A ocupacao como front, barricada ou fortaleza inerte. Nao foi Arrabal que escreveu pic-nic no front? Morrem os olhos de Elizabeth Taylor, a Cleopatra do seculo vinte, a gata em teto de zinco quente. O mundo continua la fora e sou reporter irresponsavel no entra e sai desse front. O lugar vai se transformando em totem pessoalizado, arquivando na estrutura de madeira, na mesa e cadeiras, no poste reticente da fachada improvisada, a disposicao espacial de uma moradia. O front favelado colorido, alegre, dinamico, a cara do brasil, como nos dizia com ares de tonta a nossa ministra da cultura. A favela como verticalizacao da falta de espaco (nao necessariamente espaco fisico) e como substituto para os arranha-ceus que tambem se precipitam nos ares das grandes cidades. O varal de pecas de corpos a serem montados, a performatividade que espera secar antes de ser encorpada. Favela e carnaval e parangoles destrocados. Lembra um espaco Oiticiquiano ou um dormitorio japones, num high-tech tropicoriental de crioulo doido. Lembra a pequena sala de projecao na colina de Dharamsala, de onde se podia ver as montanhas do Tibet. Lembra o Joao e o Jose operarios da construcao e o tal domingo no parque. E o barco que trazia amontoados o Fidel, o Che e os quarenta revolucionarios para fazer a revolucao cubana. Lembra os refugiados de Sebastiao Salgado na precariedade dos asilos politicos e penso na proliferacao desses campos de lugar nenhum pelos quatro cantos do mundo. A ocupacao como os olhos de Elizabeth Taylor quando insistia na penetracao desse olhar em um close up para a camera, e a samambaia de plastico e latao como estandarte desse front. Front nao como protesto exasperado, nao como manifestacao contra ou a favor de nada, nao como greve de fome ou sacrificio politico para chamar a atencao, nao como vigilia em noites brancas ou tour de force competitivo, mas como direito legitimo a uma territorialidade simbolica pouco requisitada nesses tempos de guerra fria. Front para seguir fazendo o desfazer, para demarcar e resistir aos abandonos de causa e aos automatismos recorrentes. Front como suspensao da realidade adversa de tregua controlada. front como metafora germinativa e multiplicativa de um lugar comum.
12 de abril de 2011 em 11:33
Leio o texto super bem escrito e não penso enquanto leio, porque ele entra em mim não da forma habitual, via “encadear de palavras-formar idéias a respeito”, mas via sentir: entra pela pele, pelo buraco dos olhos, caindo no núcleo de mim (sem paródias ao do Dirceu). E é de lá que a coisa funciona. É de lá que pude perceber, por alto, o que acredito ter sido essa ocupação. Uma trincheira sem inimigos visíveis, e que ia além das questões objetivas e burocráticas que os massacram com projetos e contratos de cláusulas leoninas, governo de desigualdades ditatoriais. Os inimigos estavam para além disso: lutavam por algo que fala de dentro e que nos faz continuar sempre, para um lugar cujo nome desconhecemos, mas que nossa insistência nos diz que ele existe. Um lugar interno, a favor da continuidade de nós mesmos, essa que nos faz sentir coerente e inteiros, um lutar pelo que se acredita, o que no fundo é lutar por si mesmo como ser humano, inserido na nossa realidade tão brasileira. Esse estado de sítio deve ter feito a todos mais fortes e mais maleáveis para saber a hora de resistir e a hora de seguir o fluxo. Estou com vocês, lamentando que essa performance-experiência tenha sido acompanhada por poucos: disso devia se ocupar a mídia…