As conversas no galpao do dirceu apos os espetaculos estao acontecendo cada vez mais de forma informal e inspirada, de maneira que nao deixam de me surpreender. Primeiro porque normalmente essas conversas desviam facilmente para um lenga-lenga longo e chato, ou caem numa enumeracao de titulos e feitos de alguns, apenas para que esses possam dar trela a discursos egoicos fundamentados. Nada de mal quando isso acontece, mas tenho me surpreendido justamente porque nossas conversas veem fluindo tranquilas, com uma boa participacao das pessoas e com falas e opinioes que propoem novos pontos para serem pensados a partir do que tem sido visto, no caso os espetaculos do BAFO de agosto.
Sera que estamos chegando a um nivel de treinamento em pensar, ouvir e falar que ja nos possibilita transitar mais livremente pelo mundo das ideias? Sera que estamos desenvolvendo anticorpos contra uma ignorancia generalizada que nos torna zumbis submissos? Ou sera que estamos finalmente conseguindo entender que pensar e’ fazer e que discurso ta imbricado na acao e vice-versa? diretamente com a outra. o que eu vejo acontecendo e’ uma disponibilidade maior em se pensar e compartilhar, e uma quase generosidade em se expor e destrinchar questoes ou reafirmar posicionamentos pessoais, o que vem se tornando certamente uma maneira de estar presente de forma engajada e seria.
As opinioes divergiam parece que apenas para que nos dessemos conta do fato de que existem muitas possibilidades abertas por uma obra contemporanea e de como e’importante que cada um traga sua propria leitura para ser compartilhada. essa troca de entendimentos tem sido important para entendermos de fato como precisamos encontrar um lugar proprio frente a cada obra experienciada.
Mas o fato de estarmos mais articulados nao quer dizer para nada que sabemos mais, ou que agora temos todas as informacoes para realmente ter um discurso coerente e satisfatorio. Uma coisa nao tem nada a ver
Hoje conversamos com a thembi rosa e o grivo depois da instalacao coregrafica “verdades inventadas” presentada por eles. Thembi colocou claramente sua proposta conceitual e seus pontos de partida para a obra no inicio da conversa. E ai a conversa rolou solta. As pessoas queriam entender a musica – que foi explicada pelo grivo com detalhes curiosos dessa experimentacao – e tambem discutir a funcao do video na instalacao.
Para mim a questao fundamental da obra da thembi rosa/o grivo esta na relacao entre o chao que move instavel e quebradico e o corpo que parece fazer soar alarmes com sua danca. Uma danca talvez vigiada por um olhar panoptico e regulador, porque a instalacao que abriga esse corpo vem de um sistema sutil de alarme instalado no chao de um templo no japao, o que inspirou e deu forma aa obra da artista plastica rivane neuenschwander, que criou a estrutura de Madeira para a instalacao.
Havia na conversa de sexta-feira pessoas da universidade – professores e alunos – e outros jovens que tambem estao se chegando, e isso definitivamente ajudou a engrossar o caldo. As informacoes vao se chegando, se ajuntando, e se modificam a medida que passam a ser de todos. Me alegra bastante perceber esse interesse em discutir, em tentar entender e articular aqueles sentidos todos em um grupo de discussao. Sobretudo me deixa feliz por sentir que essas conversas estao se tornando fatos corriqueiros, momentos necessarios e ate prazerozos para nos. O que voce tem a dizer?