Matadouro no Pais das Vacas Gordas

Por: às 01/04/2010 16:42:51

Chegamos em Amsterdam depois de uma viagem de muitas horas ziguezagueando entre fusos horarios, culturas e temperaturas distintas. De Cuba pra Sao Paulo pra Lisboa ate chegar aqui, num revezamento de malas e interpretes, digerindo um espetaculo pra encontrar o outro.

Na Holanda, antes de poder tomar pe em meio aos canais e confrontar a ideia de que essa ainda e’ de alguma maneira a minha casa, tivemos que sentar os cinco – eu, Fabio, Cipo, Alexandre e Jaap – para planejar a apresentacao do Matadouro que aconteceu no dia seguinte ao da nossa chegada. Reviramos nossos cadernos de ensaios, trocamos sugestoes, juntamos as notas rapidas feitas nos avioes e aeroportos, pra nos decidimos por um formato simples e aberto, de meia-hora, que nos possibilitasse testar o que ja tinhamos como material.

As apresentacoes aqui estao dentro de uma especie de Encontro-Mostra que se chama Prufrok. A palavra Prufrok foi retirada de um poema de T.S. Elliot, e significa no contexto do poema “sair para dar uma volta, voltando a atencao para as pequenas e insignificantes coisas vistas ao redor”. Tudo a ver com a ideia de um espaco para se mostrar e discutir processo, onde a prioridade cai sobre propostas hibridas, multidisciplinares, quando se aposta em lugares intermediarios, condicoes instaveis e temporarias.

O projeto tem um tema a cada edicao – o tema da primeira edicao foi “Luz”, o dessa “Ativismo” e o da proxima sera “Coincidencia” – e preve apresentacoes em 4 cidades do pais: Almere, Den Haag, Tilburg e Amsterdam. Sao tres projetos circulando juntos e dividindo um programa que comeca as 8 da noite e acaba depois das 10, com direito a correria na troca de cenarios, jantares com todos em volta de uma mesa antes dos espetaculos e feed-back de um pro outro no camarim. A ideia de Ativismo paira no ar, pontua o que vem sendo apresentado e de certa forma direciona o olhar do espectador. O que seria Ativismo em arte ou como arte nos dias de hoje? De que forma a arte pode se fazer como ativismo, e o que estariamos ativando?

Depois de ja ter feito Almere e Den Haag, ganhamos um dia de folga que nos chegou como um presente dos deuses, tamanho o cansaco e a desorientacao por termos pulado de uma peca a outra e de um continente ao outro. Optamos por testar aqui, um dos movimentos do quinteto de Schubert, o primeiro da peca original e o que utilizamos como ultimo nos ensaios, que tem quase 20 minutos. Antes disso mostramos uma especie de “preparacao” para  a corrida, com Fabio tirando som amplificado do corpo, Cipo documentando tudo com o celular, Alexandre colocando pregos na parede e esticando a linha invisivel, eu matando um boi no chao com a onca, com as mascaras sendo colocadas na frente do publico. Os caes do Jaap aparecem no meio do Schubert, primeiro de longe ate vir mordendo de perto, ameaca presente, perigo eminente. No final um longo silencio em pe atras do microfone, todos numa linha, entre espera e promessa, entre ser e estar, entre o que e’ e o que ainda pode vir a ser.

O que tem vindo do publico ate agora e chamado minha atencao, e’ o fato de se poder ver o corpo transformado pelo esforco, corpo submetido a uma resistencia fisica e mental, detonadora de suas funcoes voluntarias, corpos recarregados pela persistencia, emaranhados em um devir. O artista vindo da Servia chamado Bogomir – que divide o programa conosco – nos fala sobre o que viu: Fetiche e icones, e o espaco aberto para o confronto, o desconforto, e a diferenciacao entre o espaco performatico compreendido pela danca e o teatro, e um outro, destinado a uma arte performatica do momento, arte essa que relativiza os sentidos de politica e ritual, anarquismo e ativismo, construcao e desconstrucao.

Essa semana temos ainda Tilburg e sabado a ultima em Amsterdam, quando acontecera um bate papo aberto com o publico, com cada artista sendo entrevistado por um mediador. Os pequenos fragmentos recolhidos pelo cipo no video do celular – detalhes dos corpos, a linha invisivel, a cara do publico, a corrida em circulo – serao transformados depois em um mini-doc e postado no blog.

Pra mim a maior diferenca e’ a possibilidade de se ter aqui um feed-back detalhado e pormenorizado do que ve e pensa o publico sobre o que foi mostrado, nao no sentido de gostei ou nao gostei, de parabens, arrasou, sei nao…mas muito claramente o que foi sentido, absorvido, compreendido, sem necessariamente ter que ser a verdade absoluta ou o julgamento final. Ai me dei conta de forma impactante que ate hoje nao sei o que pensa o Nucleo do Dirceu sobre o Matadouro. E isso nao pode ser considerado um detalhe apenas, ou justificado pela falta de tempo ou credito no celular.



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6 Comentários

  1. janaina disse:
    2 de abril de 2010 em 0:28

    Nossa, fiquei muito curiosa com esses cachorros… são de verdade? em “cena”?
    to viajando imaginando a mostra que eu vi aqui e esses cachorros. forte.
    e tem aqueles cachorrinhos do sertão…

    merda merda garotos!


    Responder
  2. marcelo disse:
    2 de abril de 2010 em 7:57

    nao jana, sao cachorros de som…sao latidos de todos os tipos.
    mas da pra sentir quase de dentro.
    beijo


    Responder
  3. fagão disse:
    4 de abril de 2010 em 22:06

    esse texto veio me situar de uma maneira mais clara em relação a este espetáculo nesse momento, primeiro por que faço parte desse “devir” e segundo por que esse estanque que dividiu o elenco, digo realmente dividir por que não posso comparar a sensação que venho sentindo depois das breves conversas que tivemos sobre o Matadouro quando estavamos em havana com o momento em que vocês aí em Amsterdã estão inseridos nesse trabalho, é impossível dizer que não é diferente. Em mim ainda é real aquilo que chamo de dever cumprido ou batalha ganha depois da mostra no galpão – que naquele instante soava quase como ares de premier, de coisa que já possuía um direcionamento claro e definitivo em se salvaguardando os ajustes técnicos que precisariamos fazer depois. Sinto realmente que os ares vindos daí depois do Prufrok, possam de alguma maneira nos fazer sentir que ainda existe um caminho que precisa realmente ser remexido, principalmente no que diz respeito à nossa existencia enquanto artista e do entendimento claro do que vem a ser um posicionamento político pelo viés da arte…obrigado Marcelo pelo texto!!!


    Responder
  4. marcelo disse:
    6 de abril de 2010 em 18:59

    falou fagao…obg pelo comment. o matadouro tem reverberado ainda, e a certeza maior e’ a de que temos ainda muito pra descobrir, remexer e acertar. abraco!


    Responder
  5. jana disse:
    6 de abril de 2010 em 19:28

    Bom, de qualquer forma fica aí a sugestão dos cachorros (reais), na hora de remexer nesse processo!!!
    bjos


    Responder
  6. bebel disse:
    10 de abril de 2010 em 18:55

    Fazia tempo que não entrava na internet. Tava muito curiosa sobre como teria sido o processo aí na Holanda. O texto é forte e claro. Faz eu me imaginar junto com vcs. Agora mais do que nunca eu tô extremamente anciosa pra retomar os nossos ensaios, sinto que tem muito caldo pra escorrer, sinto a maravilhosa sensação de ter tudo e nada. De estar sem chão e com várias idéias na cabeça, como se fôssemos começar denovo. Tô bastante curiosa sobre os cachorros, me alegra imaginar como deve ter sido com eles.


    Responder

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