Corpos híbridos, colonizados ou esquecidos?
O texto “Corpos híbridos” de Laurence Louppe trata basicamente do processo de hibridação na dança, mais especificamente deste processo no corpo do dançarino a partir da década de 80 até agora, época que historicamente aconteceu o que denominamos hoje de perda de linhagens. Para isso ele traz, discute e diferencia os conceitos de mestiçagem e hibridação para defender que hoje o que existe na dança são corpos híbridos e não mestiços e quais as implicações artísticas/políticas deste corpo.
Este assunto se relaciona com o meu objeto de pesquisa pois dialoga e traz elementos que contribuem com a investigação sobre a formação e a atuação destes corpos híbridos como uma outra espécie de técnica de dança. É a técnica de seleção do que interessa dentro destas várias informações e formações diferentes que o dançarino toma contato no seu percurso, cada vez menos pautado nas formalidades dos conservatórios e das grandes escolas e academias. O que acaba determinando a sua plasticidade e a sua corporalidade, o “tomar corpo” das suas questões é o processo de como ele seleciona e se relaciona com as informações que ele entrou em contato. E como isto é um processo sempre único e pessoal, os dançarinos que compartilham esta condição serão possivelmente corpos híbridos, com percursos de formação únicos e bem diferentes entre si.
Para dar base a este pensamento, partimos do princípio que o corpo é determinado tanto pelo ambiente cultural como pelo biológico e é entendido aqui como corpomidia, ou seja, ele é sempre um estado transitório das trocas corpo-ambiente e a qualidade da informação afeta o corpo em tempo real (KATZ &GREINER).
A formação do dançarino contemporâneo hoje em dia é feita com o contato – geralmente por pouco tempo – com diversas correntes de movimento, participação em projetos pontuais e descontinuidade da prática e do treinamento. É um corpo que não possui mais uma referência corporal constitutiva como eram os corpos até pouco tempo atrás, construídos coerentemente através de uma única técnica e visão específica, como o balé clássico ou a técnica de Graham.
As mudanças políticas no cenário da arte e conseqüentemente da dança fizeram com que este perfil de bailarino fosse perdendo espaço. A política pautada nos editais, o enfraquecimento das grandes companhias – públicas e privadas, o surgimento de outras formas de organização, como as cooperativas, os coletivos e os artistas independentes, criaram uma demanda e deram espaço para a atuação deste outro tipo de artista. É um artista articulado política e artisticamente, que escreve seus próprios projetos e é atuante e consciente da possibilidade de transformação que a arte possui no seu papel de cidadão no mundo.
É preciso distinguir aqui os termos mestiçagem e hibridação para defender a idéia de que o corpo do dançarino hoje é um corpo híbrido. Na mestiçagem, o que acontece é que os elementos são misturados, mas não são modificados em sua estrutura. Ela trabalha somando, acumulando diferentes heranças culturais e genéticas. De acordo com Laurence Louppe, o problema desta mistura na dança é quando ela se dá apenas pela forma do movimento e o corpo do dançarino não é tocado, como por exemplo quando se usa elementos de uma técnica moderna numa coreografia de balé clássico. É apenas um elemento diferente que é acrescentado, apenas pela forma exterior, sem uma discussão. Neste caso a mistura se torna ilusória e superficial, pois o que deveria ser “misturado” e modificado é na verdade tudo o que constitui a relação do artista com o mundo, o seu Umwelt (Uexkull,1992).
É só a partir do nosso Umwelt, que significa o universo próprio de cada um, que podemos nos relacionar com o mundo e só assim podemos criar arte. Então as informações diferentes que entramos em contato acabam também por modificar uma forma de pensar, de se mexer, de olhar e entender o mundo. É neste sentido que opera o processo de hibridação do corpo. Uma nova informação modifica e faz com que as outras sejam ajustadas ou perdidas para dar lugar a ela. É sempre uma reorganização constante.
A hibridação acaba sendo o resultado e o destino do corpo que dança hoje, resultado das exigências coreográficas e do mercado, e de um outro pensamento a respeito de sua própria formação. Este processo funciona muito mais pelo lado da perda, criando relação entre espécies incompatíveis, ao contrário da mestiçagem, que trabalha nos semelhantes. “O híbrido é, frequentemente, isolado e atípico, é o resultado de uma combinação única e acidental” (Louppe, 2000).
O autor fala de como a técnica e a formação em dança foram substituídos por uma nova “cultura coreográfica”, e aponta possíveis conseqüências desta nova realidade, como a dispersão das referências de elaboração corporal, um corpo que não se constitui a partir de uma consciência contínua de si, um corpo que é de uso múltiplo, sem referências e que atenua e quase que dissolve sua presença e seu gesto. Será que este corpo é de fato sem referências ou o que ele tem na verdade é este corpo outro, bombardeado de informações de todas as formas e que nós não estamos acostumados a perceber?
Este novo jeito de pensar formação em dança determina a dança destes artistas, e assim torna-se quase impossível a construção de um sujeito através de uma determinada prática corporal e a elaboração de zonas reconhecíveis neste sujeito – o antigo corpo padronizado. Discordando do autor, entendo isto como uma realidade enriquecedora, terreno fértil para a elaboração de novas danças, novos discursos e novas estéticas. É interessante porque dá espaço para a individualidade aparecer, para os diversos corpos pensarem dança como algo mais próximo e conseqüente com uma forma individual de se relacionar com o mundo. A questão é: diante desta situação, como pensar em como fazer arte e não apenas em repetir os modos de fazer que já existem? Como propor novas formas de produção e de criação?
O que observo e questiono é que a negação das técnicas codificadas como forma de elaborar e treinar um corpo para a dança fez com que muitos artistas largassem as salas de aula, e também qualquer tipo de treino ou prática corporal. Geralmente se treina de forma descontínua e por pouco tempo cada tipo de aula. Muitos nem treinam mais dança e sim esportes ou outras atividades físicas. Esta talvez seja a nova cultura coreográfica a qual Laurence Louppe se refere.
A dança contemporânea, por não ter mais uma estética ou um único corpo, trabalha e se justifica na diversidade, fazendo perguntas, no encontro de linguagens diferentes, no entre, no novo, no hibrido. E não existe uma técnica de dança contemporânea, mas muitas. Com este pensamento, não há lugar para pensar em uma técnica que sirva para dar conta de tudo que a dança contemporânea se propõe a questionar.
E esta nova realidade fez com que as questões, as inquietações ficassem cada vez mais longe do corpo, numa área da arte onde o corpo é obra de arte, é onde ela acontece e significa. Onde as artes são do corpo. Como fazer então para que as questões sejam incorporadas, “traduzidas” ou descobertas através do movimento?
O problema é que a dança contemporânea ficou sem corpo. O corpo saiu do lugar de potente gerador de discursos para ser apenas um executor de idéias teóricas, com pouco rigor, baseado no pensamento modernista do corpo máquina, e da teoria separada de prática. Um pensamento que hoje já se faz ultrapassado com o advento da pós modernidade e com ela novas formas de estudar e entender o corpo, como a neurociência e os avanços da biologia. O desafio que se traz aqui é como criar uma forma, ou diferentes estratégias teórico-práticas de trabalho e de rigor para estes corpos híbridos. Mas como então achar um rigor nestes corpos?
Richard Sennet em seu livro “O Artífice” compara o trabalho do artífice com o do artista e defende o princípio de que fazer é pensar e a importância das práticas corporais na produção de conhecimento, da repetição para o aprofundamento, do conhecimento que se dá no ato do fazer. Este é um consistente argumento para repensar o lugar do corpo na dança hoje e os modos de criação e treinamento destes corpos ,
O corpo colonizado
“A dança só faz sentido como projeto de contínua e cuidadosa identificação e crítica daquelas forças sócias, políticas e ideológicas que coordenam de modo sutil os meios de construção do corpo em sua relação com o tempo do mundo”. (LEPECKI, 2006).
Uma outra visão a respeito da formação corporal é tratado por André Lepecki em seu texto ”O corpo colonizado”. Uma importante e pertinente reflexão para os tempos pós-coloniais de hoje, de globalização e multiculturalismo sobre como ainda é muito forte a herança da tradição européia na dança, tradição esta surgiu como uma disciplina baseada em inquestionáveis premissas pedagógicas, éticas e estéticas, todas de acordo e atuando a favor e reforçando a noção de poder absoluto que vigorava na época.
O mundo e as formas de poder mudaram. Mas o que se observa hoje é que a herança colonizadora ainda se faz presente nos modos de produção em muitas áreas, dentre elas a dança. Na verdade este modo de produção colonialista constituiu, definiu e criou um chão para que a dança como forma de colonização existisse. Era a arte do corpo disciplinado, domado, submetido, padronizado, num chão onde o colonizador se permite mover sem nunca pedir licença ou tropeçar.
Por muito tempo no Brasil o que aconteceu foi a idéia de dança estar totalmente relacionada com o balé clássico tanto ética como esteticamente. E quando se trabalhava com criação e com outras técnicas, acaba-se reproduzindo os modos de produção operantes nesta técnica. E isto não aconteceu somente com a dança clássica.
A questão mais importante que podemos trazer aqui é de que modo a dança cênica pode e deve começar a descolonizar o corpo que ela move? A partir do momento em que existe a consciência da colonização, dos seus modos de operar, podemos trabalhar a favor de um corpo que potencialize discursos cada vez mais e que entenda a dança como uma forma de colocação consciente no mundo. Consciente da formação híbrida que ele possui e também das implicações do processo de colonização que passamos e que ainda existe em determinadas situações. É uma forma de trabalhar que opera na consciência e no rigor.