“Liberdade é possibilidade de escolha. A possibilidade de escolher pode ser interior, isto é, subjetiva ou mentalmente possível: liberdade de mente. Pode também ser exterior, ou seja, objetiva ou materialmente possível: liberdade de ação.
Quando mais numerosos forem os domínios que oferecem possibilidades de escolha e, em cada domínio, quanto mais variadas e numerosas forem as escolhas, mais haverá possibilidades de liberdade. Quando maior a importância para a existência for o tipo de escolha, mais alto será o nível de liberdade, isto é, escolha de meio de transporte, profissão, residência, vida.”
Antropologia da Liberdade, Edgar Morin
Como é possível ser livre sem que se esteja a par das possibilidades de escolha? Nesse pequeno trecho de Antropologia da Liberdade, Edgar Morin sugere uma idéia de liberdade (e vida) enquanto processo de desenvolvimento da percepção. Assim, transporta a discussão em torno da palavra para um universo que, antes de remeter á aquisição de coisa em si (a liberdade do mundo material: get free! adquira sua liberdade já!), propõe um olhar retrospectivo (e simultaneamente conseqüente) ao processo de construção de um estado liberto, ou seja, se refere ao termo liberdade não enquanto um conceito ou resultado, mas como síntese verbal de toda uma vivência, de uma experiência que se extende por um tempo maior (descompromissado com um produto final) e tão subjetivo que a urgência de fórmulas da sociedade de consumo não suporta. Em Antropologia da Liberdade, a liberdade é metalinguística, extrapola seu clichê contemporâneo.
É como se, através do texto, o filósofo mostrasse um objeto no qual os observadores pudessem perceber algo além da sensação estética imediata. Uma espécie de história e imaginação envoltos à coisa em si, que mesmo enquanto apenas cogitações, os fazem acessar várias outras sensações através da simples observação daquele objeto. Morin lança um problema cujas variáveis são infinitas (afinal, as possibilidades de percepção são infinitas) e o que importa não é a quantidade de respostas que se possui, mas a compreensão desse estado corpóreo de acessibilidade, de interação e constante reformulação do pensamento e da ação. Retórica. Educação enquanto criação de um raciocínio próprio, não como repetição de um dado final.
Na própria experiência de ler (nesse caso ainda mais específico, ler Antropologia da Liberdade), se tem acesso ao mesmo tempo à informação teórica proposta e à experiência sensorial sobre a qual o texto discursa, rompendo a polarização existente entre pensar e agir, fundindo-os. É aí que a proposta de Edgar Morin tem força suficiente para provocar uma mudança, para ampliar os campos de percepção sobre os quais ele próprio fala: na condução do leitor a um estado de conflito entre o que ele sente (ou considera sentir enquanto ser pensante e livre) e o que ele começa a visualizar enquanto sendo um estado desconhecido, de uma sensação apurada que ele não havia acessado anteriormente. O corpo, sob suspeita, lança um olhar sobre si mesmo e ,na busca pela compreensão desse estado de mais escolhas, se conecta ao princípio básico da descoberta:a dúvida sobre algo que há poucos instantes era verdade absoluta e já não é…se faz necessária então a disposição para experienciar, testar, se transformar em cientista, se mover.
Dia 12 de Setembro (sexta-feira), um espaço de discussão e leitura será aberto no Teatro João Paulo II. O provável horário das reuniões é das 11h às 13h e qualquer interessado pode aparecer para esse primeiro encontro. Os dois primeiros textos a serem discutidos são Antropologia da Liberdade (de Edgar Morin) e Aula (de Roland Barthes). Quem quiser receber os textos em pdf, pode colocar o e-mail na caixa de recados do blog do vivatosco! (ou comentar nesse post).
A gente pode, a partir desse começo, linkar os textos dessas sessões com os filmes exibidos no teatro. As sessões de cinema ainda não tem data fixa e é provável que, por enquanto, os horários fiquem sempre oscilando…mas isso é uma coisa sobre a qual se fala dia 12.
Outra coisa que está disponível é o livro Comunidade, de Zygmunt Bauman. Quem se interessar, pode tirar xérox do que está comigo ou receber por pdf mesmo.
Luana
(a reunião foi adiada pra sexta, porque não consegui postar no blog até hoje e tá muito em cima da hora. a sexta-feira não é o dia definitivo das reuniões. vamos procurar aí um dia que seja possível a todos que quiserem se conectar)
fotografia: santa sabotagem