
Reiniciamos os ensaios do Matadouro. Espaço vazio, os 8 em volta da mesa, a possibilidade de uma nova arrancada, outra fase de uma mesma luta. Trocamos impressões do que ficou em cada um da ultima etapa de trabalho, considerando as mostras de processo no Prufrok na Holanda e os feed-backs recebidos ali. Estamos em um momento de atualização do que foi levantado anteriormente para seguir em frente. Dessa vez a estirada de trabalho vai ate a estreia no Panorama do Rio.
O desejo de agora é não considerar nada a priori, não tentar continuar de onde paramos, mas estabelecer um campo de investigação apoiado no conceito de “campo” do Bourdieu, pensando em campo arqueológico (excavacao) e campo harmonioso (sonoridade) e a partir dai tentar tirar a carne do osso. Bourdieu traz ainda com seu conceito a ideia de “poder simbólico” que a meu ver pode dialogar mais adequadamente com uma proposta de arte, assim como a idéia de habitus, que seria o habitar da experiência, uma espécie de territorialização de uma determinada investigação ou pratica.
Tratar o corpo desses lutadores como um campo de forcas ou um corpo sem orgaos, corpo-sujeito-objeto de uma luta sem desfecho. No vocabulario de Foucault, o filososfo frances distingue tres tipos de luta (dominacao, exploracao, sujeicao) e escolhemos a terceira delas para conduzir a luta desse Matadouro: “a luta contra as formas de sujeicao que vinculam o o sujeito consigo mesmo e, desse modo, asseguram a sujeicao aos outros”. Foucault segue esclarecendo e trazendo essa ideia de luta para a luz da atualidade, na proximidade com o que vivemos no mundo de hoje: “…e’ a luta contra as formas de sujeicao, contra a submissao da subjetividade, a que prevalece cada vez mais, ainda que nao hajam desaparecido as lutas contra a dominacao e a exploracao, pelo contrario.”
Aqui abaixo o que foi escrito sobre o Matadouro na proposta de ocupacao do centro coreografico do Rio de Janeiro, que vai acontecer de 24 de outubro a 10 de novembro.
MATADOURO e’ a terceira e ultima parte de uma trilogia iniciada por Marcelo Evelin/demolition Inc em 2003 na Holanda com o espetáculo “Sertão”, seguido de “Bull Dancing” criado em 2006 no Brasil. A trilogia elabora-se em torno de questões relacionadas a uma identidade territorial e cultural deslocada, e ao dilema raconalidade X animalidade no homem contemporâneo. O espetáculo explora aspectos sociais, políticos e culturais brasileiros para dialogar com a multipluralidade do mundo globalizado, tomando emprestado para cada peça uma parte do romance “Os Sertões” de Euclides da Cunha, respectivamente A Terra, O Homem, A Luta.
MATADOURO investiga o corpo como metáfora de um campo de batalha, numa luta travada entre o oficial e o marginal, entre selvageria e civilidade, entre o humano e o inumano, que o lança no espaço subjetivo e intermediário do “entre”. Esse “entre” como margem deslocada de uma condição política, com o individuo em estado de exceção institucionalizado, como sombra de si mesmo, ou uma mera estatística subtraída da esfera dos direitos universais.
MATADOURO aborda o individuo em condição de corpo matavel, corpo destituído, deserdado e desqualificado pelos mecanismos de poder que modulam a existência, numa luta com caráter de resistência, como necessidade potencializada em desejo de desvinculação desse poder que investe a vida, transformando-a em sobrevida.
MATADOURO e’ um espetáculo criado por oito interpretes mascarados, entre bailarinos e músicos, que através de uma ação dinâmica permanente e continuada incorporam a luta em seu estado limite, em um espaço metafórico compreendido entre Auschwitz e Canudos, acompanhados pelo quinteto em C maior de Franz Schubert.
24 de agosto de 2010 em 21:56
Essa trilogia veio tomando uma potência muito interessante, enquanto ação peformática.Me deixa muito instigada enquanto artista e observadora.
Me parece agora, pensando nesse tempo que passou, depois de ter visto a cada criação outras possibilidades de abordar essas questões que tu traz, tenho a imagem de formação de bando, de agregação de membros, pois do sertão pra cá, cada vez o elenco veio aumentando.
Algumas palavras:
Sertão – Poesia – PARE!
Bull dancing – Carne – OLHE!
Matadouro – Grito – ESCUTE!
Tô exercitando.