Gogoinhas: fruta, pertencimento e sabor

Por: às 23/01/2012 04:54:41

 

 

 

 

Nas eliminatórias da  battle dirceu que rolaram no galpão, as gogoinhas tiveram uma colocação muito simples: inventar uma espécie de tênis que pudesse representar, dizer algo sobre cada um e fazer isso com tudo o que estava disponível naquele momento.

Nem todo mundo pôde estar lá na batalha, estávamos apenas eu, Caio e Danielzim. Mas o que estava lá de importante era  um monte de pensamento, um monte de coisa comum, gerada  por nós durante esse tempo de trabalho. E esse não é o tipo de coisa que se tenha dono,  é coisa nossa e de quem quiser.

Essa foi uma forma de pertencer e dialogar com essa cultura do break que nos cruzava. E essa cultura  valoriza exatamente isso:  maneiras de se representar como individualidade a partir de um lugar comum.

Essa idéia é coisa vivida e exercida de muitas formas:  em seus tênis sempre muito particulares, nas suas cores escolhidas a dedo, nas tranças inventadas dos cadarços, nos desenhos e palavras que eles carregam, nos bonés, nas camisetas e no jeito singular de se mover. Para um bboy  é importante colocar o seu  ”sabor” como bem disse o FFive na oficina que deu no galpão nesse último  sábado.

Até hoje nesse trabalho com as gogoinhas tem sido muito marcante esse processo de pertencimento, de reconhecer como nosso tudo aquilo que nos cruza. Esse nosso não é um nosso que rouba, que tira, que subtrai. É um nosso pertencido, agregado, de soma, de fortalecimento. Uma palavra que a gente usa sempre pra falar sobre isso é apropriação, o que na verdade pra mim é apenas um entendimento de cultura  e conhecimento como lugar compartilhado, comum, sem dono.

Assim como a gente já pratica e entende muito bem no mundo virtual com as nossas práticas diárias de copiar, colar, baixar, fuçar, cortar, sobrepor, mexer, transformar, subir, compartilhar…  Por enquanto seguimos nessa, apesar das grandes empresas americanas de entretenimento estarem muito preocupadas com quanto dinheiro perdem com isso.

Viva! O  SOPA  foi vetado essa semana e ainda há esperança de que nem tudo seja mercadoria nas nossas vidas.

“A internet foi a “chave para libertar as informações das limitações físicas. As informações pertenciam ao mundo, não a alguma entidade que pudesse apropriar-se delas. Essa ideia simples é tão poderosa que reordenou setores inteiros, da mídia ao varejo, e aos bancos, e muito mais. E o seu impacto político e social – potencialmente maior – apenas começou a aparecer” (http://www.correiodeuberlandia.com.br/artec/2012/01/22/mosca-na-sopa/)

Que assim seja!

Vetado ou não as gogoinhas seguem fazendo exatamente isso. Nós estamos o tempo todo engolindo, processando e devolvendo tudo aquilo que nos atravessa nesse galpão e na vida. Quando as botas da Ana Dupas (http://www.nucleododirceu.com.br/gogoinhas-la-bas-boots-2/)  cruzaram a gente, nós quisemos nos apropriar delas e já imediatamente essa bota bonita do frio paulistano se transformou numa bonita profusão de formas, detalhes e invenções feitas de fita adesiva, papel e post it. Aconteceu aqui exatamente o que esse trabalho parece propor quando oferece nele instruções, caminhos para essa apropriação acontecer.

Talvez o  mais importante de um trabalho seja exatamente aquilo que ele pode gerar.

Se colocar e construir a partir do agora, a partir do que se tem, do que se sabe, do que se é, abrindo portas ao que se pode ter, ao que se pode saber e ao que se pode vir a ser… se colocar dessa forma foi a maneira de agregar algum pensamento a essa prática de colocação dos bboys a partir dos seus tênis. Um jeito de pertencer e de oferecer algum sabor nesse dia movido aqui do galpão… na quebrada do Dirceu e do mundo.

 

 

 



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6 Comentários

  1. Jell disse:
    23 de janeiro de 2012 em 12:09

    é a internet existe.
    esse existir me faz querer que o compartilhar não fosse necessariamente dependente
    da velocidade da conexão. Se voce me diz que tem um pen drive com 3G de coisas no momento
    eu te digo que tenho outros tantos Gb tambem… eu copio do teu e tu copia do meu,
    ninguém arranca do outro, nós nus copiamos… voce ficará com mais de 3 e eu com 3 a mais.
    compartilho da ideia que não existe subtração nessa operação.
    mas acho que se a gente não se atenta para nossa (tambem) responsabilidade de colocar
    corremos um serio risco de cair nesse lugar de subtração, não que ele seja proibido, perverso ou violento… só entendo que a operação precisa ser clara, são muitas ao mesmo tempo né?! então dai a dificuldade, enquanto um jovem da cidade de guaribas baixa o disco cover to cover do jeff healey o Dono do site toma bons drink na New Zealand, ou não. deve ser a tal contemporaneidade.. só sei que eu tambem sou gogoinha


    Responder
  2. Julina França disse:
    23 de janeiro de 2012 em 18:27

    Massa Jell! Nesse momento estão acontecendo muitas mudanças, novas configurações pra esse trabalho e a expansão desse pertencimento- ação pode ser fundamental.
    Na internet compartilhar não é uma responsabilidade, é simplesmente algo que as pessoas querem fazer o tempo todo. Isso acontece porque compartilhar é pertencer. Elas em geral não fazem isso porque vão ganhar alguma coisa na mesma medida. Acho mesmo que inclusive é difícil ter medida pra esse tipo de coisa. O mundo que a gente vive nos inclina a transformar tudo em mercadoria, pensar as coisas dessa forma… a mensurar, a valorar o que nem se pode medir… a fazer esse tipo de conta… às vezes transformar nós mesmos e o nosso trabalho em produto, se a gente vacila um pouquinho, acontece. É a inclinação atual das coisas. Acreditar que estamos perdendo numa troca com o outro pode levar a gente a realmente perder alguma coisa, de repente o que existe de mais importante.


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  3. Layane Holanda disse:
    24 de janeiro de 2012 em 14:34

    Jú mulher, eu tô mesmo curiosa é pra entender como fica esse projeto lindo, essa coisa que se desenha diante de sua colocação aqui ( e como te falei perdi a tal conversa pela manhã na semana passada). Porque entendo que é algo seu e do Caio, mas de alguma maneira o Caio está aqui como produtor (e também como artista claro)…. enfim… tô meio boiando sobre como isso não vai ” escorregar pelos dedos”….. me entende?

    E tô trazendo aqui, porque de fato nessas cruzadas rápidas que a gente tem tido nunca dá de conversar, né!
    bjo =)


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  4. A\ disse:
    24 de janeiro de 2012 em 15:03

    é absurdo o q vejo desses cruzamentos, contaminações, furtos, copias, colagens… td isso para ver interesses compartilhados que geram potências desse lugar comum de onde nos vemos e aparecemos. vcs ai, pensando sobre as botas chiques de ana dupas na comilança de tudo aquilo q devemos nos apropriar sendo gogoinhas. pra gnt se transformar meio juntos, meio separados entre o q podemos compartilhar. do que tentamos disponibilizar além do nosso “Imbigo” privatizado, pirateado, roubado… gogoinha sou qndo me dizem q isso não é meu. q é do outro q tbm sou eu. meus direitos quero reservar pra ngm me roubar e eu deixar de ser gogoinha.


    Responder
  5. ju disse:
    27 de janeiro de 2012 em 20:16

    Lay, é muito bom ver você, Marcelo e de alguma maneira o jell reconhecendo de formas diferentes a importancia do projeto, pegando pra si e se preocupando sobre como ele pode continuar depois da minha saída. Nessa manhã que você não estava, nós decidimos essa saída juntos, somando ai um monte de implicações e circunstâncias para além desse projeto específico. De qualquer forma acho massa mesmo a gente tomar um tempo pra conversar sobre isso mais detalhamente.
    Diante dessa decisão, surge essa responsa de como fazer essa transição e de como gerar uma situação ao máximo favorável pra continuidade desse trabalho. Eu e Caio temos pensado em duas coisas fundamentais nesse processo: intensificar o envolvimento e o comprometimento com o trabalho pelas próprias crianças e abrir mais e mais para os artistas que não estão trabalhando diretamente no projeto de forma mais intensiva o que estamos fazendo, o que estamos pensando e criando. Assim a gente aumenta essa sensação ai de pertencimento que o Jell colocou e pode gerar outras parcerias de trabalho que movimentem pra frente esse projeto.
    Então estamos mesmo trabalhando pra propor um intensivo gogoinhas.Estamos fechando esse combinado com as crianças e viabilizando com a escola ao lado (onde a maioria deles estuda) espaço físico pra esse intensivão. Isso tudo já está quase fechado. Diante disso virá uma proposta da gente de mostras de processo semanais que poderão acontecer durante quatro ou cinco semanas, a depender das necessidades do trabalho e dos feriados que se aproximam de carnaval.
    Garantir mesmo a continuidade é difícil, mas estamos totalmente comprometidos com isso.
    Essa é a minha prioridade artistica hoje… gerar essas situações… jogar bastante adubo pra florescer essas sementes que já são desde sempre de força independente da minha presença.
    Se tantas pessoas entendem que o trabalho é importante eu acredito que elas já estão se movendo na direção e responsabilidade de cuidar disso junto comigo, com o Caio e com as crianças. Essa é uma hora importante de chegar junto!


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  6. Jell disse:
    29 de janeiro de 2012 em 11:58

    http://www.nucleododirceu.com.br/eu-sou-gogoinha/


    Responder

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Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

Comentários

  • cipó alvarenga: o problema é que falamos muito através de metáforas e de exemplos que estão bem fora do que a coisa é...
  • Jell: rsrs acho que sofrer um pouco com esse dilema me mostra que tou vivo… acho que dá pra ser feliz mesmo...
  • Jell: se eu fosse só no mundo, acho que eu não gostaria de ser artista ou banana na penca. penso que tou mais pra...
  • Layane Holanda: Rossi queridona, boa tua visita, demais. Vamos conversar mais pelo face. Bjo do calor. =)
  • cipó alvarenga: acho que o texto está muito organizado em tópicos e não aprofunda muito o que pode aparentar uma...

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