Move_matadouro_Berlin

Por: às 09/04/2011 14:22:36

Matadouro abriu o Move Berlin. A noite gelada no teatro marrom e azul HAU teve um certo tom formal de première, falas, púbito, e ao mesmo tempo um burburinho abrasileirado quente de conversa, reencontro, coquetel, champanhe. Muita gente, muitas línguas, reações distintas. Sim, o público aqui é outro, agora entendo melhor “como é isso” . Wagner e Dirk pontuaram em suas falas, dentre outras coisas, a política de descentralização do festival Move Berlin. Uma expansão do eixo Rio-São Paulo em busca de outros muitos “brasis”. Falaram rapidamente sobre o Piauí/Teresina e ao apresentar o Matadouro citaram Torquato Neto ( ” levem um homem e um boi ao Matadouro, o que gritar primeiro é o homem, mesmo que seja o boi”).

A tal legenda em alemão, tinha no meio de trocentas consoantes, nomes muito próximos pra mim:  Piaui, Teresina, Torquato. Foi engraçado isso. Aliás, talvez engraçado não seja a melhor palavra. Foi sei lá o quê…não era uma sensação piegas de patriotismo ou orgulho regionalista, longe disso, acho que era mais próximo de uma constatação inevitável. Como se de alguma forma, você não pudesse escapar a sua origem, ao “lugar de onde se é”. Como se isso fosse pré, fosse condição. Uma rápida, bem rápida, sensação de pertencimento a uma “terra natal” que pra mim cada vez mais, é só mais um lugar como qualquer outro no mundo.  Foi também um certa estranheza por estar necessariamente representando algo, um lugar.

O festival é  uma celebração, uma comemoração que a todo instante reafirma a conexão, a parceria Alemanha-Brasil. E eu gosto da idéia de vínculo. É como se tudo fosse enfatizado, sublinhado, e o tempo todo relacionado com um LÁ… “porque lá no brasil é assim… porque lá no brasil isso..porque lá…” e essa vibe  é alimentada por mapas do Brasil nas paredes, por pessoas de vários lugares tentando falar palavras em português o tempo todo, por um certo interesse sobre os corpos, por uma curiosidade-frisson sobre a coisa toda Brasil. Para alguns de nós – do núcleo e da equipe do Matadouro – que estão conhecendo outro país pela primeira vez  essa sensação de se sentir o outro, o estrangeiro, o que vem de um outro lugar como convidado, ainda é uma coisa recente. Eu diria curiosa. É uma lógica sutilmente inversa, e de fato parece as vezes que a maneira como o outro te olha, é uma outra.

De qualquer forma, para além disso e de outras coisas, o Matadouro acontece. E acho que eu teria que ter mais tempo para escrever sobre isso, sobre a apresentação em si.

Compartilho: não consegui parar de pensar no último ensaio/encontro no Brasil, da frase “é este o Matadouro que vamos levar pra Berlin”. Lembro que, concordamos, não faria sentido algum deslocar o Matadouro das circunstâncias pelas quais estamos passando aí em casa. Circunstâncias essas que ainda não estão colocadas tão claras aqui nesse espaço virtual, por uma certa indiferença velada, por uma precaução, mas principalmente, por um grande receio. Receio talvez de escrever e materializar o que nos acontece. Receio até, antes, de se usar a terceira pessoa e falar por um “nós”. Afinal, ainda se pode falar em terceira pessoa? Quem (e o quê)  estaria realmente  implicado nesse pronome?

Me permitindo o tom dramático-barroco eu diria: mesmo de longe tudo parece ruir. E isso nem tem um juízo de valor, de bom ou ruim. E eu nem sei dizer, ainda, o que exatamente cabe no termo “tudo”. É só uma constatação.

Apesar da distância. O afastamento – necessário para se olhar a coisa toda de longe – parece não ser suficiente, parece não funcionar como “solução”. Pelo menos, ainda. E talvez tenha uma certa pressa, minha. È difícil explicar,  o quanto as ultimas semanas aí no Brasil, estão conectados a esta viagem.

O que percebo nas pessoas é toda a força e potência de uma resistência/amor que aparece no trabalho, na perfomatividade e no discurso. E ao mesmo tempo, toda a fragilidade e displicência de corpos cansados que parecem não sustentar mais uma escolha. Que INVARIAVELMENTE , dali a pouco, vez ou outra, caem no lugar do descrédito, do descumprimento de acordos simples, caem nos “vacilos” e equivocos da comunicação e das posturas profissionais. É uma oscilação paradoxal e estranha.

Ontem, segundo dia de apresentação, foi ainda mais difícil. Mesmo assim, a conversa de uma hora e meia com gente de muitos lugares do mundo sobre o espetáculo foi forte, precisa. São inúmeras conexões e não importa de onde elas vêem , se de alemães, thecos, holandeses, espanhóis…. os assuntos/questões passam pela construção dramatúrgica,  pelas escolhas, por uma historicidade, por clichês do circuito dança, por uma condição global do homem.

Matadouro não pode ser encenado, representado.

Ele é, pra mim, a metáfora mais coerente e verossímel desse lugar núcleo agora. E não apenas no palco, na hora em que acontece, mas no almoço, no aeroporto, nos quartos, no passeio do museu do holocausto.

Fora isso, tem Berlin! Então…fui lá!



Compartilhe:





Você também pode gostar de:


2 Comentários

  1. Leo disse:
    11 de abril de 2011 em 1:24

    Lay!
    Obrigado pelo poste!
    Antes mesmo de comentar preciso rasgar uns elogios… MUITO BOM, LINDO, ADOREI!!!
    Bom, então, pelo menos pra mim, que fiquei aqui e também estranhamente conectado a esta viagem, funcionou como reportagem reconfortante do meu anseio por notícias, narrativa profundamente sensível e atenta aos mínimos detalhes, dos oportunos alarmes e saídas de emergência, aos pronomes vagos, e mapas do brasil nas paredes, da sensação de representação de um lugar, e do olhar que te coloca no lugar de “outro”.
    Penso na medida em que esse desfoque que acomete a idéia de nós está relacionado à noção crescente de sermos de “só mais um lugar como qualquer outro no mundo”, sobre uma dificuldade ou relutância em representar algo, um lugar, quando sabemos que qualquer representação não dá conta da totalidade, da complexidade, quando nem sabemos mesmo o que é todos, e ao mesmo tempo tentamos ser alguma coisa. Bem confuso.
    (ps. e isso não é só sobre vc lay)


    Responder
  2. jana disse:
    11 de abril de 2011 em 20:18

    faço coro com o léo!


    Responder

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*


+ 4 = 13

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Quem Somos:

Uma plataforma entre 17 e 20 artistas de produção e pesquisa em artes perfomáticas que opera dentro de um sistema colaborativo, atuando em diferentes linguagens. Temos o bairro Dirceu Arcoverde, maior periferia de Teresina, Piauí, como campo de interesse e lugar de referência urbana. O projeto tem se voltado principalmente para a criação de mercado e platéia para a arte contemporânea, formação de novos criadores e pesquisa de linguagem.

Categorias

Comentários

  • L.H.: A peteca caiu mesmo. Também sinto parecido Eli. E acho muito preciso algumas de suas colocações. Mas quero...
  • Elielson Pacheco: Me sinto meio idiota no momento. E fico pensando qual é o ponto do desmoronamento que tem que ir...
  • César Costa: Marcelo, concordo contigo quando diz que só o fato de ser artista já não te coloca como medíocre. Se...
  • Danielle: Não dá pra não fazer conexões entre as coisas ditas, ouvidas, feitas, vistas e acontecidas. Acho que não...
  • weyla: Hoje conversando com minha avó ela me disse que não queria mais comprar roupas porque tava perto de...

arquivo