O ensaio geral do Matadouro em Kyoto foi tenso, desarticulado, ansioso, desconectado, cheio de vacilo, foi um extremo. Foi uma experiência ruim dessas que a gente reflete depois. Uma apresentação fechada para imprensa e poucos convidados que nos confirmou o obvio: nesse trabalho é impossível agarrar algo, porque isso se aproxima de uma certeza e certezas são na verdade formas. Matadouro para existir em toda sua delicadesa parece precisar estar conectado a outras delicadesas… linkado a outros sentidos, precisar acontecer a partir de cada contexto em que se apresenta, para aí sim, poder existir no corpo de cada um. Guardada as proporções o ensaio geral nos confirmou que esse espetáculo não está lá depositado no lugar da memória, onde você simplesmente resgata ou aciona, não existe o “eu já sei, eu consigo”. É sempre sobre uma disponibilidade, um estado que se precisa construir, alcançar, que é necessario encontrar juntos.
Por mais que a clareza e a compreensão desse trabalho exista e seja algo tangível, por mais que se tenha as experiencias anteriores, ainda sim, ele não é algo estanque, estável que se possa segurar, não dá pra performar a partir de um “ok! chegamos num ponto com esse trabalho, agora é fazer o Japão”. Quando por um segundo nos distraimos com a cidade, com a euforia, com os corpos novos, o espetáculo no ensaio geral simplesmente não existiu, não aconteceu. E aí só nos restava entrar lá… meter o dedo nesse lugar de risco e lidar com a fragilidade em que a obra se coloca (e nos coloca).
E isso é só o inicio, o começo, o dia anterior a tarde do Japan Premiere Matadouro.
Marcelo nos traz algumas coisas: a morte de Steve Jobs, um trecho de Haruki Murakami ( + Do que eu falo quando falo de corrida) e uma notica de jornal sobre protestos na Arabia Saudita, único lugar do mundo onde mulheres não podem dirigir carros. Falamos do papel da mulher nesse espetáculo, Bebel e a presença forte dela no encontro com todos em Teresina, falamos de priquito, ideologia, e aí Cleyde chorou, depois falamos sobre a frase clichê do Steve Jobs numa palestra a estudantes “viva cada dia como se fosse o último, e UM DIA isso vai fazer sentido“…. ouvimos o trecho do Murakami que um dia decidiu que começaria a correr e desde então todos os dias ele simplesmente corre. E a partir daí tudo foi se cruzando se misturando, se costurando de tal forma que eu nao conseguiria reproduzir agora como isso atravessou o ensaio, a apresentação, nós.
O espaço onde Matadouro se apresentou era uma grande sala, o auditório de uma antiga escola, com uma porta grande e pesada ao fundo, onde aconteceu o paredão. Foi por esta porta que o público entrou, silencioso, concentrado, mas em fluxo, invadindo e preenchendo o espaço. E talvez porque as pessoas entraram em bando, não se deram conta de início da presença do Fábio, um gato nú segurando um bumbo orbitando no meio do espaço. Quando se percebiam ele estava ali do lado, caminhando misturado, muito próximo. Foi engraçada essa primeira relação do público com a peça, tinha uma certa timidez, ou um certo desconforto dos Japoneses com aquele corpo nú ali andando na mesma condição que todos. Mas claro isso variava . Os mais jovens tinham um certo frisson, uma euforia que escapava em gritinhos e risinhos e comentários com o colega do lado. Aliás, via de regra os mais jovens vibraram com o espetáculo, no primeiro dia, dois em especial quase correram na peça, riam, interagiam e pareciam não acreditar no bloco de gente nua que lembrava carnaval (imagem que possivelmente eles devem consumir do Brasil). Mas o público não era essencialmente jovem, lembro bem de um senhor sério que no segundo dia sentou próximo a mim e que curiosamente já no inicio do Matadouro olhou o paredão e solenemente fechou os olhos. E não como quem dormia, como quem respeitosamente se retira. Fiquei intrigada me perguntando se aquilo era alguma escolha relacionada ao nú. Nunca saberei.
A experiência com o público Japonês foi definitivamente única. Era como se pra eles, não fosse preciso ter necessariamente uma opinião sobre, então não existiam os dois extremos ”gostei” ou “não gostei”. Observando as pessoas me parecia que não existia ali um julgamento, uma avaliação ou comentário. Elas simplesmente recebiam, com uma disponibilidade impressionante, uma atenção cuidadosa, concentrada… e apenas se permitiam atravessar pelo que era apresentado. No primeiro dia os corpos sentados me chamaram atenção. Ao contrário da gente, que vai ficando cansando e afundando na cadeira, deixando a lombar fazer uma curva, o pescoço se enterrar, bambeando pro lado….os japas iam subindo, iam sutilmente movendo o pescoço, o ombro, movendo as articulações e colocando a coluna no lugar…e se enterrando nos isquios e mantendo ainda mais a postura. Quando cansavam eles não afundavam, eles alinhavam o corpo para continuar vendo, vendo vendo… subindo..subindo. Então eles iam crescendo junto com o espetáculo e chegaram no quarto movimento pra cima como a gente. Mas isso tudo era impressionantemente sutil, silencioso. O aplauso também era assim, constante – nem para mais nem para menos – apenas forte e constante como quem respeitosamente agradecia pela apresentação. Foi muito bonito desfazer a linha ocidental e de certa forma arrogante de agradecimento ao final do Matadouro comum nos teatros italianos. Os meninos exaustos suados, simplesmente entravam e andavam pela sala agradecendo ao público com o cumprimento japonês – o ojigi – a reverência que dependendo do contexto pode significar obrigada, oi, thau, desculpas. Cleyde entrou de Kimono e essa foi mais uma conexão delicada entre nós e aquele lugar tão distante.
Matadouro em Kyoto foi especialmente lindo. ^_^