Matadouro que Mata e Morre

Por: às 06/10/2010 16:58:37


A terceira parte da minha trilogia – que na fase inicial da pesquisa chegou a se chamar “Itens de Primeira Necessidade” mas acabou por se nomear acertadamente “Matadouro” – vai se fazendo como uma luta numa condição de completa precariedade.  Vasculho os dicionários e confirmo a definicao da palavra:

precário adj.

1. Inseguro, não estável.

2. Pobre; difícil; minguado; estreito.

3. Frágil; débil; delicado.

4. Jur. Que não é nosso, que se possui por mercê ou empréstimo.

Precariedade é’ uma palavra estranhamente sonora, filha bastarda de uma condição a ser negada e pouco usada em termos comuns porque parece anteceder miséria ou desastre. A palavra extrapola nesse processo qualquer definição de julgamento para se tornar para nos um direcionamento honesto  e coerente, como um sentido de viabilidade plausível, ou uma possibilidade – talvez a única – farta de real. Enquanto o Brasil se engalfinha entre um burguês e uma guerrilheira para decidir quem será seu presidente, um palhaco é’ eleito deputado federal com mais de 1 milhao de votos. Enquanto o Piaui tenta driblar os índices comprovados de miséria, o ex prefeito deixa o cargo para disputar as eleições para governador na tentativa de subir de posto e ganhar mais poder, com o discurso esfarrapado de quem se pretende necessário.

Arte e política andam cada vez mais juntas, se completam e se confundem, e a precariedade se institucionaliza corriqueiramente na política nacional. Se a arte de hoje opera intrinsecamente no terreno da política, seja como alvo ou estandarte, seja como dispositivo de poder ou resistência, deveríamos também assumir como artistas a condição inevitável de precariedade vigente. Deixar que o precário se incorpore e possa se mostrar assim, numa condição de transparência reflexiva em meio a uma total banalizacao e descaso com nossos propósitos. Fato que, se chega a ser irônico, serve também para amedrontar e tirar o sono.

Garantimos assim para esse “Matadouro” a condição real de precariedade e nos abastecemos dela quando nao mais nos sobra forca para lutar, quando nao mais podemos acreditar que se pode reavivar essa palavra antiga e sem uso (shhiii…esperança!) ou quando nos entregamos aas comodidades entorpecentes do nosso dia-a-dia de cidadãos modernos subalternos ao capitalismo. E acontece como uma morte lenta e imperceptível, fato consumado que ja nasce caduco pelo extravio da própria vontade de ser, e pelo direito negado de apenas e simplesmente existir.

O precário portanto nao se reduz a uma ética populista e nem a uma estética de vanguarda. O precário não institucionaliza a contemporaneidade e nem vitimiza os seus seguidores. O precário nao se da como senha de acesso e nem palavra de ordem para batalhoes desgovernados. O precário nao poem a mesa e nem come os restos catados no chao. O precário nao obedece ordens e nem se submete aos encantos novelescos de uma vida dita plena e feliz. O precário engole seco sem morder a lingua, cospe fogo do incendio de dentro,  fareja o que nao tem cheiro para  vomitar o que nao faz falta. O precário reclama a prole ilegitima e destrava trancas da porta dos fundos. O precário esburaca as beiras e parece espantar o medo que vigia qualquer espera. O precário dança inerte com uma alegria esvanecida pelas horas aridas, feito fantoche na mao da sorte ou estropício do azar.

Esse “Matadouro” teima em urrar sangrento, se debatendo as cegas com murros em ponta de facas, enquanto perde anéis e dedos numa luta desigual entre vencidos. Resiste aos acertos que consolam e dignificam e insiste no exercício insano da disputa por um querer fragil, mas que – justamente -nos constitui como (apenas) seres humanos. E nao para nem para enterrar seus natimortos, que nem ainda se sabem mortos e nunca se souberam vivos. Esse “Matadouro” luta feito bicho-gente-coisa esfacelado de amor, na selvageria de corpos em condição de matáveis, matantes, matados, exauridos, aniquilados, exterminados, extirpados… mas ainda assim corpos. Matadouro que mata e morre e repete mudo para si mesmo entre cadáveres de onde foram roubados os ouvidos: Amor, Amor, Amor…



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Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

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  • Elielson Pacheco: Me sinto meio idiota no momento. E fico pensando qual é o ponto do desmoronamento que tem que ir...
  • César Costa: Marcelo, concordo contigo quando diz que só o fato de ser artista já não te coloca como medíocre. Se...
  • Danielle: Não dá pra não fazer conexões entre as coisas ditas, ouvidas, feitas, vistas e acontecidas. Acho que não...
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