Seabra” vir a Teresina dizer que precisava me libertar!!!

Por: às 02/06/2010 23:24:20

Foi mais ou menos assim que me senti depois de mostrar um exercício pros colaboradores no ultimo sábado. Isso teve inicio no dia anterior, depois de uma breve “DR” entre os colaboradores onde coloquei a necessidade que tenho de me mover e de fazer algo mais corporal. Durante dois anos venho de molho com relação a essa vontade de dançar e também a forma como a dança contemporânea vem lutando contra o movimento estruturado, pesquisado e ensaiado. Essa discussão ocorreu no começo de mais um dia de trabalho e deu uma discussão boa. Eu propus que tivéssemos uma pratica corporal diária como forma de concentrar as mentes e conectarmos para o trabalho. Alguns achavam desnecessário essa prática e que essa necessidade poderia ser suprida em outros momentos mais isolados e não àquelas horas dedicadas ao colaboratório.

O certo é que isso me levou mais tarde a uma nova conversa com Ricky, falei pra ele que sentia muita vontade de dançar e que aqui vinha me sentindo sufocado pela “não dança”, que é uma tendência da atualidade, a dança que não é exatamente dança, ou que não pode ser elaborada de forma sistemática. Venho há muito tempo sentido uma tendência muito grande nacionalmente, pois venho participando de muitos festivais pelo Brasil e vejo que tem sido padrão, trabalhos cada vez mais padronizados, isso me deixa muito intrigado e quero correr contra isso, preciso nadar contra corrente. Ouvi dele com um leve sorriso: Dance! Mova-se! Quem sabe vc não seja a pessoa que dança? Isso me soou tão bem, foram as palavras que precisava para libertação. Desde o começo do Colaboratório 2010 vinha sem me achar definitivamente em nenhuma das propostas, não conseguia me enquadrar muito bem nos “grupos”, até me identifiquei um pouco com grupo do “Discurso” (Junior, Gimena, Darwin e Jasmim) mais ainda faltava algo. O certo é que só agora pude realmente me tocar pra questão da dança na minha vida, do meu relacionamento com a dança, dos movimentos primários instalados no meu corpo. Ricky também me disse pra falar de nós, que tinha curiosidade de conhecer nossa história com a dança, interessa muito a ele nosso indivíduo, nossa origem. Mostrei então no sábado um apanhado da minha história com a dança que começou em Amarante minha terra natal que fica a 164km de Teresina onde morei até 19 anos.

Na infância tive a influencia da Xuxa, pois como minha mãe trabalhava pela manhã eu ficava sozinho e fui praticamente educado por ela.  A dança do “passarinho quer dançar” foi o primeiro contato com algo estruturado eu tinha seis anos e me apresentei na festa das mães, nesse processo descobri o fascínio pelo figurino e o prazer de estar em cena, alguns anos depois veio a lambada, dançava com as amigas da rua que morava, depois tive a influência das danças populares como o Cavalo Piancó e Danças Portuguesas que danço desde os 13 anos de idade. Na adolescência as minhas influências foram os vídeos clipes de Madonna e Michael Jackson ou qualquer outro que dançasse. No Brasil amava e copiava Daniela Mercury e sempre quis ser uma “paquita” eu era tão impressionado com a Xuxa que certa vez sonhei com ela pousando sua nave no telhado da minha casa… Na época tinha uma vizinha que adorava botar a radiola para tocar e me chamava para dançar, eu me jogava e fazia um show que todos admiravam, era aií também que fazíamos muitas criações, ouvíamos de tudo, de Kaoma a Madonna, passando por Beto Barbosa, Daniela Mercury e RPM, foi realmente um período de fatura criativa, podia ter ali um espaço adequado para realizar minha dança. Na época minha cidade tinha forte atividade cultural, semana de cultura, aula de teatro, dança e música, me lembro de na época fazer praticamente tudo que a cidade oferecia. Foi com as quadrilhas juninas que pude começar a viajar e ampliar meus horizontes, era certo já nessa época com dezesseis ou dezessete anos a certeza de querer me dedicar à dança como profissão.

Com minha mudança pra Teresina, com dezenove anos, tive a primeira aula de balé, dança folclórica. Comecei a freqüentar as boates, a noite da capital. As primeiras aulas de dança com grandes nomes da dança piauiense com Frank Lauro, Sidh ribeiro, Luzia Amélia, as dificuldade da época, dançar em qualquer lugar, de chão sujo ou espaço insuficiente, a rotina de companhias como Balé Folclórico de Teresina me saciava toda aquela energia de dança eu tinha uma ânsia de correr atrás do tempo “perdido” foi nessa época também que comecei a desenvolver mais meu lado criador, quando junto com o Balé Folclórico de Teresina montamos a coreografia “A dança do calango” que representa pra mim o primeiro contato com a dança contemporânea, uma dança que questionava e que dava espaço para criação dos interprétes, foi muito importante ter participado desse processo, lá fiquei por cinco anos sendo que no ano de dois mil, crie junto com os amigos Luis Carlos Vale e Elizabeth Battali a Cia. Equilíbrio de Dança.

Essa residência com Ricky tem sido muito importante, pois tem nos dado oportunidade de reconhecer nossas motivações primeiras e também nos feito valorizar nossas formações mais espontâneas e menos acadêmicas, é incrível como muitas vezes sufocamos nossas raízes e deixamos de lado o que temos de mais originais e autênticos. Somos seres únicos e estamos sempre buscando ser padrão, estamos sempre atrás do que está em alta e valorizando o que nos é externo, precisamos muitas vezes apenas nos voltar pra dentro e encontrar ali muita coisa inovadora, muitos impulsos primários que só precisam de uma oportunidade para se manifestar.

Agora com essa questão posta à mesa começamos então a esboçar um trabalho muito rico, cheio de descobertas e liberdades, foi realmente um estalo criativo que vem aos poucos se expondo e mostrando um caminho fértil para todos colaboradores.

Valdemar Santos, Teresina 02 de junho de 2010.



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10 Comentários

  1. Eduardo Chaves disse:
    4 de junho de 2010 em 18:39

    Olà meu querido, lí seu texto e persebí que vc tem uma ebuliçao de ideias escondidas em seu intimo modelo metafisico. Fico muito feliz que no piauí vem tendo pessos corajosas à inovaçao, ao questionamento.
    Fique antenado sempre! Hoje moro em Goiânia. Mas mantenho um banco de ideia para o futuro da alma que dança. Gostaria muito de acrescertar a sua proposta de dançar, também estou em ebuliçao de ideias. Hj nao danço, mas tem algo dentro de mim que dança em ideias. Vc pra mim significa o sair do lado de cima de dentro pra fora de qualquer jeito. Arrase!!! e questione-se assim revolucionará, seja crítico. E saiba, ser crítico nao é falar mal e sim levantar argumentos outrora.
    Hj sou estudante de publicidade e propaganda mas quando terminar farei especializaçao em dança. Conte comigo sempre.
    Ah ! sei de todos so seus trabalhos montagens. Prabens!!
    Um grande abraço.
    Eduardo Chaves (espero que lembre de mim).
    BEIJAO PARA TODOS DA CIA <JANA < LAINE< LUCIANO MELLO E OUTROS


    Responder
  2. valdemar santos disse:
    4 de junho de 2010 em 22:21

    gente, eu sinto tanta coisa quando leio isso, passo a realmente saber quem sou, a cada leitura parece que uma nova questão se manifesta… fico feliz com os comentários que venho recebendo pelo texto.


    Responder
  3. elizabeth battali disse:
    6 de junho de 2010 em 22:45

    adorei o texto feito pelo val,,,´´e bem assim nostalgico,um desabafo,uma busca por uma dança pessoal ….enfim ….


    Responder
  4. jana disse:
    9 de junho de 2010 em 23:30

    val

    bom ouvir isso, compartilho de muita coisa que vc fala aí, lendo até pensei em alguns momentos: eu poderia ter escrito isso…
    mas vamo seguindo em frente, o caminho é árduo, dificil mas também é gratificante.
    é isso


    Responder
  5. elielson disse:
    10 de junho de 2010 em 18:52

    a minha também jana!


    Responder
  6. jana disse:
    10 de junho de 2010 em 23:07

    a tua o que? opinião?
    não entendi…


    Responder
  7. wilena weronez disse:
    11 de junho de 2010 em 12:08

    val..muito bom seu texto, me identifico com esse assunto: “quase regra de movimento não estruturado” q é um termo q tbm me deixa em questão…nem sei se de fato ele é real, só ouço várias inquietações sobre..mas tudo não é movimento e dança? penso q sim, daí então é um outro termo q devemos encontrar para essa ausência q nos deixa inquietos..
    para mim é um pouco engraçado isso tudo, já que não sou uma pessoa formada em academias de ballet ou grupos de dança, mas por exemplo, então não tenho fisicamente nenhuma influência, mas tenho a capoeira q é muito forte em qualquer coisa q eu venha a fazer..acho esse um assunto ainda não gasto, ms na verdade não para se chegar a uma conclusão de alguma coisa, ou ainda identificar diferenças, mas sim, saber o q é cada coisa e que é cadsa coisa q nos motiva..
    gostei muito do q vi no sábado, lá no galpão,fiquei feliz por vc ter me surpeendido, entendo ali no q eu vi, o valdemar q veio lá de amarente, e q assim como eu, ouviu muita xuxa na infância.


    Responder
  8. weyla disse:
    11 de junho de 2010 em 14:23

    Que bom vê-lo por aqui Val, sei que esse processo dentro do colaboratório vai ser muito rico.

    Concordo tb em muitos pontos com você e confesso que tenho feito pouco o exercício de olhar pra minha origem…
    Agora ta passando um filme ao reverso na minha mente, e não tô conseguindo chegar la no começo.
    Bem! continuo aqui tentando.

    PS:O ruim dessa não dança, é que muitas vezes isso não é uma escolha clara, mais parece um disfarce ou um entrave pessoal.
    Weyla


    Responder
  9. mariana disse:
    22 de junho de 2010 em 18:32

    Fiquei orgulhosa!! bjs mari


    Responder
  10. Suzana Bayona disse:
    8 de julho de 2010 em 0:37

    Olá, gostei muito de ler vc! Partilho destas inquietações. Tenho visto cada vez mais esta tendência ‘não dança’ e meu corpo se remexe questionando:cadê???? A dança!!!! Sem extremos… A busca por uma dança autêntica, não codificada, não formalizada, mas que enfim, preserve a essencialidade da dança… São questões que me povoam, ainda sem certezas, sem palavras concretas.
    Boa sorte no teu trabalho!


    Responder

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Comentários

  • ju: Muito bonito! Tem muito caldo nessa idéia de baiar e exceder a individualidade a partir de um ambiente gerado por...
  • Kayoo': Muito Bom Muito Lindo e Muito “Estigador “
  • Layane Holanda: pois é tem um tom meio “bacaninha” mas sabia que eu gosto da cara de pau, é meio...
  • L.H.: que lindasssssss……so peguei os vestigios, comentários e impressoes da tarde. Que lindo o...
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