Um homem caminha no meio da rua na direção contraria aos carros, no meio da linha pontilhada de branco que divide a via. Caminha na direção do transito e recua de costas com passos largos. Uma mulher da voltas em torno de um homem, casais dançam na grama. Uma banda toca dobrados num coreto improvisado. Uma repórter de TV deita no chão com o cabelo pro lado e se deixa mapear na calçada. Um carro para. O homem caminha de quatro patas na direção dele. Uma mulher se deixa escrever por homens na própria pele. Um grupo de bboys dançam sincronizados, uma mulher sobe na arvore e a outra entra num táxi. Um grupo de pessoas invadem o táxi, a mulher sentada na frente fala sem parar, todos falam ao mesmo tempo. O motorista escuta. Um casal se beija na boca na traseira aberta de um carro chique que quase os leva embora. Depois ele veste a roupa dela e ela a dele e passeiam abraçados. O homem avança na direção de um caminhão branco enorme e desvia no ultimo momento. Fica de cueca no meio da rua e se lambuza de maizena. O publico aplaude os carros e as motos ziguezagueiam com seus clientes de capacetes. Estamos na avenida Joaquim Nelson no bairro do Dirceu em Teresina. A banda toca Roberto Carlos e um homem senta numa cadeira de plástico e
cobre o rosto com a camiseta azul. Um outro acrescenta uma placa de pare naquele corpo. Um homem corre de joelhos arqueados pintado de vermelho feito homem-macaco-aborigena. Um grupo se prepara para dar uma largada. Algumas crianças brincam de seguir passos desenhados em papeis colados na escada, o fotografo dispara sem flash, uma mulher filma o movimento e tenho a certeza sincera de que meu olhar não vê tudo. subversivo, subjetivo, desnorteado, meu olhar apenas perambula fazendo escolhas sem conseguir abarcar.
Marcelo Evelin
Fotos: Júnior Araújo