Um homem caminha no meio da rua na direção contraria aos carros, no meio da linha pontilhada de branco que divide a via. Caminha na direção do transito e recua de costas com passos largos. Uma mulher da voltas em torno de um homem, casais dançam na grama. Uma banda toca dobrados num coreto improvisado. Uma repórter de TV deita no chão com o cabelo pro lado e se deixa mapear na calçada. Um carro para. O homem caminha de quatro patas na direção dele. Uma mulher se deixa escrever por homens na própria pele. Um grupo de bboys dançam sincronizados, uma mulher sobe na arvore e a outra entra num táxi. Um grupo de pessoas invadem o táxi, a mulher sentada na frente fala sem parar, todos falam ao mesmo tempo. O motorista escuta. Um casal se beija na boca na traseira aberta de um carro chique que quase os leva embora. Depois ele veste a roupa dela e ela a dele e passeiam abraçados. O homem avança na direção de um caminhão branco enorme e desvia no ultimo momento. Fica de cueca no meio da rua e se lambuza de maizena. O publico aplaude os carros e as motos ziguezagueiam com seus clientes de capacetes. Estamos na avenida Joaquim Nelson no bairro do Dirceu em Teresina. A banda toca Roberto Carlos e um homem senta numa cadeira de plástico e cobre o rosto com a camiseta azul. Um outro acrescenta uma placa de pare naquele corpo. Um homem corre de joelhos arqueados pintado de vermelho feito homem-macaco-aborigena. Um grupo se prepara para dar uma largada. Algumas crianças brincam de seguir passos desenhados em papeis colados na escada, o fotografo dispara sem flash, uma mulher filma o movimento e tenho a certeza sincera de que meu olhar não vê tudo. subversivo, subjetivo, desnorteado, meu olhar apenas perambula fazendo escolhas sem conseguir abarcar.
Marcelo Evelin
Fotos: Júnior Araújo
15 de fevereiro de 2008 em 16:57
mas o olhar não tem como abarcar tudo não, Marcelo.
não quando tem dezenas de pessoas felizes à sua volta, cada uma à sua maneira, cada qual com seu cada qual.
15 de fevereiro de 2008 em 20:20
do lado de biciletas, com rapazes de boné, cinco com braços cruzados:
“aquele ali cara! o careca”
Uma senhora se aproximou e perguntou pra mim: “é uma apresentação é?” – pausa – uma rápida conversa. Ela me mostrou a casa dela, fica na avenida. Ela sempre fica na calçada a noite. Resolveu enfim chegar mais perto do teatro.
Na rua de lado do teatro do fundo uma familia vinha, crianças(risos) na frente correndo pra ver que barulho de música era aquele , dessa vez tinham saído de casa na hora da novela porque tava acontecendo alguma coisa.
O seu Cosme o taxista, tava assombrado, um monte de gente entrou no táxi e do lado de fora aplaudiram e gritaram o nome dele em coro.
Já perto do fim uma corda, um contorno de pessoa num carro, a banda na grama, um som de carnaval, gente correndo, pessoas olhando, público misturado, os funcionários da arca do zé saíram e ficaram na calçada.
O onibus teve que passar bem devagar. Aqui no Dirceu isso é muito comum exatamente ali naquela esquina , todo fim de semana tem aglomeração de gente, num forró disputado perto da caixa d’água. Dessa vez era alguma outra coisa, e aí que o espaço era resignificado com a mesma aglomeração de gente, com um monte de bicicleta e moto. Com um outro tipo de barulho e ação.
Não dava mesmo pro olhar “abarcar”.
E até dá pra escrever de outro jeito sobre como foi essa ação dentro do instantâneo. Mas falando assim fica mais fácil, eu acho, de imaginar como foi essa abordagem caótica, barulhenta e desestabilizante.
Deu uma sacudida!
15 de fevereiro de 2008 em 23:31
a minha curiosidade agora é saber como vão ser as próximas quartas feiras…será que o efeito dessa sacudida acaba na hora de entrar no portal sagrado do teatro e ver o que acontece ou se esse efeito vai reverberar por lá?
(espero sacudir as cadeiras do teatro…)