Infância Serious Business

Por: às 12/04/2010 19:16:37

O trio de (heart)breakdancers do Núcleo do Dirceu, Alexandre Santos, Cleyde Silva e César Costa continuam à 350 km/h na elaboração do espetáculo “Para 3 falta 1”. O ponto de partida do projeto é simples: Colocar dois elementos centrais em obra. O primeiro, uma retrospectiva do envolvimento com a dança – da raiz do breakdance, até o diálogo aberto contemporâneo. O segundo,  um retorno bruto a tudo que ajudou a construir a infância dos três – crescer no bairro Dirceu, periferia de Teresina, e a relação com os ícones, símbolos e costumes de quem foi criança na década de 90.

Foto: Valério Araújo

Todo processo de pesquisa tem sua essência no resgate.  O estudo do espetáculo furta das lembranças de criança deles, um mundo onde a retrospectiva de seus envolvimentos com a dança podem atingir. As dificuldades de viver em uma periferia são postas ao lado da criatividade infantil em conseguir enxergar brincadeira aonde parecia não ter.A produção também é uma tentativa de expor o reconhecimento do corpo no processo de amadurecimento do trio – fisicamente, e como dono de uma linguagem própria.

Foto: Valério Araújo

Em conversa com o César, eu ouvi um pouco mais sobre as tais lembranças de infância. Uma das intenções do três, segundo ele, é colocar na dança exemplos diretos do que eles faziam para se divertir bem antes de entender o corpo como veículo pensante. Estão no “Para 3 falta 1” os elementos do pique-esconde, do pula-corda, do pega, da música, do vídeo-game e de toda uma sorte de hábitos que eram tão comuns em outrora.

Foto: Valério Araújo

O espetáculo, em fermentação há mais de um ano, foi apresentado na forma de processo em duas ocasiões. Em julho de 2009, na edição do coLABoratório que contou com a ação e participação da bailarina, coreógrafa e atriz Denise Stutz, e em dezembro do mesmo ano, durante o encerramento do  coLABoratório em ocupação do Teatro Cacilda Becker, no Rio de Janeiro. Em sua fase de conclusão, o espetáculo conta com o filtro crítico do olhar externo de Elielson Pacheco, artista e  também integrante do Núcleo do Dirceu.

Childhood goes artish

“Para 3 falta 1” me lançou um convite para retornar a infância dos anos 90. “Gangue do bairro”. Futebol no asfalto. Pipa. Pular muro pra roubar manga. Reservei um tempo pra pensar como, por mais que o discurso pareça repetitivo entre todas as gerações, é cada vez mais raro esse tipo de manifestação em crianças do hoje.

Já não é bizarro pensar em mini-pessoas de 7 anos de idade trocando o tempo fora da escola por controles gigantescos de vídeo-games ultra-elaborados. Playstation 3 com hard-drives em Bluray está aí reforçar a fala. E um dos principais momentos que torna a geração dos 90 especial é estar no olho do furação e na zona de litígio entre um conceito clássico de infância e um novo – atravessado em diagonal por todas a imersões tecnológicas.

Pesquisando a partir nas revisitas oferecidas pelo “Para 3 falta 1”, e o universo do vídeo-game, eu tentei encontrar na internet alguma forma expressão artística  de pessoas deste nicho cultural que, em determinadas proporções e diferentes maneiras, arriscam um garimpar.  Um olhar adulto sobre o que os símbolos da infância da geração dos 90. E a imagem abaixo não poderia ser mais literal.

O Mario "real" de Pixeloo

Em 2008 uma mania ferveu no underground da internet mundial. São os Untoons. Versões literais, com traços físicos e veias de hiper realismo nos heróis do videogames e dos quadrinhos. O site Knowyourmeme, especializado em explicar a origem de material viral na web, credita o possível início dos Untoons a desconhecido artista gráfico chamado Jax Pixeloo. O especialista em photoshop fazia por hobby o que faltava em cima da rua rotina: Diversão. Quase todas as versões são absurdamente assustadoras.O caricato é respeitado à risca.

Badass Mario do 4chan

A moda pegou e multiplicou-se. Grande parte das mais variadas versões são originárias de um dos lugares mais obscuros e criativos da internet, o 4chan. No site, que funciona basicamente como um fórum de texto e imagem anônimo de conteúdo adulto, usuários do mundo todo aderiram à mania e reproduziam suas próprias ‘reformulações’ de seus ídolos. “Untoons” cresceu e transformou-se em algo além. Batizado informalmente da forma mais genérica possível, nasceu ainda em 2008 o Alternative Art. Releituras sem regras estéticas fixas, de ícones dos quadrinhos, games, desenhos e filmes dos anos 90.

Mario Samurai, Yoshi Selvagem e Koopa Mitológico. 4chan.

E de dois anos pra cá, o pandemônio visual cresce gradativamente. Cultura pop tem um novo significado em imagem dentro da internet. Intuitiva, de senso comum e completamente aleatória, ela começando a rasgar do virtual pro real. A arte que era restrita ao submundo da web começa a ganhar a atenção dos grandes focos. Uma das provas em resposta é o deviantART, a maior rede de relacionamento entre artistas gráficos do mundo, já tem grande parte de sua produção completamente submersa na tendência, ou como força a persistência, da nova proposta de resgate.

Várias formas de elaboração e públicos diferenciados. Sendo representativo ou propondo um diálogo, uma pergunta é cabível, passando do “Para 3 falta 1” até as galerias do deviantART: Existe dúvida de que na infância dos anos 90 está um material rico a ser trabalhado? Ninety feelings.



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1 Comentário

  1. L.H. disse:
    13 de abril de 2010 em 0:34

    Aê igor, adorei o link com a coisa dos untoons. Massa!

    Já topei com vários trabalhos desses na net, mas nem sabia que tinha um nome, porque tem muito artista que trabalha com hiperrealismo. Ainda nessa linha de universo pop (relação infância-games-consumismo) tem também as várias tribos do japão que sao referecnia na moda, as Harajuku girls…. ali a coisa tá mais mistrada ainda, não é apenas uam referecnia, é quase uma outra identidade, entre avatar-corpo-personagem.

    Agora, essa coisa do alternative art que você tava me falando, bem malicia esse nome né, e ainda nao tinha visto referencia a essa espécie de “movimento” em lugar nenhum. (hum!)

    Nossa tava pensando agora, se os meninos do para 3 tiverem afim tenhos umas referencias aqui no meu favoritos…. vou leva-las pro menu, entao vamo cruzar as coisas aí.

    bjo.


    Responder

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Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

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Comentários

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